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Por Coluna
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Em “Domando o Destino”, a poesia austera das vidas reais

Um caubói de rodeios que não pode voltar às arenas interpreta a si mesmo neste filme singular

Por Isabela Boscov
17 ago 2019, 18h05

Dói ver o jovem Brady Blackburn desenfaixar a cabeça e tirar, sozinho, os grampos de metal com que a remendaram; Brady é um rapaz muito novo e calado, e a fratura no seu crânio o assusta não só pelo que ela é, mas pelo que significa – que é improvável que ele possa voltar às arenas de rodeio nas quais monta cavalos bravos. Domar cavalos bravos, e montá-los em arenas, é só o que Brady sabe fazer e só o que ele quer da vida. Sem isso, ele não sabe quem é. Mas, sempre que vai visitar numa clínica o amigo Lane Scott, vê o que o espera se sofrer outro traumatismo grave – paraplegia e uma vida desfeita, ou pior. Deixe de lado o péssimo título nacional, que vende este filme como um clichê. The Rider (esse é o título original) passa a uma enorme distância dos lugares-comuns. É um filme de silêncios e de entreatos, que conquista aos poucos pela austeridade com que a história é mostrada e, por contraste, pela intensidade dos sentimentos que estão em jogo. (A única plataforma em que o encontrei é o Looke – onde, aliás, tenho encontrado várias outras surpresas excelentes.)

Domando o Destino
(Sony/Divulgação)

É também um trabalho singular: Brady Blackburn é vivido por Brady Jandreau, caubói de rodeios da Dakota do Sul que sofreu um traumatismo craniano grave e que, ao rodar o filme, estava ainda em recuperação. Seu pai, com quem ele tem uma relação difícil, e sua irmã, que tem algum tipo de déficit cognitivo e que Brady protege com um misto de ferocidade e delicadeza, são vividos por – adivinhou – seu pai e sua irmã. E também Lane Scott é ele mesmo: um jovem astro dos rodeios que sofreu um acidente gravíssimo na arena, com sequelas terríveis das quais possivelmente nunca vai se recuperar. E, no entanto, nenhum desses personagens se queixa ou se lamenta; Brady e Lane assistem juntos aos vídeos dos rodeios em que um Lane então ainda cheio de vida e de carisma encanta a plateia, e ambos pensam no que perderam – mas pensam igualmente no que tiveram. Brady tenta se adaptar ao trabalho em um supermercado; quando um garoto se aproxima dele e, cheio de admiração, pergunta se ele é Brady Blackburn, o caubói, veem-se sua confusão, seu orgulho ferido e, o mais tocante de tudo, sua tentativa de justificar para si mesmo a dignidade do que está fazendo.

Domando o Destino
(Sony/Divulgação)

Muito do que a diretora Chloé Zhao faz aqui, justamente, é um estudo do estoicismo característico de um certo tipo de americano enraizado na terra e em uma cultura que é fácil julgar como limitada, mas na qual Chloé encontra medidas imensas de beleza. Brady é um fascinante ator de si mesmo, e é ele quem alimenta com complexidade a observação da diretora sobre esse percurso tão difícil que é buscar uma identidade no meio de uma vida em fluxo e em mudança. Filmado com sensibilidade notável para os ambientes e as paisagens em que essas vidas se desenrolam, The Rider vai entrando devagar pela pele do espectador. Mas se instala ali e não sai mais.

Domando o Destino
(Sony/Divulgação)

P.S.: Trabalhar com pessoas que vivem na tela versões muito próximas daquilo que são na realidade é um recurso riquíssimo para retratar modos de vida tão específicos e cheios de códigos próprios que qualquer tentativa de imitá-los soaria falsa. Mas é um recurso que exige cineastas também eles especiais, pelo respeito com o que estão lidando e sobretudo pela capacidade de fazer seus “atores” transporem a barreira da encenação. Clint Eastwood falhou nesse último quesito em 15h17: Trem para Paris. Em compensação, a libanesa Nadine Labaki obteve resultados formidáveis em Cafarnaum, assim como o ítalo-americano Jonas Carpignano em Ciganos da Ciambra. Ambos estão disponíveis no NOW.

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Trailer

DOMANDO O DESTINO
(The Rider)
Estados Unidos, 2017
Direção: Chloé Zhao
Com Brady Jandreau, Tim Jandreau, Lilly Jandreau, Lane Scott, Leroy Pourier, Cat Clifford
Onde: Looke
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