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Isabela Boscov

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Hoje é um bom dia para ver (ou rever)… Além da Vida

Por Isabela Boscov Atualizado em 30 jul 2020, 23h10 - Publicado em 27 mar 2016, 19h36

No olhar equilibrado de Clint Eastwood, três personagens se preocupam com o lado de lá da morte

Hoje, Domingo de Páscoa, é o dia em que se comemora a Ressurreição – mas o que Clint Eastwood examina, neste filme que ele lançou em 2010 (e que está disponível no Netflix), é que qualquer fé em uma vida posterior tem de passar antes pela realidade devastadora da morte. Além da Vida não tem nenhuma inflexão mística ou religiosa; não tem também nenhum interesse em desmontar as possíveis crenças de seus personagens com explicações racionais; tudo que ele quer é observar o efeito que a ideia de uma vida após a morte exerce sobre a vida presente e terrena de três pessoas muito diferentes, interpretadas por Cécile De France, Matt Damon e os garotos gêmeos Frankie e George Mclaren. É um filme lindo, porque trata acima de tudo das razões pelas quais vale a pena viver. E é também um filme verdadeiramente ecumênico: crentes de qualquer religião, ateus, agnósticos, indecisos e indiferentes são todos bem-vindos.

Leia a seguir a resenha que publiquei na Veja quando o filme foi lançado nos cinemas:


 O sentido da vida

O diretor Clint Eastwood segue três pessoas tocadas pela morte e preocupadas com o que há além dela. O resultado não tem nem traço de proselitismo religioso – e é sublime

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Em Além da Vida, Cécile De France é Marie, uma jornalista francesa que, em férias na Ásia, decide dar um último passeio antes de sair para o aeroporto. Enquanto escolhe uma pulseira numa barraca, ela e a vendedora pressentem uma comoção no fim da rua: as palmeiras da beira da praia estão vindo abaixo como se estivessem sendo pisoteadas por um monstro. Antes que possa formar uma compreensão racional do que vê, Marie é tragada, junto com tudo e todos mais, por um colosso de água que avança arremessando corpos, automóveis e pedaços de prédios uns contra os outros, mutilando-os e aniquilando-os. Cabe assim a um cineasta de 80 anos, afeito a orçamentos modestos e sem nenhuma pretensão no gênero do filme-catástrofe, rodar a mais impressionante recriação cinematográfica de um desastre natural – o tsunami que se formou no Oceano Índico em 26 de dezembro de 2004 e deixou 230 000 mortos. Mas não é apenas porque as escolhas técnicas de Clint Eastwood são perfeitas que a cena é tão superlativa: é porque seu propósito é o inverso do habitual. Em vez de assombrar com imagens de destruição em massa, o que o diretor quer aqui é trazer o cataclismo para um plano pessoal e estabelecer que, para a maioria de nós, o momento da morte, a nossa e a alheia, é de extremo pavor e de luta aguerrida. A morte, para se impor, tem de arrancar a vida com violência e brutalidade, porque poucos de nós estão preparados para recebê-la.

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Marie morre por alguns minutos, e retorna à vida. Mas nunca mais será a mesma: ela tem certeza de que viu o lado de lá e, de volta a Paris, insiste em falar nele mesmo à custa de sua credibilidade profissional. Esse sentimento, o de que não há como aceitar o fim porque se teve uma intimação de que ele não é absoluto, marca também a trajetória dos dois outros protagonistas de Além da Vida. Matt Damon é George, um médium que mora em São Francisco e já ganhou muito dinheiro servindo como intermediário entre as demandas de vivos e mortos. Mas não o faz mais porque essa tarefa o pôs à margem da vida, na qual ele tenta se recolocar por meio da normalidade – trabalhando como operário no porto, frequentando um curso de culinária para conhecer novas pessoas. Os vivos, porém, continuam sempre empurrando George para encontros com os mortos. Em Londres, enquanto isso, os gêmeos Marcus e Jason (Frankie e George McLaren, fazendo ambos os papéis), de 11 anos, tentam proteger a si e à mãe drogada da interferência das autoridades; até que uma desgraça sobrevém e Marcus, o retraído do par, se vê sozinho e perplexo.

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No excelente roteiro do inglês Peter Morgan – de A Rainha e Frost/Nixon –, as três histórias não se entrecruzam: seus personagens é que vão se encontrar em dado momento, guiados exatamente por sua difícil relação com a morte. Entregues a atores magníficos em seus papéis, eles iluminam sentimentos distintos a respeito dela. A esperança de que se possa continuar para além dela, no caso de Marie; a mutilação da perda, no caso de Marcus; e os assuntos que a morte deixa pendentes, no caso de George. Eastwood, porém, é tão comedido que nem há como identificar quais suas convicções pessoais acerca da sobrevivência do espírito. Tudo o que importa é que seus protagonistas, seja com entrega, seja com relutância, acreditam nela: foram tocados de perto pela morte muito antes do que seria justo ou natural, e ela agora define suas vidas. Daí a imaginar que ao escolher este tema, nesta idade, Eastwood está ele próprio contemplando a ideia do fim vai só um passo – mas o passo parece errado. Em uma cena que irradia júbilo e erotismo, por exemplo, George faz uma colega do curso de culinária (Bryce Dallas Howard) provar, de olhos vendados, pequenas colheradas deste tempero ou daquele prato. Estão ambos vermelhos de vergonha com tamanha intimidade – mas também encantados com o prazer recíproco e inesperado que ela lhes proporciona. O entendimento que Eastwood demonstra aqui das dúvidas que uma perda enseja já bastaria para fazer deste um grande filme. Que ele venha combinado a uma certeza tão funda sobre as coisas pelas quais vale viver, entretanto, é o que torna Além da Vida não poucas vezes sublime.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA no dia 05/01/2011
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
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© Abril Comunicações S.A., 2011


ALÉM DA VIDA
(Hereafter)
Estados Unidos, 2010
Direção: Clint Eastwood
Com Cécile De France, Matt Damon, Frankie McLaren, George McLaren, Bryce Dallas Howard, Jay Mohr, Richard Kind, Marthe Keller

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