Cidades também adoecem
Poluição, crise hídrica e crise energética são sintomas de escolhas equivocadas que exigem uma mudança de rumo para assegurar o futuro
As cidades são organismos vivos. Nascem, crescem, amadurecem e, quando suas funções entram em desequilíbrio, adoecem. Cada uma traz, desde a fundação, um “genoma” — seu traçado urbano, seus rios, colinas, ventos e as escolhas que moldaram sua estrutura. Esse código original define muito do que virá depois. No entanto, como ocorre com os seres humanos, o destino de uma cidade não é escrito apenas nos genes: ele depende também do seu “epigenoma” (regulação da expressão dos genes), isto é, das políticas, gestões e hábitos que modulam seu funcionamento ao longo do tempo. Durante séculos, acreditamos que o progresso era sinônimo de pavimento, concreto e motores. Era plausível, por exemplo, cobrir rios com avenidas — afinal, a prioridade era o trânsito, não o curso d’água. Décadas depois, descobrimos o erro: o que parecia solução gerou crises hídricas, enchentes e calor extremo. O mesmo vale para o consumo de energia, a poluição e o isolamento urbano. Ao tentar resolver os desafios de ontem, criamos os problemas de hoje.
É como se tivéssemos entrado na rotatória errada da sustentabilidade. Quanto mais aceleramos, mais nos afastamos da direção correta. Corrigir o rumo exige parar, voltar e refazer o trajeto — tarefa difícil, porém necessária. As cidades que insistirem na mesma via ficarão cada vez mais doentes.
A analogia com o corpo humano é útil. Quando uma pessoa adoece, o organismo envia sinais de alerta: febre, dor, inflamação. As cidades também expressam seus sintomas. O trânsito congestionado lembra uma trombose; a escassez de água, uma anemia; o acúmulo de lixo, uma falência renal; o calor das ilhas urbanas, uma febre. A violência e a corrupção equivalem a doenças autoimunes, em que o próprio corpo ataca suas defesas.
Nos laboratórios da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), ao estudar os efeitos da poluição sobre pulmões e cérebros de moradores urbanos, vimos como a cidade se imprime no corpo. Mas também percebemos o inverso: os corpos refletem o estado de saúde das cidades. O ar que respiramos, a água que bebemos e o modo como nos movemos são expressões do metabolismo urbano — o mesmo metabolismo que pode se desregular, como acontece com o diabetes ou a hipertensão. Essa perspectiva dá origem a um novo campo que poderíamos chamar de “Biologia Evolutiva das Cidades”. Assim como a medicina evolutiva explica como certas doenças humanas resultam de adaptações mal ajustadas ao ambiente atual, as doenças urbanas são consequência de escolhas históricas que não acompanharam as novas condições. Um zoneamento pensado para uma cidade pequena, por exemplo, pode gerar caos quando ela cresce. Uma política de transporte centrada no automóvel, criada num tempo de carros raros, vira em catástrofe ambiental e social quando o número de veículos explode.
A boa notícia é que o adoecimento também pode ser motor de mudança. A dor, no corpo ou na cidade, é um chamado à transformação. Ao reconhecer os sintomas e compreender suas causas, podemos iniciar o tratamento. Cidades podem ser reabilitadas — abrindo rios, recuperando áreas verdes, apostando em transporte público limpo, em moradias dignas e em políticas que aproximem, e não separem, as pessoas. Talvez seja esse o aprendizado comum entre biologia e urbanismo: adoecer é parte do processo de cura. Só quando o corpo entra em crise é que busca novos equilíbrios. As cidades, da mesma forma, precisam usar suas doenças como oportunidade de regeneração.
O futuro das cidades, e o nosso próprio futuro, depende da coragem de reconhecer os erros do passado e de reprogramar o epigenoma urbano, substituindo políticas que adoecem por práticas que promovem vitalidade. Se conseguirmos fazer isso, talvez o século XXI fique conhecido não como o tempo em que as cidades adoeceram em busca do progresso e sim como o momento em que decidiram reaprender a viver.
*Paulo Saldiva é coordenador da Iniciativa Saúde Urbana do Centro de Estudos das Cidades – Laboratório Arq.Futuro do Insper, além de médico formado pela USP e professor titular do Departamento de Patologia da instituição desde 1996.





