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Em dia histórico, Rosetta vai liberar módulo para pouso em cometa nesta quarta-feira

Com chances de sucesso estimadas em 50%, feito inédito permitirá estudar a composição dos cometas e a origem da água da Terra

Por Juliana Santos Atualizado em 6 Maio 2016, 16h08 - Publicado em 11 nov 2014, 15h22

A próxima quarta-feira promete ser um dia histórico para a astronomia. Dez anos após seu lançamento, a sonda Rosetta vai liberar o módulo Philae para um feito inédito: o pouso em um cometa. Às 14h (do horário de Brasília) chegará à Terra a confirmação do sucesso – ou fracasso – da manobra. A complexidade da missão e os obstáculos que precisam ser ultrapassados para que o pouso seja bem-sucedido provocam grande expectativa em cientistas e curiosos.

Rosetta se aproximou do cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko em agosto deste ano, tornando-se o primeiro objeto a orbitar um cometa. As primeiras imagens do 67P/Churyumov-Gerasimenko mostraram um corpo celeste com formato irregular, diferente do que era esperado. A partir daí, cinco possíveis locais de pouso foram selecionados, todos levando em conta que o módulo Philae precisaria receber pelo menos seis horas diárias de luz solar durante cada rotação do cometa, para que suas baterias sejam recarregadas.

Apenas em meados de outubro o local exato foi definido. Conhecido originalmente como “ponto J”, e rebatizado como Agilkia por meio de um concurso popular, ele fica na parte menor do cometa, chamada de cabeça. Nenhuma das cinco opções cumpria todos os critérios determinados pela Agência Espacial Europeia (ESA, na sigla em inglês). Na época da escolha, Fred Jansen, diretor da missão, declarou que a expectativa era encontrar um comenta arredondado, com forma de “batata” – o formato do 67P mais parece um pato de borracha.

Sucesso – Os pesquisadores calculavam que as chances de um pouso bem-sucedido eram de 70 a 75% – se o corpo celeste tivesse uma forma mais simples. A forma irregular, porém, reduziu o otimismo dos cientistas: atualmente, a ESA estima em 50% as chances de êxito.

Embora existam cometas que passam mais perto da Terra, era necessário viajar uma longa distância para encontrar o corpo celeste antes que ele se aproximasse do Sol. Longe do astro, o cometa é composto apenas pelo núcleo sólido, uma espécie de bola de neve suja. O seu interior é formado por gelo e poeira cósmica. Na medida em que o cometa se aproxima da estrela, a radiação faz com que o gelo vaporize, originando a coma, que envolve seu núcleo, e uma ou mais caudas.

Como um dos objetivos da missão era acompanhar de perto a transformação que o cometa sofre, era preciso encontrá-lo ainda distante do Sol. Além disso, seria impossível fazer uma sonda pousar em um cometa que estivesse em estado intenso de liberação de gases e poeira. “Nada disso poderia ser feito sem uma missão arriscada, cinematográfica, como esta”, afirma Jorge Horvath, especialista em astrofísica estelar e altas energias e Coordenador do Núcleo de Pesquisa em Astrobiologia da USP.

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Origem do Sistema Solar – Os cometas são um objeto de estudo importante por serem considerados “restos” da formação do Sistema Solar que continuam vagando pelo Universo. De acordo com algumas teorias, eles podem ter sido os responsáveis por trazer a água ou até mesmo vida à Terra. “Ao contrário do que ocorreu com os planetas, os cometas sofreram poucas transformações desde sua origem”, afirma Horvath.

Uma das principais investigações que o módulo Philae fará da superfície do cometa é da composição do gelo que o forma, pra ver se corresponde à composição de isótopos da água da Terra. “A sonda vai coletar um pedaço da crosta do cometa para analisar sua composição e compreender melhor sua história”, explica o pesquisador.

Desafios – A superfície irregular do cometa pode ser o principal perigo que o módulo Philae terá de enfrentar. “As imagens que a gente vê da superfície do cometa parecem muito detalhadas, mas não mostram irregularidades com menos de alguns metros, então não é possível identificar pequenas rochas com antecedência”, afirma Horvath.

Para piorar, a gravidade no cometa é muito baixa. Philae vai descer com pouca velocidade e fincar um arpão no solo para manter sua posição. Caso alguma perturbação o faça tombar de lado, por exemplo, não há meios de reerguê-lo. “Além de ser uma missão complexa e tecnologicamente incrível, vai ser preciso ter um pouco de sorte”, diz o cientista.

Um longo caminho – A missão foi aprovada em 1993 e Rosetta foi lançada em 2004, a bordo do foguete Ariane 5, do Centro Espacial Europeu de Kourou, na Guiana Francesa, com previsão de operar até 31 de dezembro de 2015. Após seu lançamento, a missão, que tem um custo estimado em 1 bilhão de euros (cerca de 3 bilhões de reais), realizou três voltas ao redor da Terra, para ganhar impulso, e uma ao redor de Marte. Rosetta foi o primeiro objeto a se aproximar de Júpiter, usando seus painéis solares como principal fonte de energia.

Em 20 de janeiro, a sonda foi reativada, depois de 957 dias “hibernando” no espaço, e vem desde então sendo preparada para o pouso do módulo. Apesar dos riscos, Horvath é otimista: “Se você perguntasse uma geração atrás se era possível pousar uma sonda em cima de um cometa, todos diriam que não. Se por ventura as condições não colaborarem e essa fase da missão não for bem-sucedida, vai ser uma frustração, mas não vai invalidar o resto. A Rosetta vai continuar trabalhando e estudando o cometa independentemente do Philae.”

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