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Hoje é um bom dia para ver (ou rever)… Vincere

Por Isabela Boscov Atualizado em 11 jan 2017, 16h20 - Publicado em 4 jun 2016, 18h57

Um drama da maior categoria do veterano Marco Bellocchio

O italiano Marco Bellocchio está com 76 anos e continua na ativa, filmando e muito bem, por sinal. Mas não é só pela recusa em vestir o pijama que eu o admiro, assim como a outros cineastas que estão na faixa dos 70 ou mesmo 80 anos e ainda adoram trabalhar: é porque quem tem o ânimo de, nessa idade, enfrentar o trabalho imenso que é uma produção de cinema em geral o faz porque continua inquieto, insatisfeito, à procura – porque continua com os pés e a cabeça neste mundo. Há alguns anos, Bellocchio fez o que poucos diretores têm a chance de fazer em qualquer idade que seja: um filme tão palpitante e contundente, tão importante no que tem a dizer e na maneira como o diz, que revigorou não só sua carreira como o próprio cinema italiano da década.

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Vincere, que está no Netflix, é um assombro e uma paulada. Ao examinar a persistência com que o ditador Benito Mussolini (1883-1945) tentou apagar da sua história todos os registros de seu primeiro casamento, transformando sua mulher e o filho que eles tiveram em fantasmas, Bellocchio propõe um argumento poderoso: um líder ou político, ainda que faça os outros acreditarem que ele é grande, nunca será maior do que o homem que existe dentro dele. De alguma maneira, as mesquinharias, venalidades, deformações, baixezas e ganâncias do caráter pessoal vão se reproduzir inevitavelmente na pessoa pública. E mais não digo. É assistir e pensar.

Leia a seguir a resenha que publiquei quando o filme foi lançado nos cinemas:


O homem que deu à luz o ditador

Em Vincere, o diretor Marco Bellocchio conta a história da primeira mulher de Benito Mussolini – e de como ela e o filho foram levados à morte para não prejudicar sua ascensão

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O italiano Marco Bellocchio é um grande cineasta, dono de um estilo robusto e vigoroso. E, especialmente nesta parte mais tardia de sua carreira – ele está com 70 anos –, tem sido também um sincero defensor da ideia de que o cinema pode ter papel relevante na reavaliação, ou mesmo na construção, da história de seu país. No exemplo mais conhecido dessa sua veia, o magistral Bom Dia, Noite, de 2003, Bellocchio revia um acontecimento decisivo para a Itália das últimas décadas – o sequestro e assassinato de Aldo Moro, presidente do Partido Democrata Cristão, em 1978 –, segundo o ponto de vista de uma das terroristas das Brigadas Vermelhas envolvidas na ação. No roteiro adaptado por Bellocchio do livro-reportagem O Prisioneiro, a protagonista Chiara passava, durante os dias do sequestro, de brigadista convicta a uma mulher em crise de fé. Entreouvindo as argumentações de Moro com seus companheiros, acompanhando os jornais e discutindo com um colega de trabalho que ignorava seu comprometimento, Chiara pouco a pouco se dava conta não só da crueldade do crime em progresso, como de sua absoluta ilegitimidade ideológica e política. Bom Dia, Noite descrevia, enfim, um doloroso processo de iluminação. Um despertar ainda mais sofrido, vivido por outra mulher, é o tema de Vincere. E, novamente, Bellocchio o usa para recolocar em foco um momento divisor de águas na história da Itália no século XX: a metamorfose de Benito Mussolini de agitador socialista em ideólogo do fascismo, sua ascensão ao posto de ditador e aliado de Adolf Hitler e a impressionante – melhor seria dizer inexplicável – ascendência que ele adquiriu sobre os italianos.

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Em Vincere, ou “Vencer”, essa história se desenrola sob a perspectiva de Ida Dalser, uma jovem instruída, dona de um salão de beleza em Trento, no norte da Itália, que em 1909 conheceu o jovem Benito e se apaixonou violentamente por ele. A Ida interpretada por Giovanna Mezzogiorno é em tudo o contraponto ao Mussolini vivido pelo excelente Filippo Timi: dos cabelos de um loiro acinzentado e olhos azuis à silhueta frágil, ela é uma espécie de imagem em negativo do homem rijo, enérgico, de cabelos e olhos negros. É o contrário dele também na índole. Sua superfície composta abriga um interior passional – enquanto o exterior passional dele oculta, na verdade, calculismo e deliberação. Nesta primeira parte do filme, narrada com cores fortes, o amante é o ídolo de Ida e sua razão de ser. Ela vende tudo para bancar a fundação do jornal Il Popolo d’Italia, uma das armas de Mussolini em sua busca pelo poder; pega fogo quando ele a toca, e inebria-se ao descobrir que está grávida. Quando ele se alista para lutar na I Guerra, Ida sofre em cada instante da separação. E, então, quando ela vai visitá-lo em um hospital de campanha, sua história atordoan­te começa de fato. Já antes de partir para o front, Mussolini casara-se com outra mulher, Rachele Guidi. Não só enxota Ida, como começa a apagar de sua biografia todos os vestígios dela e do filho, Benito Albino Mussolini.

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O sucesso da empreitada foi quase absoluto. Só há uns poucos anos o jornalista Marco Zeni conseguiu trazer à tona, em todos os detalhes sórdidos, esse capítulo na história do ditador. Ida foi tachada como louca e internada em manicômios. O filho foi tirado dela e teve o sobrenome mudado. Foi também estreitamente vigiado durante toda a vida, e morreu aos 26 anos, em um manicômio – como a mãe –, onde recebia à força injeções de drogas potentes. Todos os documentos de Ida e do filho foram sequestrados pela polícia fascista, que procurava obsessivamente a certidão do casamento dela com o ditador, celebrado em 1914. A certidão nunca foi encontrada; Ida, ao que se sabe, escondeu essa única prova de sua lucidez. Pelas lentes de Bellocchio, trata-se de uma trajetória de desespero e desamparo crescentes: depois da cena no hospital, Filippo Timi não mais é visto no papel de Mussolini. É substituído pelo próprio, em imagens de arquivo: Ida está a partir desse momento privada da pessoa real e, como todos os demais italianos, sujeita ao mito – o do homem maior que tudo, com sua retórica esmagadora, cercado de camisas-negras e de multidões em estado de adoração.

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A missão que Vincere se impõe é lembrar que sob um ícone existe sempre um homem, e que este é a matriz inescapável da figura pública; uma nunca poderá ser maior do que o outro – e Mussolini, o homem, levou à morte a mulher e o filho que poderiam prejudicar sua ascensão. Bom Dia, Noite foi feito em um momento em que, na esteira dos atentados de 11 de setembro, a onda antiamericana ensejou uma relativização da culpabilidade do terrorismo. Vincere, pode-se especular, surge em resposta aos setores da política e da historiografia italiana que ensaiam uma reabilitação de Benito Mussolini. E, pode-se especular um pouco mais, também em reação à presença tão duradoura do bufão Silvio Berlusconi, em seu terceiro mandato como primeiro-ministro apesar de viver metido em escândalos com garotas de programa e às voltas com os efeitos de suas declarações de conteúdo deplorável. Que se examinem os homens, argumenta Bellocchio, porque não há hipótese de que os chefes de estado em que eles se constituem possam ser superiores a essa matéria-prima. O diretor faz, assim, um belo filme – e dá uma contribuição substantiva à vida pública.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA em 21/07/2010
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2010

VINCERE
(Itália/França, 2009)
Direção: Marco Bellocchio
Com Giovanna Mezzogiorno, Filippo Timi, Fausto Russo Alesi, Michela Cescon, Corrado Invernizzi, Francesca Picozza, Pier Giorgio Bellocchio

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