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Coluna da Lucilia

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Avesso do avesso

Quando andar para trás nos faz avançar

Por Lucilia Diniz Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 17 nov 2023, 06h00 | Atualizado em 4 jun 2024, 09h57
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Andar para trás projeta uma inegável imagem negativa, associada ao fracasso. “Pra frente é que se anda”, dizia aquele samba triste de Aldir Blanc, reproduzindo uma conversa entre dois amigos que não se viam havia muito tempo. Sim, a ideia do avanço é sem dúvida um dos valores mais enraizados da nossa cultura. A própria origem do verbo “progredir” não nos deixa negar: progredire, em latim, significa “ir adiante”.

Vários costumes acabaram derivando dessa noção. Na ceia de Réveillon, nada de comer aves — pois elas ciscam para trás e com isso o ano não traria avanços. Em qualquer data, caranguejos também são considerados de mau agouro, por seu “movimento retrógrado característico”, como escreveu o psicanalista suíço Carl Jung em seu livro sobre arquétipos. “Andar para trás”, dizem os portugueses, é “ensinar o caminho ao diabo”. Já aqui no Brasil existe a crença de que os passos para trás simplesmente trariam azar.

Toda essa carga cultural tem a ver, claro, com a nossa anatomia. Afinal, somos programados para andar para a frente. E, no entanto, andar para trás tem suas vantagens.

Ironicamente, muitas vezes, ao repisar nossos passos, recordamos não só nossos tropeços, mas também os acertos. Há quase quatro anos, ao publicar minha primeira coluna neste espaço, ressaltei, ainda que de passagem, os benefícios de andar para trás. De lá para cá, novos estudos trouxeram mais e mais confirmações de que a prática é salutar.

Talvez essa cultura ocidental, que associa o bom ao que está lá adiante, explique os motivos para que uma modalidade tão acessível ainda seja quase restrita a clínicas de fisioterapia.

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“Ao repisar nossos passos, recordamos não só nossos tropeços, mas também os acertos”

Afinal, se acreditamos que o futuro será sempre melhor, como adotar um exercício cujo movimento evoca o avesso do avanço?

Engana quem pensa que essa atividade aparentemente intuitiva é trivial (afinal, é “só” inverter o sentido). As vantagens do exercício, aliás, começam nessa falsa simplicidade. Embora sejamos equipados para, sem grande esforço, fazer os movimentos requeridos, colocar a caminhada diária em marcha à ré exige, para começar, um esforço do cérebro para sair do automático. Com a maior demanda da coordenação motora, melhora também o equilíbrio.

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Para iniciantes, quanto mais controlado o ambiente, melhor. Há sempre o risco de trombar em algo ou alguém. A céu aberto, um gramado plano pode ser uma boa opção.

No nosso cotidiano, não é só cultural a inclinação para a frente. Passamos muito tempo sentados, debruçados sobre telas, curvados para diante. Ao mudar o sentido da marcha, usamos também músculos que não costumamos exigir nesse dia a dia. De quebra, isso ajuda articulações. Para completar, a caminhada reversa queima mais calorias do que a feita no sentido normal.

Uma observação final: mesmo na vida, andar para trás não significa necessariamente regredir. Às vezes denota apenas o contorno de um problema ou situação que nos incomoda. Recuos podem ser táticos, como bem sabem os militares. Um passo atrás pode nos fortalecer, dar nova perspectiva e descortinar o horizonte para conquistas ainda maiores.

Publicado em VEJA de 17 de novembro de 2023, edição nº 2868

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