Todas as sociedades que reduziram a jornada de trabalho ampliaram antes a permanência de crianças e jovens em escolas de qualidade. Foram sistemas públicos escolares acessíveis a todos que possibilitaram o aumento de produtividade e a consequente redução na jornada sem perda de competitividade nem redução de renda. Em geral essas reformas estruturais foram possibilitadas por lutas de partidos progressistas. As revoluções das últimas décadas — tecnológica (digital), psicossocial (individualismo) e geopolítica (globalização e queda do Muro de Berlim) — moldaram uma esquerda com propostas voltadas à ampliação de direitos identitários e individuais, sem reformas estruturais que assegurem direitos sociais duradouros. A proposta de redução da jornada semanal de trabalho é justa. No entanto, não altera a estrutura social e, por isso, é insustentável.
A redução da jornada é um avanço humanitário, mas não é revolucionária, porque não rompe com as estruturas arcaicas, sobretudo o sistema educacional deficiente e desigual. Seus benefícios são socialmente meritórios mas individualizados e desprovidos de base estrutural. É lamentável a reação contrária de parte da direita, como ocorreu há 140 anos, quando se afirmava que a Abolição prejudicaria a economia; ou há oitenta anos, na adoção do salário mínimo. Mas também é lamentável que a esquerda não avance na defesa de reformas capazes de beneficiar os milhões sem emprego formal por falta de educação básica. Um dos nós que têm sido jogados para debaixo do tapete: o aumento dos custos de produção tende a ser transferido à população sob a forma de inflação.
“Trata-se de avanço humanitário, mas não rompe com as estruturas arcaicas do sistema educacional”
A esquerda apoia a redução, mas desdenha das reformas complementares necessárias para elevar produtividade e competitividade. Não destaca a relevância de uma transformação que amplie a jornada escolar para tempo integral, sem paralisações de aulas em cada dia, sem greves ao longo dos anos, nem excesso de feriados, em escolas de máxima qualidade e com absoluta equidade, independentemente da renda e do endereço. Considerando horas diárias e dias letivos efetivos, um brasileiro médio tem hoje cerca de 5 000 horas de aula ao longo de sua vida (3 horas por dia × 170 dias por ano × 9 anos na vida) em escolas de baixa qualidade, quando deveria alcançar aproximadamente 13 000 horas (6 horas por dia × 200 dias × 11 anos) em instituições de excelência.
Motivada a beneficiar os trabalhadores atuais, a esquerda individualista relativiza as necessidades sociais do conjunto da classe trabalhadora e suas futuras gerações. Sob a ótica dos trabalhadores formais de hoje, é desumano recusar a redução da jornada 6×1. Contudo, na perspectiva do povo em sua totalidade, é socialmente incompleta e economicamente arriscado implementá-la sem estudos cuidadosos sobre seus impactos de longo prazo e sem reformas estruturais que beneficiem a todos, no presente e no futuro. O debate não deve se limitar ao interesse imediato de trabalhadores individualmente, entre a direita que rejeita a redução e a esquerda que defende sem considerar as reformas sociais indispensáveis — sobretudo a criação de um sistema único nacional público (ainda que não totalmente estatal) de educação de base com qualidade e equidade.
Publicado em VEJA de 27 de fevereiro de 2026, edição nº 2984





