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Isabela Boscov

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Negócio das Arábias

Você precisa de um sujeito decente? Ainda não há quem se compare a Tom Hanks

Por Isabela Boscov 4 ago 2016, 03h50 • Atualizado em 16 jan 2017, 15h09
  • Alan Clay, o protagonista de Negócio das Arábias, tem nas costas não só um casamento naufragado, como uma grande empresa falida – a tradicionalíssima indústria de bicicletas Schwinn, da qual ele era presidente e que vendeu para a China (o caso é verídico, embora o personagem seja fictício). Centenas de pessoas perderam o emprego por causa das decisões ruins de Clay; e ele perdeu a família, a casa, o dinheiro e o respeito por si próprio. Nas audiências de divórcio, a ex-mulher o humilha e esfola; quando ele liga para o pai, ele o desanca pelas burradas. Como ainda precisa dar um jeito de pagar a universidade da filha, Clay convence uma empresa de tecnologia de que é o sujeito certo para ir vender um revolucionário sistema holográfico de conferências para o rei da Arábia Saudita. Mas, sob o sol de 50 graus de Jedá, o negócio está patinando – o rei nunca dá as caras, a equipe de Clay está assando dentro de uma tenda no meio do deserto, ele perde a hora todos os dias, nada avança. Como um diretor que tem nas mãos um personagem tão resolutamente enrascado consegue convencer a plateia de que ela deve, desde o primeiro instante, depositar toda a sua confiança nele e torcer para que essa última chance funcione? A solução rápida e eficaz é a encontrada pelo cineasta alemão Tom Tykwer: escale Tom Hanks para o papel, ora.

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    Não sei se ainda há por aí alguém que duvida do talento de Tom Hanks. Espero que não. Como James Stewart antes dele e Matt Damon depois dele, Hanks é um mestre em artes dificílimas: é um astro mas consegue ser autenticamente comum, e comunica a decência mais fundamental e completa sem parecer nem ingênuo, nem simples, nem inocente ou inexperiente. Apesar do seu otimismo (ou da sua aparência de otimismo), Alan Clay é um desesperado, e há poucas coisas no mundo menos convidativas do que esse cheiro particular que o desespero exala: ver um sujeito com um sorriso carimbado no rosto enquanto implora por uma chance, ou que acossa um cara que nem se dá ao trabalho de parar para ouvi-lo, ou que precisa caprichar na simpatia de vendedor para arrancar uma informação de uma recepcionista – em geral, a nota patética dessas situações se sobreporia a todo o resto. Mas Hanks faz essas coisas indignas com tanta dignidade, e com tanta leveza e graça, que não há como duvidar de que Alan Clay merece também ele uma graça – do tipo que cai do céu, no caso.

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    Tom Tykwer estourou no final dos anos 90 com Corra, Lola, Corra (se você não viu, corra para ver) e nos anos seguintes fez outros filmes que eu adoro, como Paraíso e A Princesa e o Guerreiro. Ultimamente, deu para trabalhar com Lana e Andy (agora Lilly) Wachowski – o que não me parece uma escolha muito sensata –, co-dirigindo o incompreensível A Viagem (que tinha Hanks no elenco) e a série assim-assim Sense8. Negócio das Arábias é uma espécie de meio de caminho entre essas duas vertentes: tem aquele pano de fundo multicultural do trabalho dele com os Wachowski, mas não é viajandão, e sim de novo firmemente centrado num personagem. Quem leu o romance homônimo de Dave Eggers em que o filme se baseia reclama por o tom fatalista do texto ter sido transformado: o escritor faz uma espécie de autópsia do americano comum de classe média com o qual o fim do século XX não foi lá muito generoso, enquanto o diretor, embora não fuja totalmente do tema, está mais interessado na possibilidade de reinvenção que ele contém.

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    O filme, é verdade, tem coisas que não são exatamente novas, como a sensação surreal do ocidental na Arábia Saudita, ou o motorista de táxi simpático (e Alexander Black corresponde à descrição) que vai servir de guia ao estrangeiro e franquear a ele o acesso a coisas que nenhum turista poderia ver de perto – inclusive a Meca, a cidade mais sagrada do Islã, na qual é proibida a entrada de não-muçulmanos. Mas o fato é que esses elementos, mesmo sem muita originalidade, funcionam. E Tykwer, além disso, está tão enamorado da atuação de Hanks e da maneira como os outros atores respondem a ele que se deixar carregar pelo elenco para lugares melhores do que os previstos no roteiro.

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    Um dos perrengues que Alan Clay enfrenta durante sua estada na Arábia Saudita, por exemplo, é um estranho calombo nas costas – uma manifestação física dos fracassos que vêm lhe pesando nos ombros. Quando ele vai parar no hospital depois de uma tentativa de auto-cirurgia, é atendido por uma médica, uma raridade em um país tão rigorosamente muçulmano. A doutora Zahra, interpretada pela ótima Sarita Choudhury, tem uma melancolia e uma veia rebelde com as quais Clay imediatamente se identifica. O que poderia ser um romance forçado e meio constrangedor vira, com esses dois atores, uma aproximação tão tateante e cuidadosa, e tão cheia de frescor, que é difícil resistir a ela.

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    Da mesma forma, a apresentação do sistema holográfico vira um momento de encanto: a demonstração que Hanks e Ben Whishaw (que Tykwer dirigiu em Perfume) fazem para o rei mais parece um número de mágica do que uma estratégia de venda, e a cena toda irradia deslumbramento com a ideia de que pessoas tão distantes no globo possam se sentir tão próximas. Por mais sentimental ou mesmo banal que a ideia soe, há algo na sinceridade de Tykwer e Hanks que faz com que, por um momento, ela pareça possível, e também inebriante.

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    Trailer


    NEGÓCIO DAS ARÁBIAS
    (A Hologram for the King)
    Direção: Tom Tykwer
    Inglaterra/França/Alemanha/Estados Unidos/México, 2016
    Com Tom Hanks, Alexander Black, Sarita Choudhury, Sidse Babett Knudsen, Khalid Laith, Tracey Fairaway, Tom Skeritt, Ben Whishaw
    Distribuição: Mares Filmes

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