Semana do consumidor: VEJA por apenas 9,90
Imagem Blog

Cidade Cidadã

Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Os desafios urbanos contemporâneos, e seus impactos para a população, na análise do Centro de Estudos das Cidades — Laboratório Arq.Futuro do Insper

Quem cuida dos cuidadores?

Estudo aponta que 7 milhões de brasileiras, em idade produtiva, estão fora do mercado de trabalho porque precisam se dedicar aos familiares mais velhos

Por Gabriela Vasconcelos*
13 mar 2026, 15h50 • Atualizado em 13 mar 2026, 15h53
  • Aos 66 anos, Mabel da Silva Cardoso Aroeira cuida da mãe, de 90, e do marido, de 80, ambos com diagnóstico de Alzheimer. “Se eu não estiver bem, quem cuida deles?”, pergunta. O depoimento foi colhido por um projeto de extensão do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que oferece apoio psicológico a familiares de pessoas idosas com demência. Ele revela o que o país inteiro esconde: o envelhecimento populacional do Brasil repousa sobre uma base frágil e silenciosa. Trata-se do trabalho invisível dos cuidadores informais — tão comuns hoje em dia nas cidades —, majoritariamente mulheres, que carregam nos ombros o peso da longevidade sem qualquer amparo público.

    De acordo com o IBGE, o número de brasileiros responsáveis por idosos aumentou, aproximadamente, 38%, entre 2016 e 2019. Passou de 3,7 para 5,1 milhões de profissionais informais nessa área, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde, de 2019. Quase todos os cuidadores são familiares, que atuam sem qualquer vínculo empregatício ou remuneração. O envelhecimento, antes uma conquista demográfica, tornou-se também um desafio econômico e social. Em muitos lares, uma filha ou nora abandonou o mercado de trabalho para cuidar do respectivo parente; em outros, uma vizinha recebe pequenas ajudas para exercer a função. O cuidado virou improviso.

    De acordo com o estudo de 2021, Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça, realizada pelo Instituto Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), as brasileiras respondem por cerca de 80% do tempo total dedicado aos cuidados não remunerados. Essa disparidade inclui o trato com pessoas idosas. O levantamento da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) mostra que a maioria dos cuidadores informais são mulheres, frequentemente familiares, que dedicam muitas horas diárias à tarefa e convivem com altos níveis de estresse e exaustão física.

    Esse estudo dialoga com outro, realizado pela Universidade de São Paulo (USP) e publicado na revista Safety Science.  Ele confirma que cuidadores domiciliares têm pior qualidade de vida e menor capacidade laboral do que a média da população ativa, devido à sobrecarga física e emocional. A Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) reforça que, sem políticas públicas de suporte, essa situação compromete a saúde de quem cuida e aumenta a dependência dos idosos atendidos. A retirada de mulheres da força de trabalho para exercer as atividades de cuidadora de parentes tem consequências que vão muito além da esfera doméstica. De acordo com o Ipea, algo em torno de 7 milhões de brasileiras em idade produtiva estão fora do mercado de trabalho por força das responsabilidades ligadas ao cuidado — seja de filhos, idosos ou pessoas com deficiência. Isso representa quase 10% da população feminina economicamente ativa do país; reduz a produtividade nacional, diminui a arrecadação tributária e perpetua o ciclo de dependência econômica dentro das famílias.

    Um levantamento da Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que, se o Brasil investisse em políticas de cuidado, que permitissem a participação plena das mulheres no mercado, o PIB poderia crescer até 4% no longo prazo. Em outras palavras, cada mulher que abandona o emprego para cuidar de um idoso representa também uma perda de capital humano e de competitividade. O custo da omissão pública se espalha pela economia em forma de desigualdade e crescimento desperdiçado.

    Continua após a publicidade

    Cuidar de alguém dependente é tarefa difícil em qualquer contexto, mas nas cidades brasileiras o desafio é dobrado. Moradias pequenas e sem adaptação, transporte coletivo precário e longas distâncias até unidades de saúde fazem do cotidiano uma espécie de corrida com obstáculos. Nas periferias, onde o Estado não chega, o cuidado é um ato de resistência, feito entre o trabalho, os filhos — e as contas. Pesquisas da Fiocruz e estudos municipais indicam que apenas uma pequena fração das capitais dispõe de programas de suporte a cuidadores informais; a maioria não conta com políticas estruturadas.

    A pandemia escancarou esse colapso

    Durante a covid-19, relatos coletados pela Fiocruz e pela UFRJ mostraram um aumento expressivo no país de estresse e isolamento entre cuidadores, sem rede de apoio e com medo de levar o vírus para dentro de casa. Como conclui o relatório Cuida-COVID, coordenado por Daniel Groisman e Dalia Romero: “Os resultados evidenciam o aumento da carga de trabalho, do sofrimento psíquico e do sentimento de isolamento entre pessoas cuidadoras de idosos durante a pandemia de covid-19, revelando o quanto o cuidado, especialmente o exercido por mulheres, foi uma das frentes mais sacrificadas e menos reconhecidas da crise sanitária.” Organismos internacionais alertam que a falta de aplicabilidade das políticas de cuidado pode pressionar fortemente os orçamentos de saúde nas próximas décadas.

    A economista Ana Amélia Camarano, do Ipea, em entrevista ao portal da instituição, alertou: “O cuidado é o novo desafio estrutural do envelhecimento brasileiro. Sem políticas de apoio, ele se transforma em tragédia doméstica”. O Brasil ainda trata o cuidado como assunto de família, não como política pública. A profissão de cuidador, embora existam projetos em discussão no Congresso, sofre com a falta de uma regulamentação específica (atualmente, quem se dedica a essa tarefa pode ser considerado empregado doméstico). Programas anunciados pelo governo, como o Cuida Mais Brasil e a Política Nacional de Cuidados “Brasil que cuida” foram passos iniciais, entretanto sua implementação e cobertura ainda são embrionárias.

    Continua após a publicidade

    Nações que envelheceram antes entenderam que cuidar é parte da infraestrutura social. O Japão, por exemplo, em 2000, criou o Long-Term Care Insurance, sistema público que oferece subsídio e capacitação a cuidadores familiares. A Alemanha mantém licenças remuneradas para quem precisa deixar o emprego temporariamente para ficar com um parente. Aqui, nada disso existe.

    Especialistas em saúde urbana defendem que o planejamento das cidades inclua o envelhecimento na pauta: moradias adaptadas, calçadas acessíveis, transporte inclusivo e redes comunitárias de apoio. Modelos de “bairros amigos do idoso”, inspirados na iniciativa da Organização Mundial da Saúde (OMS), começam a surgir em lugares como Campinas e Curitiba, porém ainda de maneira experimental. Sem integrar urbanismo, saúde e políticas públicas, o país seguirá empurrando o cuidado para dentro dos lares e para cima das mulheres.
    Cuidar virou luxo – e luxo caro.

    O Brasil, uma das nações mais urbanizadas do mundo — com cerca de 87% da população vivendo em cidades — precisa fazer uma escolha: continuar terceirizando o cuidado para quem já assume múltiplas responsabilidades ou reconhecê-lo como um pilar da saúde pública e da dignidade humana. O país envelhece em ritmo acelerado, e essa transformação ocorre em cidades que ainda não se prepararam para abrigar vidas mais longas. A urbanização, marcada por desigualdades e pela falta de planejamento, tem exposto limitações que afetam diretamente o bem-estar da população idosa. Em muitos contextos, a velhice ainda significa lidar com barreiras físicas, redes de apoio frágeis e acesso restrito a serviços essenciais. A longevidade, que deveria ser motivo de celebração, revela também o quanto as políticas públicas precisam evoluir a fim de que viver mais não seja um peso para ninguém.

    * Gabriela Vasconcelos é economista, urbanista social e coordenadora de Projetos do Centro de Estudos das Cidades – Laboratório Arq.Futuro do Insper, é mestranda em Saúde Pública na FSP-USP
    .

    Publicidade

    Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

    Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

    OFERTA LIBERE O CONTEÚDO

    Digital Completo

    A notícia em tempo real na palma da sua mão!
    Chega de esperar! Informação quente, direto da fonte, onde você estiver.
    De: R$ 16,90/mês Apenas R$ 1,99/mês
    MELHOR OFERTA

    Revista em Casa + Digital Completo

    Receba 4 revistas de Veja no mês, além de todos os benefícios do plano Digital Completo (cada revista sai por menos de R$ 7,50)
    De: R$ 55,90/mês
    A partir de R$ 29,90/mês

    *Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
    *Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês.