Avatar do usuário logado
Usuário
OLÁ, Usuário
Ícone de fechar alerta de notificações
Avatar do usuário logado
Usuário

Usuário

email@usuario.com.br
Oferta Relâmpago: VEJA por apenas 1,99
Imagem Blog

Augusto Nunes

Por Coluna Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

A bênção do poeta

Samba da bênção Vinicius de Moraes / Baden Powell É melhor ser alegre que ser triste Alegria é a melhor coisa que existe É assim como a luz no coração Mas pra fazer um samba com beleza É preciso um bocado de tristeza É preciso um bocado de tristeza Senão, não se faz um samba […]

Por Augusto Nunes 9 jul 2010, 22h26 • Atualizado em 31 jul 2020, 14h51
  • LIVRO

    Samba da bênção

    Vinicius de Moraes / Baden Powell

    É melhor ser alegre que ser triste
    Alegria é a melhor coisa que existe
    É assim como a luz no coração

    Mas pra fazer um samba com beleza
    É preciso um bocado de tristeza
    É preciso um bocado de tristeza
    Senão, não se faz um samba não

    Senão é como amar uma mulher só linda
    E daí? Uma mulher tem que ter
    Qualquer coisa além de beleza
    Qualquer coisa de triste
    Qualquer coisa que chora
    Qualquer coisa que sente saudade
    Um molejo de amor machucado
    Uma beleza que vem da tristeza
    De se saber mulher
    Feita apenas para amar
    Para sofrer pelo seu amor
    E pra ser só perdão

    Fazer samba não é contar piada
    E quem faz samba assim não é de nada
    O bom samba é uma forma de oração
    Porque o samba é a tristeza que balança
    E a tristeza tem sempre uma esperança
    A tristeza tem sempre uma esperança
    De um dia não ser mais triste não

    Ponha um pouco de amor numa cadência
    E vai ver que ninguém no mundo vence
    A beleza que tem um samba, não

    Porque o samba nasceu lá na Bahia
    E se hoje ele é branco na poesia
    Se hoje ele é branco na poesia
    Ele é negro demais no coração

    Eu, por exemplo, o capitão do mato
    Vinicius de Moraes
    Poeta e diplomata
    O branco mais preto do Brasil
    Na linha direta de Xangô, saravá!
    A bênção, Senhora
    A maior ialorixá da Bahia
    Terra de Caymmi e João Gilberto
    A bênção, Pixinguinha
    Tu que choraste na flauta
    Todas as minhas mágoas de amor
    A bênção, Cartola, a benção, Sinhô
    A bênção, Ismael Silva
    Sua bênção, Heitor dos Prazeres
    A bênção, Nelson Cavaquinho
    A bênção, Geraldo Pinheiro
    A bênção, meu bom Cyro Monteiro
    Você, sobrinho de Nonô
    A bênção, Noel, sua bênção, Ary
    A bênção, todos os grandes
    Sambistas do Brasil
    Branco, preto, mulato
    Lindo como a pele macia de Oxum
    A bênção, maestro Antonio Carlos Jobim
    Parceiro e amigo querido
    Que já viajaste tantas canções comigo
    E ainda há tantas por viajar
    A bênção, Carlinhos Lyra
    Parceiro cem por cento
    Você que une a ação ao sentimento
    E ao pensamento
    Feito essa gente que anda por aí
    Brincando com a vida
    Cuidado, companheiro!
    A vida é pra valer
    E não se engane não, tem uma só
    Duas mesmo que é bom
    Ninguém vai me dizer que tem
    Sem provar muito bem provado
    Com certidão passada em cartório do céu
    E assinado embaixo: Deus
    E com firma reconhecida!
    A vida não é brincadeira, amigo
    A vida é arte do encontro
    Embora haja tanto desencontro pela vida
    Há sempre uma mulher à sua espera
    Com os olhos cheios de carinho
    Ponha um pouco de amor na sua vida
    Como no seu samba
    A bênção, a bênção, Baden Powell
    Amigo novo, parceiro novo
    Que fizeste este samba comigo
    A bênção, amigo
    A bênção, maestro Moacir Santos
    Não és um só, és tantos como
    O meu Brasil de todos os santos
    Inclusive meu São Sebastião
    Saravá! A bênção, que eu vou partir
    Eu vou ter que dizer adeus

    Continua após a publicidade

    Ponha um pouco de amor numa cadência
    E vai ver que ninguém no mundo vence
    A beleza que tem um samba, não

    Porque o samba nasceu lá na Bahia
    E se hoje ele é branco na poesia
    Se hoje ele é branco na poesia
    Ele é negro demais no coração

    A cidade antiga

    Vinicius de Moraes

    Houve tempo em que a cidade tinha pêlo na axila
    E em que os parques usavam cinto de castidade
    As gaivotas do Pharoux não contavam em absoluto
    Com a posterior invenção dos kamikazes
    De resto, a metrópole era inexpugnável
    Com Joãozinho da Lapa e Ataliba de Lara.

    Continua após a publicidade

    Houve tempo em que se dizia: LU-GO-LI-NA
    U, loura; O, morena; I, ruiva; A, mulata!
    Vogais! tônico para o cabelo da poesia
    Já escrevi, certa vez, vossa triste balada
    Entre os minuetos sutis do comércio imediato
    As portadoras de êxtase e de permanganato!

    Houve um tempo em que um morro era apenas um morro
    E não um camelô de colete brilhante
    Piscando intermitente o grito de socorro
    Da livre concorrência: um pequeno gigante
    Que nunca se curvava, ou somente nos dias
    Em que o Melo Maluco praticava acrobacias.

    Houve tempo em que se exclamava: Asfalto!
    Em que se comentava: Verso livre! com receio…
    Em que, para se mostrar, alguém dizia alto:
    “Então às seis, sob a marquise do Passeio…”
    Em que se ia ver a bem-amada sepulcral
    Decompor o espectro de um sorvete na Paschoal

    Houve tempo em que o amor era melancolia
    E a tuberculose se chamava consumpção
    De geométrico na cidade só existia
    A palamenta dos ioles, de manhã…
    Mas em compensação, que abundância de tudo!
    Água, sonhos, marfim, nádegas, pão, veludo!

    Continua após a publicidade

    Houve tempo em que apareceu diante do espelho
    A flapper cheia de it, a esfuziante miss
    A boca em coração, a saia acima do joelho
    Sempre a tremelicar os ombros e os quadris
    Nos shimmies: a mulher moderna… Ó Nancy! Ó Nita!
    Que vos transformastes em dízima infinita…

    Houve tempo… e em verdade eu vos digo: havia tempo
    Tempo para a peteca e tempo para o soneto
    Tempo para trabalhar e para dar tempo ao tempo
    Tempo para envelhecer sem ficar obsoleto…
    Eis por que, para que volte o tempo, e o sonho, e a rima
    Eu fiz, de humor irônico, esta poesia acima.

    Publicidade

    Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

    Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

    OFERTA RELÂMPAGO

    Digital Completo

    A notícia em tempo real na palma da sua mão!
    Chega de esperar! Informação quente, direto da fonte, onde você estiver.
    De: R$ 16,90/mês Apenas R$ 1,99/mês
    RESOLUÇÕES ANO NOVO

    Revista em Casa + Digital Completo

    Receba 4 revistas de Veja no mês, além de todos os benefícios do plano Digital Completo (cada revista sai por menos de R$ 7,50)
    De: R$ 55,90/mês
    A partir de R$ 29,90/mês

    *Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
    *Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês.