Em plena madrugada, o céu se tinge de verde brilhante e rosa intenso, cores que parecem pintadas e, no entanto, são obra da natureza. Um cone de luz se ergue sobre nossas cabeças. Sentimos o corpo formigar, e os olhos se enchem de lágrimas — não de tristeza, nem por qualquer motivo racional, mas como uma reação fisiológica ao espetáculo. Falo no plural, mas na verdade falo por mim. Não sei quantas pessoas tiveram essa mesma experiência ao ver, naquele dia, a aurora boreal sobre o Lago Louise, no Canadá. Isso porque a sensação ali vivida tem a ver com um privilégio — e não falo da sorte de poder viajar, mas de poder sentir no corpo a emoção da beleza. Foi em um artigo do jornal The Times que fiquei sabendo que nem todo mundo sente esse arrepio diante de uma música, de um quadro, de uma cena de filme ou de uma paisagem. Estudos recentes sugerem que essas manifestações de sensibilidade — batizadas de “arrepios estéticos” — têm a ver com a genética.
Exames de imagem mostraram que esses arrepios surgem quando o sistema de recompensa do cérebro se ativa. É a mesma rede envolvida no prazer ligado a coisas essenciais à nossa sobrevivência, como comida, ou quando achamos alguém atraente. A dopamina, relacionada à motivação e ao prazer, entra em cena. A fonte genética é a mesma, independentemente da beleza que suscita o arrepio. Quem reage assim a uma peça musical tem mais chances de responder fisicamente também a uma pintura ou a um poema. Mas não é em qualquer circunstância que o frisson vem. Na música, ele acontece em momentos de acúmulo ou liberação de tensão; nas artes visuais e na poesia, tem a ver com o assombro, o contraste dramático. Algo como o sublime da natureza que vi no céu canadense.
“A experiência acumulada, a memória e a abertura para o mundo parecem contar mais que os genes”
Lendo o artigo, pensei em outros momentos semelhantes. Aconteceu, por exemplo, ao assistir a Elton John em Londres, na sua turnê de despedida. Ainda recordo a impressão das notas reverberando pela arena, naquela noite de 2023. Pode ser que, para você, essa emoção venha em outras circunstâncias. No escurinho do cinema, por exemplo. No domingo 15, a cerimônia do Oscar consagrou o trabalho de artistas que, de maneiras diferentes, tocam milhões de pessoas. É claro que, numa premiação dessas, os votantes se valem de critérios técnicos — que desconheço e deixo para os críticos. Mas acredito que um tanto de sua apreciação dependa do “arrepio estético”. Porém, como quase sempre é o caso, o DNA não é a chave de tudo, dizem os cientistas.
A experiência acumulada de vida, a memória e a abertura para o mundo parecem contar mais do que os genes. Houve muito de particular na comoção que tive ao cruzar a Porta do Caminho de Santiago de Compostela, após dias de caminhada. Quando as torres da catedral despontaram no horizonte, o que me tomou por dentro não tinha a ver só com a beleza do lugar, mas com tudo o que veio antes: o esforço, o silêncio, o fio dos pensamentos durante o percurso. A genética e a experiência contam, mas há ainda uma outra dimensão. Para sentir esse tipo de arrepio é preciso preservar algo que o tempo, às vezes, tenta apagar em nós: a capacidade de se deixar tocar. A beleza nos lembra, na pele, que estamos vivos. E esse talvez seja o verdadeiro privilégio de se arrepiar.
Publicado em VEJA de 20 de março de 2026, edição nº 2987





