Florence vs. Marguerite: quem ganha essa parada?
Entre dois filmes diferentes inspirados na mesma história, o de Meryl Streep diverte mais (mas é Hugh Grant quem brilha de verdade)

No final de junho, entrou em cartaz nos cinemas Marguerite, do diretor francês Xavier Giannoli, sobre uma socialite da Paris dos anos 20 que se crê uma cantora lírica sensacional – mas tem uma voz que é um horror. Agora, é a vez de Meryl Streep interpretar a personagem real na qual Marguerite foi inspirado: a americana Florence Foster Jenkins (1868-1944), que viveu feliz durante décadas imaginando ser uma soprano coloratura (aquelas que são capazes de trinados, cascatas de notas e proezas vocais agilíssimas) de imenso talento, embora fosse uma taquara rachada. Florence nunca acertou uma nota na vida. Mas a fortuna que ela distribuía com muita generosidade ajudou, claro, a preservar sua ilusão. Mais até do que o dinheiro, contudo, era a doçura dela que fazia com que pessoas como seu marido (Hugh Grant) e Cosmé McMoon (Simon Helberg), o jovem pianista que a acompanhava, alimentassem a farsa: revelar a Florence que ela era uma piada equivaleria a apunhalar seu coração de manteiga, e possivelmente matá-la com o golpe.
Marguerite tem mais caldo que Florence e é mais cinema. Mas, se preocupação de Xavier Giannoli era investigar o curioso caso de negação da personagem-título vivida com bravura por Catherine Frot, o interesse do diretor Stephen Frears em Florence é bem mais anedótico, e portanto mais divertido: reconstituir a estapafúrdia história de sua protagonista – que chegou a fazer um certo sucesso na linha freak show, vendendo discos e ingressos porque as pessoas simplesmente não conseguiam acreditar que aquilo estava acontecendo. O filme, então, teoricamente é de Meryl Streep – e o inglês Frears, que é um excelente diretor de atrizes, faz as honras. Glenn Close em Ligações Perigosas, Anjelica Huston em Os Imorais, Judi Dench em Sra. Henderson Apresenta e Philomena, Helen Mirren em A Rainha: graças à sua admiração por mulheres formidáveis e seu tino para transformá-las em personagens vívidas, Frears responde por uma taxa impressionante de indicações ao Oscar. Não há grande risco em apostar que também Meryl entrará pela vigésima vez no páreo (sim, vigésima, das quais três foram vitórias) com sua iludida Florence. Meryl, que na realidade é uma cantora muito afinada (embora não tenha voz operística), diverte-se à beça imitando os guinchos horrendos da personagem, sua expressão corporal cômica, sua vaidade ingênua – mas dá muita dignidade às suas miragens tocantes e aos sofrimentos que, depreende-se, levaram Florence a se refugiar em seu mundo de fantasia.

A grande surpresa de Florence – Quem É Essa Mulher?, porém, vem de outro lado: da maravilhosa interpretação de Hugh Grant como St Clair Bayfield, o ator fracassado, e bem mais jovem que ela, com que Florence se casou. Adoro Hugh Grant, e acho que ele é um gênio incompreendido da tragicomédia. Ele é frequentemente menosprezado – mas é tão honesto, como ator, que se aproveita dessa experiência de formas extraordinárias nos seus desempenhos. St Clair Bayfield é, juntamente com o protagonista de Um Grande Garoto, seu ápice: seria fácil retratar o marido de Florence como um canalha que se casou por dinheiro e que, quando a mulher cai no sono, vai direto do quarto dela para o apartamento da amante. St Clair é, de fato, esse canalha – mas é também um marido devotado, que não poupa esforços para amparar a mulher frágil que tanto depende dele, cercá-la de afeto e protegê-la da realidade que ela não teria forças para enfrentar. Baixeza e pureza se misturam de maneiras miraculosas em St Clair – e Hugh Grant, até por ceder sempre a cena com tanto desprendimento para Meryl e para o ótimo Simon Helberg (o Howard de The Big Bang Theory), faz o milagre parecer ainda maior.
Trailer
FLORENCE – QUEM É ESSA MULHER? (Florence Foster Jenkins) Inglaterra, 2016 Direção: Stephen Frears Com Meryl Streep, Hugh Grant, Simon Helberg, Rebecca Ferguson, Nina Arianda, John Kavanagh, David Haig Distribuição: Imagem Filmes |