Assine VEJA por R$2,00/semana
Imagem Blog

Dora Kramer

Coisas da política. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.
Continua após publicidade

A engenharia do Jair

O presidente causa um mal enorme ao país ao se posicionar como fator de instabilidade

Por Dora Kramer Atualizado em 13 abr 2020, 15h07 - Publicado em 10 abr 2020, 06h00

É ilusão do presidente acreditar que o vírus que atormenta o mundo não o atingiu. Fez mais que isso, matou uma chance quase certa de reeleição e, dependendo da evolução de seus efeitos, poderá eliminar também as condições para a conclusão do mandato. O presidente imagina-se livre da gripezinha enquanto agoniza de um mal bem maior: a erosão do próprio poder. Principalmente, mas não só, em decorrência do posicionamento dele diante das urgências da pandemia.

Com a crise sanitária deu-se por completada a obra de desconstrução da força política, da influência social e da autoridade moral da Presidência da República, cujo engenheiro atende pelo nome de Jair Bolsonaro. Está certo quando enxerga uma onda gigantesca de rejeição a ele, mas demonstra não compreender a razão quando delira imaginando que isso ocorra por seus méritos, pois tal reação acontece devido à terra arrasada que semeou em torno de si neste um ano e poucos meses de atuação desgovernada.

A situação talvez não estivesse no estágio de degradação a que chegou se Bolsonaro não tivesse dizimado seu capital político e explodido pontes de convivência institucional com coisas inúteis. Gastou patrimônio antes do tempo e, hoje, em plena crise de saúde pública, quando mais precisaria de âncoras de sustentação, está zerado: isolado, sem diálogo, desmoralizado, desautorizado, desacreditado.

Operando num mundo onde a lógica não tem vez, o presidente semeia a discórdia desde os primórdios de sua gestão. Não se deu ao respeito e ainda se dá ao direito de desrespeitar a tudo e a todos que vê como obstáculos ao exercício do mando. Por essa visão distorcida do que sejam atributos de um governante, Bolsonaro acabou perdendo o poder de comando.

Continua após a publicidade

Ao semear discórdia e comprar brigas inúteis desde o início, Bolsonaro demoliu seu poder e agora paga o preço na crise

É hoje um tutelado. Não traduz a realidade de maneira correta a atribuição dessa tutela aos militares que o cercam. Vai muito além: inclui o Judiciário na representação do Supremo Tribunal Federal, o Legislativo nas figuras dos presidentes da Câmara e do Senado, as unidades da federação nas pessoas de governadores e prefeitos, a insatisfação da sociedade retratada na imprensa, a diplomacia avessa aos ditames da cúpula do Itamaraty, entidades civis e parte significativa do universo religioso, entre outros setores que têm barrado iniciativas de Bolsonaro, sejam elas autoritárias ou contrárias à ciência.

Embora não tenha condições objetivas de provocar retrocessos irremediáveis como temiam alguns, o presidente causa um mal enorme ao país ao se posicionar como fator de instabilidade, obrigando a todo momento a uma mobilização de forças para contê-lo. Energia que deveria ser direcionada para o que de fato importa.

Continua após a publicidade

Se esse homem que ora desgoverna o Brasil tem consciência da própria responsabilidade pela armadilha na qual se encontra prisioneiro é uma incógnita, embora já não seja mistério para ninguém seu medo de perder o cargo antes do tempo regulamentar.

Mostram isso as constantes reafirmações autorreferidas de poder. Isso, em público. No particular já foi bem explícito a dois ministros do Supremo que, antes da crise atual, cada qual numa situação diferente, ouviram dele a aflitiva indagação: “Você acha que eu termino o mandato?”. Perplexos e constrangidos, calados ficaram.

Publicado em VEJA de 15 de abril de 2020, edição nº 2682

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

Domine o fato. Confie na fonte.

10 grandes marcas em uma única assinatura digital

MELHOR
OFERTA

Digital Completo
Digital Completo

Acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*

a partir de R$ 2,00/semana*

ou
Impressa + Digital
Impressa + Digital

Receba Veja impressa e tenha acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*

a partir de R$ 39,90/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$96, equivalente a R$2 por semana.

PARABÉNS! Você já pode ler essa matéria grátis.
Fechar

Não vá embora sem ler essa matéria!
Assista um anúncio e leia grátis
CLIQUE AQUI.