Semana do consumidor: VEJA por apenas 9,90
Imagem Blog

Coluna da Lucilia

Por Lucilia Diniz Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Um espaço para discutir bem estar, alimentação saudável e inovação

Mercado do tempo

A força da indústria da longevidade

Por Lucilia Diniz Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 6 mar 2026, 06h00 • Atualizado em 6 mar 2026, 13h31
  • Viver é saber que o tempo corre. Por isso, desde que o mundo é mundo, negociamos com o relógio. Alquimistas procuraram o elixir da longa vida, imperadores enviaram expedições em busca de ervas milagrosas, navegadores atravessaram mares atrás da fonte da juventude. E só mesmo um anseio assim, tão presente na história da humanidade, explica o tamanho da indústria da longevidade. Multiplicam-se suplementos e exames genéticos; relógios e anéis medem nossos passos e transformam o sono em planilha. É um dos mercados que mais crescem, depois do de inteligência artificial — aliás, uma arma poderosa nessa corrida.

    Graças à era da informação, sabemos mais sobre a alimentação e os exercícios adequados a cada etapa da vida. Mas é possível que, em breve, apenas ingerir a dose correta de proteínas e frequentar a academia pareça insuficiente. Centros de treinamento especializados em reunir tudo o que é necessário para monitorar marcadores de saúde, oferecendo serviços desenhados para melhorá-los, já são uma realidade — ao menos em Nova York, onde os clubes de bem-estar mais exclusivos custam até 100 000 dólares por ano. A busca por esticar a vida já ultrapassou os limites da iniciativa privada, tornando-se um negócio da China — literalmente. O país fez do envelhecimento saudável uma política de Estado. Não se trata apenas de aumentar a saúde e os anos produtivos da população local, mas de disputar a liderança de um nicho em expansão acelerada. O mercado captou o que a ciência diz (e eu prego) há muitos anos: o estilo de vida é determinante para a longevidade, embora a cultura popular há muito tempo explore a ideia de que os genes mandam no destino. Há trinta anos, o filme Gattaca falava de uma sociedade em que indivíduos concebidos naturalmente eram inferiores, por serem mais sujeitos a doenças.

    “Viver bem, sem que isso se torne um excesso contemporâneo, é a verdadeira inovação”

    Mas, fora da ficção, estudos mostram que o DNA explica apenas uma fração da longevidade. Alimentação equilibrada, sono regular, atividade física, vínculos sociais e propósito pessoal continuam sendo as variáveis mais poderosas. No entanto, aderir aos melhores protocolos não garante vida longa. Podemos e devemos manter um cotidiano equilibrado para ter saúde ao longo do tempo. Porém transformar cada detalhe do corpo em meta pode nos afastar do que mais importa. Compramos a ideia de que, se mapearmos todos os riscos, vamos viver mais. Mas vamos mesmo viver melhor?

    Entre super-ricos americanos, já se fala na “síndrome da fixação por longevidade”. Pessoas que podem empregar até 120 000 dólares por semana em protocolos que controlam o corpo estão adoecendo a mente com essa obsessão. Curiosamente, se analisarmos as estatísticas, os países com mais bilionários não são necessariamente os mais longevos. Desigualdade no acesso à saúde, alimentação baseada em ultraprocessados e alta incidência de doenças crônicas mostram que a questão não é apenas de renda individual: é sobretudo fruto de contexto social. Assim, nossa antiga ambição de viver mais pode até alimentar uma indústria bilionária; mas a base para alcançá-la está em escolhas simples, repetidas todos os dias. Viver bem, sem que isso se torne mais um excesso contemporâneo, talvez seja a verdadeira inovação do nosso tempo.

    Publicado em VEJA de 6 de março de 2026, edição nº 2985

    Publicidade

    Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

    Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

    OFERTA LIBERE O CONTEÚDO

    Digital Completo

    A notícia em tempo real na palma da sua mão!
    Chega de esperar! Informação quente, direto da fonte, onde você estiver.
    De: R$ 16,90/mês Apenas R$ 1,99/mês
    MELHOR OFERTA

    Revista em Casa + Digital Completo

    Receba 4 revistas de Veja no mês, além de todos os benefícios do plano Digital Completo (cada revista sai por menos de R$ 7,50)
    De: R$ 55,90/mês
    A partir de R$ 29,90/mês

    *Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
    *Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês.