Clique e Assine a partir de R$ 19,90/mês
Isabela Boscov Por Coluna Está sendo lançado, saiu faz tempo? É clássico, é curiosidade? Tanto faz: se passa em alguma tela, está valendo comentar. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

A mudança notável dos monstros de Guillermo Del Toro em ‘Beco do Pesadelo’

O diretor conta a história de um homem em fuga de seus demônios que se junta ao circo nos anos 30 e descobre um terrível dom

Por Isabela Boscov Atualizado em 27 jan 2022, 21h19 - Publicado em 28 jan 2022, 06h00

Stanton Carlisle (Brad­ley Cooper) tem o dom de persuadir qualquer um de qualquer coisa, mas Beco do Pesadelo (Nightmare Alley, Estados Unidos/México, 2021), já em cartaz, não tem pressa de familiarizar a plateia com a lábia de seu protagonista. Durante uns bons quinze minutos, Stan não diz palavra enquanto põe o corpo do pai sob as tábuas do assoalho, toca fogo na casa e sai pelo mundo até dar com os costados em um circo mambembe, no qual se esquiva de pagar a moeda exigida para ver o “selvagem” — na verdade, um homem reduzido a tal bestialidade pelas condições inumanas com que o tratam que, quando lhe atiram uma galinha viva, ele devora o animal ainda se debatendo. O calote de Stan, porém, não passa despercebido ao mestre de cerimônias Clem (Willem Dafoe, novamente fabuloso), que reconhece no rapaz os demônios e o desespero que, juntos ou em separado, levaram cada um dos membros do circo a se juntar à trupe. Desespero é o que não está em falta nesses Estados Unidos de 1939, exaustos pela Grande Depressão. Mas Clem detecta em Stan também a elasticidade de princípios necessária a quem quer sobreviver explorando a credulidade e a morbidez alheias e expondo em troca de alguns centavos tudo o que, no ser humano, possa ser caracterizado como anomalia ou aberração.

O Labirinto Do Fauno

Stan floresce nesse novo meio, que o cineasta Guillermo del Toro, adaptando o romance profundamente desenganado que o americano William Lindsay Gresham publicou em 1946 (e homenageando a versão anterior, de 1947), recria com seus característicos detalhismo e inventividade. Na concepção de Del Toro (leia a entrevista), o circo é cheio de promessas nos seus chiaroscuros noturnos e, assim como seus integrantes, aparece gasto e cansado à luz do dia. A exceção é Molly (Rooney Mara), a jovem órfã protegida por Clem, que assombra o público com a calma com que se submete a correntes elétricas. Stan, claro, deseja Molly. Resta saber como seduzi-la, se ela não quer nada além do que já tem. Talvez a maior inspiração de Del Toro seja o modo como ele articula, para o espectador, que tem diante de si um conto moral à moda dos de Edgar Allan Poe, em que uma pessoa é sempre vítima de si mesma.

A Forma da Água

Na interpretação muito bem calibrada de Bradley Cooper, Stan é solícito, agradável. Mas tem uma nota furtiva e um interesse vivo demais na companhia da vidente Zeena (Toni Collette) e do mentalista Pete (David Strathairn, soberbo), que afoga na garrafa o medo da habilidade com que lia as pessoas e as iludia. Stan não se cansa de perguntar a Zeena e Pete os pormenores do número que eles apresentavam e de aprender com eles. É, na verdade, um discípulo excelente, tão apto quanto o mestre. E bem menos escrupuloso. Quando o circo é trocado na trama pelos ambientes mais ricos da Nova York de 1941, o contraste entre aparência e realidade se repete, dessa vez em clima noir: Stan ficou rico com seu suposto dom psíquico, mas está prestes a ser testado por uma psiquiatra (Cate Blanchett, chiquérrima mas forçada) que se propõe não só a analisá-lo, mas a se tornar sua comparsa. Pobres ou milionárias, as pessoas querem acreditar em algo — um postulado que vale para todas as pessoas, incluindo Stan.

Continua após a publicidade

Noturno (Trilogia da Escuridão Livro 1)

Nos filmes de Del Toro sempre há monstros. Aqui, porém, eles não são fantásticos, mas homens e mulheres que cederam à ganância, à desesperança, ao desejo de manipular ou aos demônios íntimos. Alguns vão pagar o preço antes do fim do filme, outros talvez venham a sair impunes. Para parte dos espectadores, é possível que o filme pareça lento, e é quase inevitável que uma das suas duas metades frustre em comparação com a outra. Mas, para quem achou sem vida A Colina Escarlate, ou açucarado demais o paladar de A Forma da Água, Beco do Pesadelo é uma recompensa — uma mudança de curso que leva Del Toro ao seu território mais pessoal desde o estupendo O Labirinto do Fauno.

Publicado em VEJA de 2 de fevereiro de 2022, edição nº 2774

CLIQUE NAS IMAGENS ABAIXO PARA COMPRAR

O Labirinto Do Fauno
O Labirinto Do Fauno
A Forma da Água
A Forma da Água
Noturno (Trilogia da Escuridão Livro 1)
Noturno (Trilogia da Escuridão Livro 1)

*A Editora Abril tem uma parceria com a Amazon, em que recebe uma porcentagem das vendas feitas por meio de seus sites. Isso não altera, de forma alguma, a avaliação realizada pela VEJA sobre os produtos ou serviços em questão, os quais os preços e estoque referem-se ao momento da publicação deste conteúdo.

Continua após a publicidade


Publicidade

Essa é uma matéria exclusiva para assinantes. Se já é assinante, entre aqui. Assine para ter acesso a esse e outros conteúdos de jornalismo de qualidade.

Essa é uma matéria fechada para assinantes e não identificamos permissão de acesso na sua conta. Para tentar entrar com outro usuário, clique aqui ou adquira uma assinatura na oferta abaixo

Informação de qualidade e confiável, a apenas um clique. Assine VEJA.

Impressa + Digital

Plano completo da VEJA! Acesso ilimitado aos conteúdos exclusivos em todos formatos: revista impressa, site com notícias 24h e revista digital no app, para celular e tablet.

Colunistas que refletem o jornalismo sério e de qualidade do time VEJA.

Receba semanalmente VEJA impressa mais Acesso imediato às edições digitais no App.

a partir de R$ 39,90/mês

Digital

Plano ilimitado para você que gosta de acompanhar diariamente os conteúdos exclusivos de VEJA no site, com notícias 24h e ter acesso a edição digital no app, para celular e tablet.

Colunistas que refletem o jornalismo sério e de qualidade do time VEJA.

Edições da Veja liberadas no App de maneira imediata.

a partir de R$ 19,90/mês