Metidos a besta, ontem e hoje
O Livro das Bestas é leitura indispensável para entender o Brasil, hoje

Deonísio da Silva
“Se o Cavalo tornar-se rei, e o Leão lhe fizer alguma ofensa, como poderá o Cavalo vingar-se, se não é tão forte como o Leão?”
O Livro das Bestas é leitura indispensável para entender o Brasil, hoje. Um dos personagens é Félix, um andarilho que vive admirado das “maravilhas do mundo”.
Félix vai a um lugar onde animais selvagens estão escolhendo o rei. A estratégia do autor é criticar usos e costumes epocais pela mistura de pessoas e bichos como personagens. Esses últimos são interpretados pelo comportamento dos primeiros, como nas fábulas.
De quebra o leitor é informado do funcionamento do poder na sociedade feudal, da absoluta prevalência das paixões humanas na política e da eterna luta entre o Bem e o Mal, em que o segundo quase sempre vence o primeiro.
Logo no primeiro capítulo a eleição é embargada porque a Raposa se dá conta de que o Urso, o Leopardo e a Onça, fortes candidatos e esperançosos de serem eleitos, levantam uma questão de ordem para que seja decidido qual é o animal mais digno de ser rei. A Onça fica desconfiada.
Lúlio era clérigo e dá um tempero interessante à narrativa, ao referir a escolha de um bispo. A eleição estava demorando muito, embora não houvesse segundo turno.
Um cônego que queria ser bispo, presente à votação, pede a palavra para dizer o seguinte: “Se o Leão se torna rei, e o Urso, a Onça e o Leopardo se opõem à eleição, depois serão para sempre malquistos pelo rei. Se, porém, o Cavalo tornar-se rei, e o Leão lhe fizer alguma ofensa, como poderá o Cavalo vingar-se, se não é tão forte como o Leão?”
Eleito rei o Leão, este tem dificuldade de compor o ministério, a esse tempo conhecido por Conselho do Reino. A Raposa, depois de várias articulações, consegue ser nomeada chefe do gabinete civil, isto é, porteira da Câmara Real.
O cargo era muito cobiçado porque competia ao titular cuidar da agenda do rei, cobrar os devedores de impostos, podendo para isso citar e penhorar os bens dos devedores.
Certa vez o Leopardo viaja e o Leão comete adultério com a Leoparda. A Onça, em defesa do rei, trava briga feroz com o Leopardo. A Serpente pergunta ao Galo quem vai vencer a briga. O Galo responde: “Fez-se o combate para que a verdade confunda e destrua a falsidade. Deus é a verdade. Todo aquele que sustenta a falsidade luta contra Deus e contra a verdade”.
O Leopardo mata a Onça e antes a obriga a dizer, diante de todos, que o rei Leão era falso e traidor. Tomado de vergonha e embaraçado, mas cheio de ódio, o Leão aproveita que o Leopardo está cansado da briga e liquida com o atrevido crítico de seu reinado.
Depois deste momento decisivo, a paz volta ao reino graças a algumas mudanças no Conselho de Ministros.
O desfecho é impressionante: o Leão dá um urro fortíssimo para que não apenas o Coelho e o Pavão, que estavam com medo de denunciar as fraudes da Raposa, mas também a Raposa ─ enfim, todos os bichos ─ entendam que o medo de falar a verdade deveria ser substituído pelo medo de mentir.
A seguir, o Leão mata a Raposa. E expulsa do reino o Coelho e o Pavão, que tinham medo dela e por isso não diziam tudo o que sabiam, e traz para ministros o Elefante, o Javali e outros bichos.
A narrativa de Lúlio tem o título de Livro das Bestas, mas bem quem poderia chamar-se Livro dos Metidos a Bestas. É um texto que ilumina como poucos alguns momentos decisivos pelos quais o Brasil passou recentemente e a conturbada passagem que a mídia repercute sem cessar a todo instante.
O catalão Raimundo Lúlio casou, teve dois filhos, mas abandonou tudo para persuadir os governantes civis e religiosos a praticar e defender a coisa pública. Nasceu na ilha de Maiorca, em 1232, e faleceu em 1316, aos 84 anos.
*Deonísio da Silva
Diretor do Instituto da Palavra & Professor
Titular Visitante da Universidade Estácio de Sá
https://portal.estacio.br/instituto-da-palavra