O Carnaval ficou para trás, pelo menos no calendário oficial, e começamos agora um período em que a reflexão sobre a vida é valorizada. Para além da liturgia cristã, a Quaresma sempre funcionou como um convite simbólico à pausa — uma espécie de reorganização interna depois de dias mais intensos. Mas é preciso começar pelo essencial: que bom que existe o Carnaval. Quem entrou na folia provavelmente saiu recarregado. Música alta, samba no pé, encontros alegres, conversa atravessando a madrugada — tudo isso também renova. E quem preferiu o descanso encontrou nos dias mais silenciosos uma forma diferente de recompor as energias. Em ambos os casos, houve ganho. A vida também se alimenta de celebração. Agora, naturalmente, muda o ritmo. Fala-se em metas, em rotina, em disciplina.
A Quaresma remete a um detox alimentar que pode ser estendido ao campo mental. Reduzir excessos faz sentido. Ajustar horários também. Mas, se a virtude costuma estar no meio de dois extremos, é preciso não exagerar na dose de reflexão depois que, neste fim de semana, o último bloco do pós-festa deixar a rua. Há quem saia da farra decidido a compensar tudo de uma vez. Academia dobrada, agenda reorganizada, promessas renovadas. Como se a alegria precisasse ser paga com severidade. Não precisa. A maturidade talvez esteja em saber entrar e sair das fases com naturalidade — guardar as histórias, preservar a energia e seguir adiante. Para Fernando Pessoa, pensar excessivamente limita a experiência de viver. Ele próprio lembrou que é preciso sentir com o pensamento, e não deixar que o pensamento nos afaste do que está sendo vivido.
“A maturidade talvez esteja em saber entrar e sair das fases com naturalidade”
Não se trata de abandonar a reflexão, mas de não permitir que ela substitua a experiência. Arrisco dizer que Caetano Veloso concordaria com o poeta. Numa antiga e sempre atual canção, ele alerta para o risco da paralisia emocional decorrente da reflexão: “Demasiadas palavras, fraco impulso de vida”. Pensar demais pode nos imobilizar; pensar de menos pode nos dispersar. A questão não é escolher entre viver e pensar. É saber combinar os dois. Refletir ajuda a aprender com o que passou, a corrigir rumos, a decidir melhor. Mas viver é o que dá substância a qualquer análise posterior. A reflexão é ferramenta, não moradia definitiva. Talvez seja esse o verdadeiro sentido da alternância entre festa e disciplina. A vida não é um eterno Carnaval nem uma permanente contenção. É feita de ciclos. Há tempo para a música alta e tempo para o silêncio produtivo. Há espaço para a celebração e espaço para o foco.
A vida é para profissionais, daqueles que sabem aproveitar a farra quando ela chega e também sabem fechá-la com elegância. Que entram na festa por inteiro e, quando ela termina, retornam ao trabalho com a mesma disposição. Nem culpa pelo que foi vivido nem excesso de solenidade no que vem pela frente. Enfim, devemos pensar na vida, sim, mas não tanto a ponto de esquecermos de vivê-la. O Carnaval passa. A Quaresma também. O que permanece é a capacidade de transitar entre momentos com maturidade e leveza. Pensar, sim. Viver, também. E, de preferência, fazer bem as duas coisas.
Publicado em VEJA de 20 de fevereiro de 2026, edição nº 2983





