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Os desafios urbanos contemporâneos, e seus impactos para a população, na análise do Centro de Estudos das Cidades — Laboratório Arq.Futuro do Insper

Crimes, tubarões e lambaris

O crime organizado nunca esteve tão rico, tão disseminado, tão armado e com tanto domínio ou predomínio territorial

Por Ricardo Balestreri*
7 fev 2026, 08h00 •
  • Há mais de quarenta anos o Brasil insiste em uma política hegemônica de segurança pública que escolheu um inimigo de classe claro e territórios específicos: a “guerra às drogas” travada majoritariamente em favelas e periferias. A estratégia central não vem sendo a implementação de oportunidades inclusivas para os “de baixo”, ladeadas por um policiamento permanente, de proximidade e baseado em inteligência, voltado a cuidar das populações empobrecidas das cidades, que também têm o direito humano à segurança pública. O que vem prevalecendo, ao contrário, é um ciclo vicioso de “operações policiais”, incursivas, invasivas e subsequentemente evasivas. Quase sempre, são ações espetaculosas pontuais, bélicas e reativas, que resultam em alta letalidade, violações de direitos dos que moram no entorno dos conflitos — e uma desalentadora sensação de eterno recomeço. Após mais de quatro décadas, o resultado é inegável: essa estratégia faliu escandalosamente.

    Tal falência não é apenas uma força de expressão; ela é medida em números. O crime organizado nunca esteve tão rico, tão disseminado, tão armado e com tanto domínio ou predomínio territorial. Enquanto o Estado entra e sai da favela com aparatos de guerra, as facções se consolidam, diversificam seus negócios e expandem sua influência. As consequências diretas dessas abordagens geralmente inócuas em relação à pujança criminal, todavia, massacram a população humilde, tiranizada pelas organizações delinquenciais. Uma pesquisa do DataFolha (2025), encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), revelou que impressionantes 28,5 milhões de pessoas foram impactadas por organizações criminais no bairro onde habitam. São as vítimas de uma “guerra” que nunca teve como objetivo real protegê-las. Esquecidas e desprezadas, quando perdem a vida, pela proximidade com o palco de confrontações, são tratadas desdenhosamente como “danos colaterais”.

    É evidente que o viés do crime que se manifesta no varejo de drogas dentro das favelas precisa ser dura e eficazmente reprimido e que os territórios precisam ser retomados pelo Estado de Direito e entregues para a população honesta e trabalhadora. Não é isso, contudo, o que vem acontecendo. O que ocorre são os habitantes daqueles espaços de exclusão tratando de sobreviver em meio ao fogo cruzado entre facções e entre facções e forças policiais (também, elas, vítimas da má política).  

    Dados de pesquisa do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos, da Universidade Federal Fluminense (2022) revelam que de 2007 a 2021 foram “realizadas 17.929 operações policiais em favelas na região metropolitana do Rio, das quais 593 terminaram em chacinas, com um total de 2.374 mortos”. Em pesquisa correlata (2021), o mesmo Grupo de Estudos da UFF avaliou a eficiência da maior parte dessas operações, aquelas contidas entre 2007 e 2020, para concluir, espantosamente, que apenas 1,7% “podem ser consideradas eficientes em relação à motivação e consequências”. Tais números denunciam uma escandalosa e insistente incompetência do Estado, entretanto o debate público brasileiro em torno da questão — alimentado, em especial, pelo populismo político, à cata de votos ressentidos e emocionais — esbarra em  uma “cortina de fumaça” que nos força a olhar apenas para o “térreo”, para o confronto armado na viela precarizada, e jamais para a “cobertura”, onde as verdadeiras estratégias, os atores financeiros e os cérebros articuladores do crime operam.

    Esse desvio de foco não é acidental; é um projeto que se alimenta de nossa herança cultural e ideológica escravista, hoje expandida para o conjunto da população empobrecida. No Brasil, de forma inconfessável, governa-se a segurança pública conforme o CEP. As favelas e periferias são vistas pelo senso comum de uma espantosa parte do poder público não como potências de soluções ou partes integrantes da cidade, com iguais direitos, e sim como redutos de problemas e ameaças endêmicas. Assim, as políticas públicas repressivas miram desconfiadamente os pobres, negros e periféricos, vistos, de fato, como representantes de uma classe virtualmente ameaçadora e perigosa.

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    Essa lógica explica por que a violência desmedida de parte da polícia é tolerada e por que o sistema de justiça criminal foca quase somente no pequeno traficante ou, quando muito, nos gerentes regionais varejistas, enquanto raramente produz episódios como as recentes (e ainda incipientes) operações que miraram a lavagem de dinheiro e a logística sofisticada do crime no coração financeiro do país. Episódios como as Operações Carbono Oculto, Quasar e Tank, que confluíram para a região da Faria Lima, na capital paulista, são raros eventos reveladores de uma “raiz invertida” do crime organizado: os fuzis que dominam favelas não brotam no morro; em sua maior parte, eles são comprados ao peso de dólares e de euros, à vista, nos Estados Unidos e na Europa, lavados por escritórios de luxo, transportados e triangulados por rotas complexas de milhares de quilômetros, atravessando dezenas de barreiras policiais e, só então, distribuídos para a sustentação dos conflitos no “térreo” do edifício criminal.

    Se essa percepção parecia intuitiva para alguns, ela agora é estatística. A pesquisa inédita “Follow the Products: rastreamento de produtos e enfrentamento ao crime organizado no Brasil”, lançada em 2025 pelo FBSP, é um divisor de águas na história da segurança pública nacional. Há o “antes” e o “depois” do conhecimento real sobre as receitas do crime. O estudo expõe, de maneira inédita, o fluxo financeiro que sustenta negócios lícitos e ilícitos, poder bélico e corrupção.

    Os números são estonteantes e se agíssemos com verdadeira inteligência deveriam reorientar qualquer estratégia pública de segurança. O levantamento estima que, desde 2022, a receita do crime organizado no Brasil atinge a cifra anual aproximada de R$ 348 bilhões. E, como alertam os próprios pesquisadores, essa é apenas a parte conhecida e mensurada do problema, uma estimativa que eles próprios qualificam como “conservadora”. Em sua maioria, os conglomerados empresariais brasileiros e até mesmo mundiais não possuem, a cada ano, uma receita líquida comparável à receita das organizações criminais em nosso país.

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    Esse valor expõe a mudança no perfil do crime. Embora o tráfico de cocaína ainda gere uma receita aproximada impressionante, de R$ 15 bilhões ao ano, esse número é ofuscado pela grandeza dos novos mercados. A droga está muito longe de ser o principal business. A pesquisa revela que apenas os crimes virtuais e os golpes envolvendo celulares já movimentam anualmente cerca de 186 bilhões de reais. Além disso, o estudo detalha a infiltração em mercados aparentemente lícitos, nos quais quatro segmentos somam uma receita anual aproximada de 146,8 bilhões de reais: o de combustíveis, o de bebidas, o de garimpo ilegal de ouro e o de cigarros.

    Diante desses números, a genial ameaça da esfinge mitológica nos poderia ser emprestada, quando se trata da contenção criminal: “Decifra-me, ou te devoro”.  

    Enquanto insistirmos em olhar apenas para baixo, focando exclusivamente no confronto territorial nas favelas, jamais daremos resposta ao enigma.

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    Não há nenhuma liderança verdadeiramente importante do crime organizado morando em comunidades pobres. A gestão de R$ 348 bilhões anuais não é feita da laje e sim de condomínios de luxo, escritórios suntuosos, empresas de fachada e paraísos fiscais. Quem olha atentamente para as receitas, para a objetividade dos números, percebe que as políticas majoritárias de segurança pública no Brasil, há muito, vêm sendo uma trágica e sangrenta distração.

    Ou seguimos, de fato, o fluxo do dinheiro e dos produtos, investigando a lavagem de capitais, as rotas logísticas, os fornecedores de armas e os financiadores e sócios na “cobertura”, ou o crime, cada vez mais rico e infiltrado, continuará se espraiando, contaminando e corrompendo todos os segmentos sociais, especialmente os políticos. E, assim, cumprirá o seu desígnio, já iniciado, de devorar as nossas cidades e as suas populações.

    * Ricardo Balestreri é coordenador do Núcleo de Urbanismo Social e Segurança Pública do Centro de Estudos das Cidades – Laboratório Arq.Futuro do Insper e ex-secretário nacional de Segurança Pública

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