O lado “positivo” do tédio
Embora esteja logo ali à espreita, o mundo oferece muitas formas de aprendermos com os aborrecimentos
Quem se aventura pelo mundo da filosofia entrando pela porta aberta pelo filósofo Arthur Schopenhauer (1788-1860) escolhe um caminho um tanto difícil. Para o pensador de origem polonesa, a vida se divide em dois movimentos. Em sua obra mais conhecida, O mundo como vontade e representação, ele os explica numa fórmula sucinta e um tanto brutal: “A vida oscila, como um pêndulo, da direita para a esquerda, do sofrimento para o tédio. Estes são os dois elementos de que ela é feita, em suma”.
A interpretação das lições do filósofo certamente excede este espaço, e a deixaremos para os especialistas. Mas é pacífico que se reconhece em sua filosofia um pessimismo que, se às sensibilidades do século 19 já era acentuado, àquelas do século 21 parecerá insuportável. A vida em nosso tempo dispõe de incontáveis fontes de entretenimento e distração – do rádio à internet, a lista seria imensa – e mesmo assim, vivemos com o tédio bem ali ao lado. A pandemia fez ainda o serviço de deixá-lo mais evidente, quando tivemos de ficar em casa para nos protegermos da doença. Muitos de nós, sem grandes alternativas de distração.
Mas em meio a toda essa sombra, é possível encontrar um indício de luz. Ainda que o buscar o que desejamos, segundo Schopenhauer, conduza inevitavelmente ao tédio, ao menos tem a virtude de nos fazer sair da inércia. E uma vez que estejamos em movimento, sempre podemos buscar uma alternativa ao tédio. O mundo hoje, como dito há pouco, tem muito mais possibilidades de evolução pessoal e profissional do que tinha em uma sociedade que via o nascimento do Romantismo (movimento cultural no qual o pessimismo acabou por encontrar terreno fértil). Nesse tempo todo psicólogos, filósofos e cientistas estudaram o cérebro e o comportamento o suficiente para perceber que há estratégias e alternativas nas tarefas que realizamos em nossas vidas para nos afastarmos do aborrecimento.
Não que afastá-lo seja tarefa simples, claro. O tédio no trabalho, por exemplo, pode mesmo ser um problema ao menos tão complicado quanto a síndrome de burnout. Já tem inclusive um nome próprio: a síndrome do “boreout”. Ela se verifica quando o trabalho deixou de interessar a quem o exerce, seja porque não há mais estímulo, porque nele não se vê propósito, porque se tornou fácil e repetitivo demais, ou o oposto – porque se tornou complicado demais. Não encontrar propósito no que se faz, seja no trabalho, seja na vida de modo geral, pode nos levar a esse estado. Que, se prolongado, pode mesmo se confundir com uma depressão (ou levar a ela).
Pesquisadores ouvidos em uma reportagem recente do jornal The New York Times elencam algumas sugestões para despistar o tédio. Algumas não ajudam muito – sugerir que você deixe de fazer aquilo em que não vê propósito e se dedique a algo que o agrada pode soar como música para os ouvidos, mas tende a ser uma opção restrita a um grupo pequeno. Por falar em música, outra sugestão seria arranjar uma trilha sonora para sua atividade: a música absorveria a atenção que a tarefa não exige e manteria você atento a ela, enquanto realiza o trabalho.
Pode parecer uma preocupação lateral, mas não é. O trabalho repetitivo sempre guardou um componente de chatice, e vivemos hoje numa economia em que a criatividade começa a transitar de bônus bem-vindo a pré-requisito. Resolver problemas para os quais não se via soluções tem inclusive um poder recompensador imenso para a autoestima. E em nossas vidas pessoais, há incontáveis oportunidades em que podemos encontrar formas de expressar o que pensamos: quem sabe você tem um livro, ou uma canção ou um quadro dentro de você, só esperando para sair. Como escreveu o poeta norte-americano Walt Whitman (1819-1892): “A pergunta tão triste ainda insiste – O que vale a pena por tudo isso? Resposta (…) Que o poderoso jogo continua, e você pode contribuir com um verso”.
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