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O último dinossauro

Fósseis encontrados nos EUA, como a perna de um tescelossauro, revisitam o dia em que um asteroide atingiu a Terra e pôs fim ao período Cretáceo

Por Luiz Felipe Castro Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO , Sabrina Brito Atualizado em 4 jun 2024, 12h14 - Publicado em 16 abr 2022, 08h00

Há 66 milhões de anos, um asteroide de 10 quilômetros de largura atingiu em cheio a região onde hoje fica a cidade de Chicxulub, na Península de Yucatán, no México. Abriu-se uma cratera de 100 quilômetros de largura e mais de 30 quilômetros de profundidade. A energia liberada, superior à de 10 bilhões de bombas de Hiroshima, lançou trilhões de toneladas de detritos aos céus e provocou tsunamis, deixando um rastro de destruição pela Terra. Os dinossauros, bem como a maioria das espécies animais da época, não resistiram ao impacto e seus efeitos ambientais. Assim, deu-se a última grande extinção em massa e a transição do período Cretáceo e para o Paleógeno. A tese levantada a partir da década de 80 com a descoberta de uma camada de argila rica em irídio, elemento comum em meteoritos, é amplamente aceita pela comunidade científica. Agora, uma remota região nos EUA abriga novas evidências sobre o juízo final dos dinossauros.

Uma equipe liderada por Robert DePalma, estudante de pós-graduação da Universidade de Manchester, vasculha há dez anos os tesouros do sítio arqueológico de Tanis, em Dakota do Norte. O local fica a 3 000 quilômetros de Yucatán, mas acredita-se que os animais ali descobertos foram vítimas da catástrofe, cerca de treze minutos após o impacto. O achado mais chamativo é uma perna de dinossauro incrivelmente conservada, que será destaque de Dinosaurs: The Final Day, série da rede BBC narrada pelo ambientalista David Attenborough, que estreia nesta semana no Reino Unido.

TESOURO - David Attenborough, na série da BBC: achado histórico -
TESOURO – David Attenborough, na série da BBC: achado histórico – (John Sayer/BBC STUDIOS/.)

O professor Phil Manning, supervisor de doutorado de DePalma em Manchester, explicou a VEJA como a perna de textura semelhante à de lagartos parecia tão intacta. “A pele não está totalmente preservada como tecido. É uma camada de substituição do couro. Compostos orgânicos preservam parcialmente a estrutura da epiderme”, disse. “É uma perna articulada, nunca vi nada tão preservado.” Paul Barret, professor do Museu de História Natural de Londres, contratado pela BBC como especialista independente, disse se tratar de um membro de tescelossauro, um herbívoro bípede. Segundo ele, a posição em que foi encontrado e o fato de não haver vestígios de doença ou ataques de predadores levam a crer que o animal morreu instantaneamente, possivelmente por afogamento na enchente que submergiu Tanis, depois do cataclismo.

Há evidências fortes de que o local possa mesmo se tratar de uma verdadeira cápsula do tempo. Foram encontrados em Tanis um ovo de pterossauro com um filhote dentro e peixes espetados por gotas de vidro, datadas de 65,8 milhões de anos atrás, que teriam se formado a partir de gotículas de pedra derretida lançadas na atmosfera e resfriadas ao retornar à superfície naquela tragédia. O material estaria preservado pela resina das árvores, que forneceu uma espécie de invólucro protetor. “Encontramos detalhes que nos dizem o que aconteceu a cada momento. É quase como ver um filme que nos leva de volta àquele dia”, definiu DePalma à BBC. Por enquanto, as descobertas despertam certa desconfiança de colegas e ainda precisam ser revisadas por pares. Se confirmadas, porém, darão ares forenses ao evento que extinguiu os dinossauros e propiciou a evolução de mamíferos como nós, humanos.

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O primeiro ninho do Brasil

PAI CORUJA - Luiz Carlos Ribeiro, em Uberaba: orgulhoso, com os ovos -
PAI CORUJA - Luiz Carlos Ribeiro, em Uberaba: orgulhoso, com os ovos – (./Arquivo pessoal)

Outras regiões da América esbanjam riqueza paleontológica e, de tempos em tempos, deparam com fósseis extraordinários. A boa nova vem do Brasil. No último dia 24, um artigo publicado pelo periódico Scientific Reports, do grupo Nature, relatou a descoberta do primeiro ninho de ovos de dinossauro já encontrados no país. Até então, só haviam sido recolhidos ovos isolados na área.

O achado se deu no bairro rural de Ponte Alta, em Uberaba (MG). Foram reveladas associações de ovos de cerca de 12 centímetros de diâmetro. Devido a chuvas torrenciais, que carregaram consigo lama e cascalho, os ovos não puderam eclodir (algo que normalmente fariam, dado o próprio calor do ambiente, sem precisar ser chocados) e ficaram guardados sob o solo para a posteridade.

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Os pesquisadores, liderados por Luiz Carlos Ribeiro, professor da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), compararam os ovos fossilizados a outras descobertas do tipo e chegaram à conclusão de que foram botados por titanossauros, répteis quadrúpedes gigantescos de 10 a 26 metros e até 9 toneladas, os maiores animais terrestres que já caminharam sobre a Terra. Eles eram dotados de longo pescoço e cabeça proporcionalmente pequena e possuíam hábitos herbívoros. “Podemos afirmar que esses titanossauros viviam, se reproduziam e nasciam em Uberaba, representando a ocorrência mais ao norte de um sítio de dinossauros desse tipo da América do Sul”, disse a VEJA Thiago da Silva Marinho, um dos autores do estudo e paleontólogo da UFTM.

Segundo os especialistas, o ninho tem entre 66 e 72 milhões de anos. Especula-se que Ponte Alta era uma região onde os dinossauros construíam seus ninhos e para onde retornavam com periodicidade sazonal, constituindo uma região de enorme interesse biológico, histórico e científico. Impulsionada pelas descobertas, Uberaba estuda a criação de um geoparque com a temática de dinossauros. “A paleontologia atrai interesse e serve como uma porta de entrada para outras ciências, já que muitas crianças e jovens se interessam pelo assunto e acabam se apaixonando pelo ramo”, diz Marinho.

Publicado em VEJA de 20 de abril de 2022, edição nº 2785

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