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Tragédia de Mariana: lama que arrasou rios ameaça o ecossistema marinho

Catástrofe provocada pelo rompimento de barragem em Minas é considerada o maior desastre ambiental do país. Rejeitos devem desaguar no mar do ES até domingo

Por Nicole Fusco - 20 nov 2015, 07h12

Pelos cálculos do Ibama, a avalanche de lama que riscou do mapa o distrito de Bento Rodrigues depois do rompimento da barragem da Samarco na cidade mineira de Mariana terminará seu percurso nesta sexta-feira, no mar do Espírito Santo. Como a chegada dos rejeitos de mineração ao Oceano Atlântico depende do traçado do leito do rio, a velocidade pode variar – e adiar o fim do trajeto para domingo. É apenas uma questão de tempo, contudo, para que os incalculáveis prejuízos ambientais já provocados pela tragédia de Mariana atinjam também a vida marítima. E transformem praias capixabas em um mar de lama.

Especialistas ouvidos pelo site de VEJA afirmam que os prejuízos ambientais da tragédia são ‘irreparáveis’ – o impacto do desastre sequer pôde ser medido em sua totalidade quase quinze dias depois do rompimento das barragens. Como o Rio Doce deságua no Atlântico, a expectativa é que a lama se espalhe por seis quilômetros no mar, o que vai afetar os manguezais e as terras que cercam a desembocadura do rio, usadas para desova e reprodução das espécies. Além disso, os segmentos de lama vão afetar de duas formas o ecossistema marinho: sufocando os organismos que formam a base da cadeia alimentar, como os mexilhões, ou impedindo a penetração da luz solar, essencial para a fotossíntese de organismos como os fitoplânctons, que servem de alimento para os animais.

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O mesmo aconteceu ao longo do leito do Rio Doce – dezenas de espécies morreram asfixiadas pela lama. Mais grave: como a tragédia de seu justamente na época de reprodução dos peixes, as espécies mortas estavam lotadas de ovos. Isso pode provocar desequilíbrio na natureza em longo prazo, já que algumas espécies podem ser extintas.

Apesar da importância desses rios – o Doce é a quinta maior bacia hidrográfica brasileira – não havia, antes da tragédia, uma relação das espécies que habitavam o rio. Por isso, não será possível saber quais delas deixaram de existir por causa do desastre. “Sem peixes, sem invertebrados, sem sapos, rãs, pererecas, cobras ou pássaros, os insetos da região não terão predadores, o que vai gerar pragas”, prevê o biólogo e pesquisador André Ruschi, diretor da Estação de Biologia Marinha Augusto Ruschi, de Aracruz (ES).

Outro temor dos ambientalistas é o que essa lama chegue ao recife de corais de Abrolhos, a 250 quilômetros da costa do Espírito Santo. Se isso ocorrer, os rejeitos vão arrasar a fauna e a flora da região, que possui a maior biodiversidade do Brasil. Contudo, estudos do Ibama descartam esse risco até o momento. Para conter os danos e evitar que uma grande quantidade de rejeitos contamine o Atlântico, o Ibama informou que adotou três medidas: utilização de floculantes, para fazer com que os sedimentos que estão na superfície afundem, de forma a permitir a passagem de água limpa; a instalação de diques na barragem de Santarém, para evitar que as águas das nascentes fiquem sujas, e o uso de barreiras de contenção das áreas de estuário, ambiente de transição entre mar e rio, para fazer com que o material que fica na superfície não atinja os manguezais.

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Se a correnteza do mar estiver mais forte do que a onda do Rio Doce, ele mesmo pode se limpar dos rejeitos de minério. Caso contrário,eles ficarão concentrados próximos à costa. No verão, a tendência é o mar jogar os rejeitos para a praia. “Aí vai se tornar um mar de lama”, alerta David Zee, professor de Oceanografia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj).

Ambientalistas montaram ainda uma força-tarefa para retirar os ovos de tartaruga que estão próximos à foz do Rio Doce, e, assim, reduzir os possíveis impactos dos rejeitos para as espécies que vivem no local. No Espírito Santo, onde a lama chegou no início desta semana, os Ministérios Públicos Federal e Estadual criaram a operação Arca de Noé, para evitar a extinção das espécies que vivem no leito do rio. Com apoio de pescadores da região, todos os peixes encontrados foram retirados e levados para locais previamente definidos.

Os prejuízos ambientais também se estendem para o solo dos distritos pelos quais os rejeitos de minério passaram. Segundo Marcus Vinicius Poliganano, coordenador do Projeto Manuelzão, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a terra ficou “totalmente infértil”. Ele explica que a lama não tem matéria orgânica que possibilite vida – e que não há meio de remover a quantidade de rejeitos no solo. “Acho que Mariana vai ficar sempre na historia do Brasil e do mundo como uma cicatriz. Será sempre um alerta de que a gestão ambiental não pode ser uma agenda secundária”, criticou.

Até agora, a Samarco firmou um acordo com o Ministério Público Federal e o Ministério Público de Minas Gerais que estabelece o pagamento de 1 bilhão de reais para o custeio de medidas preventivas emergenciais, de contenção de danos e também para o pagamento de indenizações. A empresa também foi multada em 112 milhões de reais pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) de Mariana e em 250 milhões de reais pelo Ibama. O retrospecto, contudo, é desanimador: de acordo com o Tribunal de Contas da União (TCU), das multas aplicadas pelo Ibama entre 2009 e 2013, apenas 1,76% foi pago.

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