Josh O’Connor a VEJA: “Sofro de síndrome do impostor”
Ator onipresente no cinema atual chega à plataforma Mubi com o elogiado filme ‘Mastermind’
No filme Mastermind, Josh O’Connor interpreta Mooney, um artista frustrado, de ombros curvados e andar desajeitado. Vive pedindo dinheiro emprestado para a mãe, com a promessa de mudar de vida. Ele organiza com um grupo de colegas o assalto a um museu local, para roubar quadros de Arthur Dove, um dos primeiros pintores americanos abstratos, porque um dos seus professores de escola gostava muito dele. O roubo é no mínimo patético e quase surreal. Seria inverossímil, não fosse a trama inspirada em uma história real que aconteceu em 1972, no Worcester Art Museum, Massachusetts – sem falar de exemplos recentes, como o roubo ao Louvre feito à luz do dia. Nas mãos da diretora Kelly Reichardt, o crime é a ponte para um minucioso estudo de caráter – entregue com primor pelo ator inglês, que ganhou fama com a série The Crown e virou figura onipresente no cinema, no elenco de tramas como Rivais, Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out e A História do Som (que estreia em fevereiro no Brasil). O’Connor falou com a reportagem de VEJA no Festival de Cannes. Ao chegar para a conversa, mantinha o mesmo ar distraído e a postura relaxada do protagonista de Mastermind, que acaba de chegar na plataforma de streaming Mubi. “Gosto que meus personagens tenham esse desleixo, andando de ombros encurvados.” Confira a seguir a entrevista:
Você integrou o elenco de vários filmes recentes e, em breve, estará no novo longa de Steven Spielberg. É difícil dizer não? Essa é uma pergunta muito boa. Eu sou muito sortudo por ter ótimas pessoas ao meu redor. Às vezes é um pouco avassalador. Mas como ator você passa a maior parte da sua carreira sem trabalhar. Diria que por 60-70% da nossa carreira. Trabalhei por 14, 15 anos desde que saí da escola de teatro. No começo da minha carreira, fazendo testes e peças, mas trabalhando em um pub, restaurante, tentando apenas pagar meu aluguel, sabe?
E de repente acontece. Qual a sensação? Sim, há uma coisa de “aproveite o momento”. Você se torna muito protetor com seus personagens e com seus colegas de elenco e todos envolvidos no filme. Há uma espécie de catarse quando você pega um filme e o compartilha com o público pela primeira vez. Há um elemento do tipo, isto é nosso, isto é o que fizemos e você entrega.
Quando olha para trás, como vê a sua carreira? Do filme Reino de Deus em 2017 para o set de Steven Spielberg? Eu nem acredito. Aconteceu relativamente rápido. É algo estranho, para mim não é apenas sobre o próximo diretor, este ou aquele diretor. É como se você estivesse coletando essas memórias, esses personagens. Há uma espécie de luto quando se termina um filme, porque você criou um personagem com detalhes muito minuciosos. Cada filme que você faz, começa do zero. É como construir uma torre, e a cada pequeno pedaço de informação que você cria com esse personagem, vai colocando um pouco de Josh, do mundo exterior, da natureza. Você cria esse personagem e, quando termina, precisa dizer adeus. Quando você menciona Charles (Príncipe Charles em The Crown) ou Johnny (Reino de Deus) ou Arthur (La Chimera), eu vejo todos eles. Eles povoam a minha alma, e de certa forma constroem quem sou hoje. Sofro de síndrome do impostor, mas sou quem sou graças a esses personagens.
Como você trabalha o sotaque americano em Mastermind? Nós crescemos cercados pelo inglês americano, não é? No Reino Unido, até a televisão infantil era americana, os filmes eram americanos. Minha teoria é de que é muito mais fácil para um ator britânico adotar um sotaque americano do que o contrário, embora haja ótimos exemplos de americanos interpretando britânicos. Em Gloucestershire, oeste da Inglaterra, onde me criei, temos uma espécie de R fraco. O jeito de falar soa estranho na boca e não ajuda em sotaques americanos. Tenho que fazer um aquecimento, tenho que fazer círculos com a língua. É como ir para uma academia da língua. Mas a voz é uma das coisas mais importantes para um personagem.
Como se prepara para seus personagens, para além de exercícios com a língua? Tenho um método de trabalho meio que definido, mas na verdade desvio disso com alguma frequência. Na escola de teatro, professores ensinam diferentes formas de atuar. Todos nós conhecemos o método Stanislavski, que é permanecer no personagem. Ou o método Meisner. Bem, eu não tenho só isso. Faço um álbum de recortes onde eu guardo imagens e ideias e isso se desenvolve. É como uma Bíblia do personagem. Há coisas normais realmente profissionais, como aprender as falas, chegar na hora, se manter saudável, comer bem. E eu pego pequenas coisas cada vez que trabalho com outro ator. Trabalhando com Paul Mescal, eu o observei e pensei: “Oh meu Deus, eu vou pegar isso. Vou pegar um pouco disso.” Jesse Buckley, eu pensei: “Eu quero tudo isso. Eu vou pegar isso.” Você está roubando ideias delas o tempo todo e todos nós estamos roubando ideias uns dos outros e crescendo. Então, não é um único caminho, mas é maleável e muda.
Como foi com Mastermind? Eu fiz um grande livro e está cheio de desenhos das pinturas de Arthur Dove. Além de várias paranoias que eu acho que ele teria, como: eu deveria ter sido um artista. Eu deveria ser o arrimo de família. Eu deveria estar ganhando dinheiro. Minha esposa está trabalhando. Eu deveria estar trabalhando. Sabe? Baixa autoestima, grande ego, tentando satisfazer ambos. Eu encontrei esses ensaios do final dos anos 70, início dos anos 80 sobre a mudança nos papéis masculinos e na masculinidade, achei muito interessantes. Em Mastermind, os figurinos são importantes. Há uma espécie de desleixo nele, no qual eu sou muito bom. Charles, Arthur, todos eles têm um desleixo. James é meio solto e preguiçoso.
Você também está no drama de guerra gay A História do Som ao lado de Paul Mescal. O que lhe atraiu nessa trama? Me atraiu estar ambientado entre a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais, onde uma geração inteira de jovens foi exterminada. E aqui estava um personagem deixado para trás. E o trauma disso, a culpa do sobrevivente, eu achei realmente fascinante. Então, com David, eu acho que um dos, um dos aspectos, há muitas coisas que me atraíram. Um dos aspectos que me atraiu foi alguém que estava lidando com o trauma da guerra. Alguém lidando com o trauma do fato de não poder viver uma vida que acreditava querer ou que queriam e não podiam ter. É sobre a dificuldade de se ter uma existência completa.
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