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Chatô, o Rei do Brasil

Por Isabela Boscov Atualizado em 31 jul 2020, 00h04 - Publicado em 19 nov 2015, 16h30

O fim da novela.

Parece que foi em outra encarnação: eu estava na revista SET quando, no comecinho de 1995, saiu a notícia de que Guilherme Fontes adquirira os direitos de adaptação de Chatô, o Rei do Brasil, de Fernando Morais, e ia ele mesmo dirigir o filme. “Mas qual Guilherme Fontes? Aquele Guilherme Fontes da Globo?”, alguém na redação perguntou (talvez tenha sido eu, talvez outra pessoa, provavelmente todo mundo – nem lembro mais).

Não há nada de estranho em atores virarem diretores, claro. Naquele exato momento, uma atriz tornada diretora, Carla Camuratti, é quem estava engatando a retomada do cinema nacional com Carlota Joaquina, Princeza do Brasil. A diferença é que Fontes não estava planejando um trabalho modesto, mas uma superprodução que, para ser finalizada conforme os padrões que ele estabelecera, consumiria um orçamento projetado de 12 milhões de dólares, um custo então inédito no país. A reação generalizada era de incredulidade. Fontes então anunciou que Francis Ford Coppola seria seu produtor; muita gente deu uma duvidada, mas toca aparecerem fotos dos dois juntos aqui e ali, sorridentes como melhores amigos ou compenetrados como grandes colaboradores. Fontes de fato trabalhou durante meses com Coppola. Captou bem menos do que o almejado, mas decidiu entrar no set assim mesmo, com os cerca de 8 milhões de reais que tinha em mãos (dólar e real, naquele tempo, andavam beeeeeem mais próximos).

Como você pode ver no recorte reproduzido aqui, de uma nota publicada em 1998 na revista SET, as rachaduras nesse plano mirabolante não tardaram a aparecer.

Reprodução
Nota na Revista SET de Agosto de 1998 ()

Lá por 1999, o vento havia virado de vez: já se pensava em Chatô como um castelo de cartas, e via-se que ele estava prestes a desabar. A sociedade com Coppola se desfizera, o Ministério da Cultura começara a questionar a prestação de contas de Fontes, os relatos que vinham do set eram desencontrados, os investidores estavam batendo em retirada. Descobriu-se, ainda, que outros realizadores vinham fazendo a festa com dinheiro obtido por meio das leis de incentivo, e iniciou-se uma muito necessária devassa que afetou quase todos os projetos cinematográficos em andamento. De lá para cá, Chatô virou uma lenda – o filme que Guilherme Fontes jurava ter feito mas que ninguém jamais vira.

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Pois bem, agora você pode conferir por conta própria que Chatô existe, sim. Se há lacunas no material filmado que Fontes teve de encobrir, eu não percebi: o filme tem começo, meio e fim, é muito bem produzido e tem um daqueles elencos all-star do cinema nacional – Marco Ricca como Assis Chateaubriand, Paulo Betti como Getúlio Vargas, mais Andréa Beltrão, Letícia Sabatella, Eliane Giardini, Gabriel Braga Nunes, Leandra Leal, Zezé Polessa, José Lewgoy (que morreu em 2003) e Walmor Chagas (morto em 2013). Gostar ou não de Chatô é outra história, que tem muito mais a ver com as preferências pessoais do espectador do que com a qualidade indiscutível da produção.

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Assis Chateaubriand (1892-1968) foi um desses sujeitos que saem do nada para um poder quase absoluto: entre os anos 30 e os 60, foi dono de um império de imprensa e rádio, os Diários Associados (foi ele quem inaugurou a TV no Brasil, em 1950), e teve um dedo em todos os fatos políticos do período. Foi ainda senador, ajudou a bancar o Masp e vestiu o fardão da Academia Brasileira de Letras. Era também falastrão, megalomaníaco, grosseirão, mulherengo e não tinha pudor de usar seus jornais e rádios para levantar aliados e afundar desafetos. Chatô é exorbitante e delirante como seu protagonista – que repassa sua vida como ela fosse um julgamento ou um programa de auditório da TV Tupi. A inspiração patente é Cidadão Kane, de Orson Welles, que tratava de uma figura muito parecida com Chateaubriand, o magnata americano William Randolph Hearst (que morreu em 1950 e, portanto, foi mais ou menos contemporâneo de Chateaubriand).

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Minhas objeções pessoais a Chatô são duas. A primeira é, concordo, subjetiva: acho a dramaturgia muito colada na do teatro “antropofágico” brasileiro – o qual, por sua vez, eu acho tremendamente cansativo. Muita gente falando alto o tempo todo me deixa com dor de cabeça, e eu acredito que o filme só teria a ganhar com um pouco mais de modulação. A segunda ressalva é mais objetiva: falta um arco dramático ao personagem, que é do começo ao fim um tratante narcisista. Uma trajetória de poder não necessariamente é uma trajetória pessoal; os acontecimentos progridem, mas o protagonista no centro deles é sempre o mesmo. Mas suspeito que Chatô seja mesmo um desses filmes que polarizam opiniões. Que cada um, então, tire suas próprias conclusões.

Já a contabilidade, essa ainda é uma questão a ser resolvida: o Tribunal de Contas da União diz que a dívida acumulada por Fontes está na casa dos 80 milhões de reais. Mas o cineasta contestou a decisão do TCU e abriu um recurso contra ela. Ou seja, ainda se está longe de um desfecho para essa novela.

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Trailer


CHATÔ, O REI DO BRASIL
Brasil, 2015
Direção: Guilherme Fontes
Com  Marco Ricca, Paulo Betti, Andréa Beltrão, Letícia Sabatella, Eliane Giardini, Gabriel Braga Nunes, Leandra Leal, Zezé Polessa, José Lewgoy, Walmor Chagas
Distribuição: Guilherme Fontes Filmes

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