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Bombeiro de Mariana e Brumadinho: ‘Muitas mortes, arrisquei minha vida’

Leonard Farah trabalhou como capitão em ambas as tragédia: uma há quatro anos, outra no início de 2019. Ele relata a experiência no livro 'Além da Lama'

Leonard Farah, de 35 anos, capitão do Corpo de Bombeiros Militares de Minas Gerais, atuou nas duas maiores tragédias provocadas pelo rompimento de barragens no Brasil. Em Mariana, desastre que completou quatro anos nesta terça-feira 5, e que levou à morte de 19 pessoas e à contaminação de 700 quilômetros do Rio Doce por rejeitos de mineração. E em Brumadinho, em janeiro deste ano, tragédia que vitimou mais de 200 pessoas, e cujas operações para o resgate de corpos ainda são conduzidas no local. 

Hoje (5), em data que marca a tragédia em Mariana, Farah lançou o livro Além da Lama (Editora Vestígio), no qual relatou a experiência durante as primeiras horas do desastre. Com a publicação, tem-se, pela primeira vez, a narrativa pelo ponto de vista dos bombeiros que acudiram a situação. Em entrevista ao site de VEJA, Farah fala sobre os principais desafios em meio ao desastre, e da decisão de colocar a própria vida em risco para salvar a dos moradores que então não sabiam que a lama poderia atingi-los. 

Qual foi o momento mais marcante da operação em Mariana? O da decisão de pousar, com o helicóptero, em Paracatu de Baixo, um dos subdistritos atingidos. A lama estava muito próxima da região e a operação envolvia um risco gigantesco para as nossas vidas. Se errássemos, em qualquer detalhe, todos morreríamos. Quando repenso aquele momento, recordo que existia o medo de descer e também o em relação à cobrança pelo juramento que fizemos, que envolve sempre entregarmos todos os nossos esforços, mesmo diante da possibilidade de sacrificar a própria vida. 

Por que a decisão de pousar em Paracatu de Baixo foi tão importante? Não sabíamos se a lama chegaria até a vila. Normalmente, esse tipo de decisão cabe só ao piloto. Quando sobrevoamos a região, percebemos que as pessoas não tinham ciência do que ocorria. Avistavam o helicóptero e até sorriam. Tínhamos que avisá-las. Contudo, ao decidirmos descer, colocamos as nossas vidas em risco, também. Depois, a cidade ficou destruída. A lama subiu mais de 10 metros no local onde pousamos. Naquela momento, especificamente, a decisão não podia ser só do comandante da aeronave. Todos ali, as seis pessoas dentro do helicóptero, optaram por arriscar a vida para alertar os moradores. A gente não sabia quanto tempo tínhamos. Isso era o elemento principal. Se você sabe quanto tempo vai levar, há maior planejamento. Se não sabe, não tem como criar uma estratégia completa. Fomos para o tudo ou nada. O pouso, ou a morte.

Como foi receber a notícia sobre o rompimento da barragem em Brumadinho, no início deste ano? Estava de férias, barbudo, com o pé quebrado, e atendi a ligação do comandante. Quando ele me falou qual era a barragem e onde se situava, porque eu conhecia a situação, e vi a primeira foto, logo imaginei que seria muito pior do que em Mariana. Não pensei duas vezes. Peguei a máquina, raspei a barba, pedi apoio do helicóptero e sobrevoei a área. Passou um filme na minha cabeça. Muitas mortes, muita tristeza, mas as pessoas dependiam de nós. 

Outras barragens foram consideradas instáveis depois de Brumadinho. O que isso significa? A gente não pode achar que isso é normal. Não dá para esperar o próximo rompimento. Brumadinho foi o quarto caso do qual participei nas operações. Além de Mariana e Brumadinho, também tivemos o mesmo problema em Miraí e Herculano. Não são só as vidas em jogo, mas também são várias histórias que vão embora. As casas, os álbuns de fotografia, posses que as pessoas acumularam ao longo da vida, os animais de criação e de estimação. Não podemos aceitar isso. Principalmente diante das empresas, a chance de desastre tem que partir de uma meta zero. Não se tratou de um desastre natural. O próprio homem deu causa à tragédia.

A Samarco obteve a licença para retomar a operação. Qual é a sua opinião sobre essa notícia? A retomada tem a sua relevância para a região, principalmente no sentido de dar esperança para que os moradores comecem a reconstruir suas histórias e seus sonhos. O que não pode retornar é o medo de que aquele episódio do dia 5 de novembro de 2015 se repita, em Mariana ou em qualquer localidade onde se desenvolve a exploração de minérios. Para isso, cabe aos responsáveis assumirem o compromisso de respeitar a vida, além de se dedicarem ao máximo para aprimorar técnicas e procedimentos de segurança, cercarem-se de maiores cuidados preventivos, elaborarem planos de contingências e, sim, preparar a população para aquilo que ela não quer que aconteça.