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Diretor Paolo Sorrentino volta à sua Nápoles no poético ‘A Mão de Deus’

No filme autobiográfico, o cineasta troca o distanciamento do protagonista de 'A Grande Beleza' pela proximidade

Por Isabela Boscov Atualizado em 14 dez 2021, 18h13 - Publicado em 4 dez 2021, 08h00

Se o diapasão do estupendo A Grande Beleza, ganhador do Oscar de produção estrangeira de 2014, era o distanciamento com que o protagonista Jep Gambardella observava seu mundo — uma Roma feérica e frívola na qual às vezes o sublime e o misterioso se insinuavam inesperadamente —, a proximidade, ao contrário, é que é a chave de A Mão de Deus (È Stata la Mano de Dio, Itália, 2021), o novo filme do diretor Paolo Sorrentino, candidato da Itália a uma vaga no Oscar que já está em cartaz em alguns cinemas do país e estreia na Netflix na quarta-feira 15.

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Começa-se em 1984, quando Nápoles inteira se agita com os rumores de que Diego Maradona terá o passe comprado pelo time da cidade. Mas o filme ganha de imediato a coloração de memória na maneira como o entusiasmo do adolescente Fabietto (Filippo Scotti) se mistura às vinhetas da vida familiar: os almoços al fresco de domingo em que sua mãe (Teresa Saponangelo), uma trocista emérita, provoca a matriarca boca-suja para fazer com que os convivas riam dos palavrões dela; um passeio noturno no qual filho, mãe e pai (Toni Servillo, que fez o inesquecível Jep) se amontoam, alegres, sobre uma lambreta; as horas intermináveis que a irmã passa trancada no banheiro; a doçura de Marchino (Marlon Joubert), o irmão mais velho; uma saída de barco em que todos ficam hipnotizados com a nudez da tia Patrizia (Luisa Ranieri), uma mulher linda que está sendo literalmente levada à loucura pela dificuldade em engravidar; ou ainda uma cena transbordante da beleza surreal que Sorrentino é mestre em conjurar, na qual um enlevado Fabietto topa com o diretor Antonio Capuano (Ciro Capano) — amigo e grande influência sua — filmando entre os prédios antigos e belíssimos do centro napolitano.

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A Grande Beleza tinha uma matriz óbvia no protagonista, no timbre, nas imagens e na extravagância — A Doce Vida (em cuja estatura ele fica muito perto de se igualar). Também em A Mão de Deus a influência de Federico Fellini é nítida. Mas é outro Fellini: o memorialista de Amarcord, zeloso das cadências da língua, amoroso com os personagens singulares que marcam a lembrança, cheio de humor — e, às vezes, de pena — pelo jovem que se foi e, no caso específico de Sorrentino, embriagado com o azul da Baía de Nápoles e com a opulência algo arruinada de sua arquitetura.

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Neste romance de formação, Fabietto e sua história são quase inteiramente Sorrentino e sua vida: uma vida de acalanto entre pessoas queridas, unidas e encantadoras que, da noite para o dia, foi revirada por uma tragédia da qual ele escapou por causa de Maradona (daí o duplo sentido de “a mão de Deus”, em referência ao célebre gol de mão do argentino contra a Inglaterra nas quartas de final da Copa de 1986, e também àquela espécie de acaso que parece uma intervenção divina). Lançado no imenso desconhecido, Fabietto perde a alegria, o chão e o senso de direção.

É uma transição de tom traiçoeira, mas Sorrentino a executa com a maestria vista em A Grande Beleza e nas séries O Jovem Papa e O Novo Papa — uma incursão às vezes perturbadora, mas sempre comovente, no sombrio, no profano e no doloroso. Quando Antonio Capuano, o cineasta que filmava no centro da cidade, interpela Fabietto — “mas você tem algo a dizer?” — e então se joga no mar, nadando rumo ao horizonte, é o garoto quem emerge metaforicamente do seu longo mergulho, trazendo consigo não só o desejo de ser cineasta, mas o indispensável a qualquer grande diretor — ter vivido o bom e o ruim sem se poupar dos sentimentos que vêm com um e com outro.

Publicado em VEJA de 8 de dezembro de 2021, edição nº 2767

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