Novas evidências de água na Lua alimentam uma busca fundamental
Ela significa capacidade de sobrevivência para astronautas e futuras colonizações

É ambição que nasceu antes mesmo de Neil Armstrong dar um pequeno passo para um homem e um grande passo para a humanidade, em 21 de julho de 1969: haveria água na Lua, debaixo do rígido regolito cinzento? Em abundância e fundamental para a vida na Terra, o líquido essencial tem no cosmo valor igualmente relevante, que não pode ser desdenhado. Saber como as moléculas lá chegaram é atalho para melhor compreensão do sistema solar. Em eventual ocupação lunar, seria substância vital para astronautas e futuras colonizações.
Na Lua, a água vale ouro, e buscá-la virou o santo graal das missões promovidas pela Nasa e, mais recentemente, também por iniciativas privadas. Há, nesse campo, uma série de novidades empolgantes. A Darpa, uma das agências do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, acaba de lançar um projeto para atrair companhias que façam parte de um grupo destinado a enviar satélites sedentos por encontrar sinais de água. Um módulo de pouso robótico batizado de Athena, da Intuitive Machines, empresa americana, desceu em março na superfície lá de cima com um objetivo seminal: vasculhar o lado sul da Lua, frio e escuro, considerado relevante por abrigar vastos depósitos de gelo de água. O gelo, destaque-se, poderia ser convertido em água potável, ar respirável ou até mesmo combustível para foguetes.
Há, ainda, o empenho científico de uma empreitada da Índia, a Chandrayaan-3, lançada em 2023, e uma outra da Coreia do Sul, de mãos dadas com pesquisadores da Universidade do Havaí. Em pelo menos uma das investigações coreanas, foi possível identificar, com 30% de certeza, indícios reais de algum líquido. Depois, a porcentagem caiu para 20%, mas ainda assim é uma possibilidade esperançosa e fascinante. “Procurar moléculas de água na Lua é crucial para avançar nos estudos da formação de planetas e galáxias”, diz Roberto Dias, professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo.

Mas então, se achar água na Lua está difícil, apesar dos celebrados avanços, por que não levá-la da Terra, de modo a tornar a Lua menos inóspita, de olho em aventuras do futuro, tão sonhadas? A resposta é simples: custa muito caro. A gravidade da Terra, a necessidade de lançadores potentes para escapar da atmosfera e o alto custo por lançamento tornam a tarefa dispendiosa. Por isso, explorar e extrair água na Lua, caso ela exista em quantidade significativa, é a escolha mais econômica.
Há, porém, entraves políticos que podem frear o movimento, como balde de água fria. O orçamento do governo de Donald Trump prevê corte de valores no financiamento do Sistema de Lançamento Espacial (SLS) e da cápsula tripulada Orion, parte da missão Artemis, que busca colocar um americano de volta no solo lunar em 2027, em um novo capítulo da corrida espacial, agora na lida com a China. A prioridade do presidente — influenciado pelo bilionário conselheiro Elon Musk, que tem a chave do cofre, ao menos por ora — é chegar em Marte. Ainda assim, especialistas consideram a escala na Lua fundamental para alcançar o planeta vermelho. Dito de outro modo, mais direto: sem a Lua não haverá Marte, é degrau compulsório. “O interesse pelo nosso satélite natural voltou quando diversos países se deram conta de que se trata de uma porta de saída fundamental para o cosmo”, afirma o professor Dias. Não é pouca coisa, e uma minúscula gota d’água na Lua pode representar uma tempestade de entusiasmo, a capacidade de por lá existirmos. A esperança persiste, como na bonita frase de Carl Sagan (1934-1966): “A falta de evidência não é uma evidência da ausência”.
Publicado em VEJA de 9 de maio de 2025, edição nº 2943