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Sonda Rosetta ‘desperta’ para ser o primeiro objeto a pousar em um cometa

Após dois anos e meio de "hibernação", o equipamento volta à atividade para cumprir uma das missões mais ambiciosas da história espacial

Uma das missões mais ambiciosas da história espacial entrou em sua fase decisiva nesta segunda-feira, às 8h (horário de Brasília), quando a sonda Rosetta, projetada pela Agência Espacial Europeia (ESA, na sigla em inglês), acordou após dois anos e meio de “hibernação” para ser a primeira a pousar em um cometa. Às 16h20 (também no horário de Brasília), os sinais de Rosetta chegaram de volta à Terra, confirmando que o despertar foi bem-sucedido. A conta no Twitter da sonda publicou a frase “Olá, mundo!”, em diversas línguas, entre elas o português.

Por que Rosetta?

A sonda foi batizada em homenagem à Pedra de Roseta, uma rocha vulcânica descoberta por soldados franceses em 1799, no Egito. Ela ajudou a desvendar o Egito Antigo para os exploradores, por possuir escritos em hieróglifos – linguagem egípcia escrita, que até então era desconhecida – e sua tradução em grego, que já era conhecido. A comparação entre os escritos permitiu que os pesquisadores decifrassem os códigos da civilização egípcia – assim como os cientistas esperam que a sonda Rosetta desvende as peças mais antigas do Sistema Solar, os cometas.

O despertar teve início pelo rastreador de estrelas, que permite que a sonda determine sua posição no espaço. Seis horas depois, foi a vez dos propulsores, que foram ativados para deter a lenta rotação do objeto e garantir que os painéis solares estejam bem posicionados.

Em seguida, Rosetta mirou seu transmissor em direção à Terra – que está a 807 milhões de quilômetros de distância – e enviou uma confirmação de que tudo vai bem. Dessa distância, a mensagem leva 45 minutos para chegar ao planeta. Por essa razão, a resposta de Roseta era esperada para as 16h30 (horário de Brasília). A partir desse momento, a sonda vai poder recomeçar sua jornada em direção ao seu destino final: o cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko.

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Origem do Sistema Solar – Os cometas são um objeto de estudo importante, por serem considerados “restos” da formação do Sistema Solar que continuam vagando pelo Universo. De acordo com algumas teorias, eles podem ter sido os responsáveis por trazer a água, ou até mesmo a vida, para o planeta. “Acredita-se que [os cometas] tenham surgido no início do Sistema Solar, há cerca de 4,5 bilhões de anos, e que se mantenham quase idênticos ao que eram em seu nascimento”, afirma Nicolas Altobelli, um dos cientistas da ESA que participam da missão.

Rosetta está próxima de completar dez anos de exploração espacial. Ela foi lançada no dia 2 de março de 2004, a bordo do foguete Ariane 5, do Centro Espacial Europeu de Kourou, na Guiana Francesa, e tem previsão de funcionar até 31 de dezembro de 2015. Após seu lançamento, ela realizou três órbitas ao redor da Terra, para ganhar impulso, e uma ao redor de Marte. Ela também foi o primeiro objeto a se aproximar de Júpiter, usando seus painéis solares como principal fonte de energia.

Pouso no cometa – O aparelho, que viaja a 135 mil km/h, está ainda a quase 9 milhões de quilômetros do cometa. Em maio, quando estiver a 2 milhões de quilômetros de seu anfitrião, fará a manobra crítica, na qual corrigirá sua velocidade e trajetória, e começará a enviar fotografias do 67P/Churyumov-Gerasimenko para a Terra. A sonda deve se aproximar do cometa em agosto, quando vai estudar sua superfície para encontrar o melhor ponto de pouso. Feito isso, vai liberar o veículo Philae, que pesa 100 quilos, para pousar no cometa.

“Philae lançará arpões ao chão para se ancorar, porque a gravidade é muito baixa e, se não fosse assim, ele rebateria”, explica Altobelli. A pouca gravidade faz com que a aterrissagem seja mais complexa que a de um aparelho similar na superfície de Marte.

O veículo, que possui nove ferramentas, dentre indicadores de gás, câmeras panorâmicas e sondas para analisar as ondas de rádio do núcleo, passará entre um e dois meses fazendo fotografias e recolhendo amostras, que serão analisadas junto com Rosetta. O 67P/Churyumov-Gerasimenko vai atingir seu ponto mais próximo ao Sol em agosto de 2015, enquanto Rosetta seguirá orbitando ao seu redor e colhendo dados. “Pela primeira vez seremos capazes de analisar um cometa durante um longo tempo, e isso nos dará uma visão interna de como ele trabalha, para nos ajudar a decifrar o papel que desempenha no Sistema Solar”, sintetiza Matt Taylor, cientista que atua na missão.

O 67P/Churyumov-Gerasimenko foi escolhido, dentre tantos outros, porque este cometa em particular viveu bilhões de anos no espaço profundo até que uma passagem perto de Júpiter mudou radicalmente sua órbita em 1959. Dessa forma, ele quase não sofreu com a ação dos raios solares. “Esta cápsula do tempo está fechada há 4,6 bilhões de anos. Chegou o momento de abrir a arca do tesouro”, explicou o astrofísico da ESA Mark McCaughrean.

(Com Agências France-Presse e Efe)