“A ciência não pode parar”
Luciano Moreira, 59, fala do caminho que trilhou para ser eleito um dos dez maiores cientistas do mundo em 2025
Era o tipo de criança que misturava produtos de limpeza e aplicava em insetos, só para ver o que acontecia. Tudo era motivo para um experimento novo. Estudava em uma boa escola pública de São Paulo e ali comecei a evoluir. Cursei engenharia agrônoma na Universidade Federal de Viçosa, em Minas Gerais, e logo me lancei à iniciação científica. Minha motivação sempre foi encontrar soluções para problemas que atingem a população. Em meus primeiros passos na pesquisa, encarei predadores de pragas que destroem tomateiros e florestas. Me apaixonei por esse universo, e acabei passando uma década na universidade. Houve muita luta aí, uma caminhada longa, às vezes exaustiva, até alcançar o lugar de destaque que hoje ocupo, com orgulho. Meu trabalho na criação de bilhões de mosquitos da dengue, que infectei com uma bactéria que impede a proliferação da doença, foi reconhecido pela prestigiada revista Nature, que me alçou à lista dos dez cientistas que moldaram a ciência em 2025.
Sempre quis desenvolver meus estudos no Brasil e trazer inovações ao país, mas entendi que, para isso, precisava ter experiências no exterior. Na Holanda, fiz doutorado em um centro de excelência no melhoramento de plantas. Voltei a Minas nos anos 1990, só que a situação era de escassez: não havia bolsas de pesquisa, os profissionais estavam desvalorizados. Já casado e com uma filha, resolvi então aceitar o convite para um pós-doutorado nos Estados Unidos. Foi lá que entrei no mundo das doenças infecciosas, primeiro com a malária. Criei junto a outro brasileiro, Marcelo Jacobs-Lorena, mosquitos transgênicos que bloqueavam o plasmódio, o parasita transmissor. Após quatro anos, retornei ao Brasil com a cabeça a mil. Passei no concurso da Fiocruz, mas logo estava mais uma vez dentro do avião, rumo a Queensland, na Austrália. A maior descoberta da minha carreira, o projeto que mudou minha trajetória e pode salvar vidas, aconteceu ali: depois de muito tentar, constatamos, enfim, que a bactéria conhecida como wolbachia impedia a multiplicação do vírus, freando a transmissão da doença.
Passado todo esse tempo, ficou claro para mim que era hora de estar entre cientistas brasileiros, impulsionando a pesquisa aqui — o foco, afinal, da doença à qual venho me dedicando. A partir de uma parceria entre a Fiocruz e o World Mosquito Program, um programa internacional sem fins lucrativos, demos a partida ao trâmite para importar os ovos do inseto e receber o sinal verde do comitê de ética da Anvisa e do Ibama — uma epopeia que se estendeu por anos. Fomos a campo no Rio de Janeiro e em Niterói em 2014, ainda em pequena escala. Com apoio do Ministério da Saúde, ampliamos os municípios atendidos. Hoje, virou política pública, integrada à campanha nacional de combate à dengue. Nas cidades em que a técnica foi implementada (ela consiste em neutralizar os ovos dos insetos com a bactéria), os casos caíram até 60%. Em 2024, inauguramos a maior biofábrica de mosquitos do mundo, a Wolbito, em Curitiba.
Como uma coisa leva à outra, foi na inauguração da fábrica que conheci enviados de instituições importantes, incluindo a Nature. Estar na lista deles não é um prêmio apenas para mim — é um empurrão para toda a ciência brasileira. Inúmeros alunos meus fizeram mestrado e doutorado no Brasil e foram embora porque não viam chance de construir uma carreira. Os que insistem em ficar precisam usar a inventividade para driblar a falta de dinheiro e insumos. A favor do brasileiro, sobra criatividade. Atingimos resultados extraordinários com pouca verba. Acho que muito nos ajudaria olhar para o modelo de outros países, onde o retorno da pesquisa é gigantesco. Não há prosperidade sem ela. Do meu lado, continuo a toda. Quero agora aplicar a mesma tecnologia para zika e chikungunya, doenças que vitimam milhares de pessoas no país. A ciência não pode parar.
Luciano Moreira em depoimento a Paula Freitas
Publicado em VEJA de 19 de dezembro de 2025, edição nº 2975
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