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Mão fossilizada revela que ancestral do gênero Homo já fabricava ferramentas

Por Por Kerry Sheridan Atualizado em 6 Maio 2016, 17h00 - Publicado em 8 set 2011, 16h24

Ele se balançava nas árvores como um chimpanzé, mas tinha dedos longos e hábeis para fabricar ferramentas, além de pés híbridos para caminhar ereto: assim era o hominídeo ‘Australopithecus sediba’, possível ancestral do gênero Homo, segundo estudo publicado na edição desta quinta-feira da revista Science.

Até agora, acreditava-se que o primeiro fabricante de ferramentas fosse o ‘Homo habilis’. Esta crença se baseava em estudos de 21 ossos de mão fossilizados encontrados na Tanzânia, que datam de 1,75 milhão de anos atrás.

Mas um exame mais detalhado de dois esqueletos parciais fossilizados de ‘Australopithecus sediba’ descobertos na África do Sul em 2008 sugerem que estas criaturas, que habitavam o planeta há 1,9 milhão de anos, elaboravam ferramentas até mesmo antes e poderiam ser o primeiro antepassado direto do gênero Homo.

Após analisar a mão mais completa encontrada até agora, os especialistas concluíram que o ‘Australopithecus sediba’ tinha um polegar extralongo e dedos fortes, que teria usado para fabricar ferramentas, apesar de ainda ter um cérebro pequeno, similar ao do macaco, demonstraram as descobertas.

Os ossos da mão encontrados pertenciam a uma mulher adulta, que tinha entre 20 e 30 anos ao morrer. Seus restos foram encontrados perto dos de um menino, cujos ossos fossilizados também foram incluídos no estudo.

“A mão ‘sediba’ revela uma surpreendente mistura de características que não teríamos previsto que pudessem existir em uma mesma mão”, disse uma das cientistas, Tracy Kivell, do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva em Leipzig, Alemanha.

“Tem um polegar longo, mas é surpreendente que este polegar seja ainda mais longo do que os que vemos nos humanos modernos”, comentou.

“O punho estava mais bem preparado para suportar cargas maiores do que o que poderia durante o uso de ferramentas, por exemplo,” e tinha dedos longos e estreitos, “capazes de agarrar com força”, acrescentou.

“Esta morfologia nos sugere, assim, que o ‘sediba’ provavelmente ainda usava suas mãos para subir em árvores… Mas é provável que também fosse capaz de executar as manobras de precisão que acreditamos ser necessárias para fabricar ferramentas de pedra”, afirmou Kivell.

Outras partes do corpo incluídas no estudo foram o pequeno, porém avançado cérebro do ‘Australopithecus sediba’, sua pélvis, que reflete uma postura ereta, e um conjunto único de pé e tornozelo que “combina características dos macacos e dos seres humanos em um único pacote anatômico”, disse o autor principal do estudo, Lee Berger.

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Berger, um cidadão americano professor da Universidade de Witwatersrand, na África do Sul, e seu filho de nove anos descobriram o fóssil em Malapa, ao norte de Johannesburgo, em 2008.

Neste sítio foram encontrados mais de 220 ossos de pelo menos cinco pessoas, entre as quais crianças, jovens e adultos.

Os ossos do pé e do tornozelo de uma fêmea surpreenderam os paleoantropólogos, devido a sua estranha mistura de um arco do pé e um tendão de Aquiles com os dos humanos, e de um calcanhar e uma tíbia como os do macaco.

“Se os ossos não tivessem sido encontrados grudados, a equipe poderia tê-los classificado como pertencentes a espécies diferentes”, disse outro dos autores do estudo, Bernard Zipfel, da Universidade de Witwatersrand.

A análise realizada por uma equipe de 80 cientistas internacionais, detalhada em cinco artigos na Science, oferece novas pistas sobre como pode ter ocorrido a transição do macaco para o ser humano, mas também suscita muitas dúvidas sobre a evolução da espécie humana.

Os cientistas não estão certos se o gênero Homo, que inclui os humanos contemporâneos, evoluiu diretamente do ‘Australopithecus sediba’ ou se o ‘Australopithecus sediba’ era uma das chamadas espécies “sem saída” e as espécies do gênero Homo evoluíram em separado.

Um dos principais problemas que os paleoantropólogos enfrentam é o pouco que se sabe sobre o esqueleto do ‘Homo habilis’, para o qual, embora o ‘Australopithecus sediba’ esteja bem definido, faltam evidências para comparação.

“O registro fóssil dos primeiros Homo é caótico”, disse outro cientista, Steven Churchill, da Universidade de Duke, na Carolina do Norte, Estados Unidos.

“Muitos fósseis são duvidosamente atribuídos a várias espécies ou sua datação é muito vaga”, explicou.

Mas uma longa lista de todas as características avançadas que o ‘Australopithecus sediba’ compartilha com outras espécies de Homo, como o ‘Homo habilis’ e o ‘Homo rudolfensis’, “sugere que é um bom ancestral da primeira espécie que todos reconhecem no gênero Homo: o ‘Homo erectus'”, emendou.

Segundo Berger, os resultados da equipe sugerem que o ‘Australopithecus sediba’ tem “diretamente o potencial de ser o ancestral que levou ao aparecimento do gênero Homo”.

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