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“Tivemos problemas em todas as áreas onde entramos”, admite Beltrame

Em entrevista coletiva, o secretário de Segurança Pública do estado do Rio diz que o número de policiais na Rocinha passará de 350 para 643. Denúncias de corrupção na favela estão sendo investigadas

“Não vamos fazer em quatro meses o que a ditadura do tráfico fez na Rocinha e em outros locais durante 40 anos. Tudo o que o inimigo da paz quer é que mudemos de estratégia. Isso não irá acontecer em hipótese alguma”, afirmou Beltrame

O secretário de Segurança Pública do Rio, José Mariano Beltrame, admitiu a existência de problemas na ocupação da Rocinha. Na madrugada desta quarta-feira, o cabo Rodrigo Alves Cavalcante, de 33 anos, lotado no Batalhão de Choque (BPChoque) foi baleado e morreu enquanto patrulhava a favela. Com essa morte, o morro passou a registrar nove assassinatos em dois meses. “Em todas as áreas que entramos tivemos problemas. Nenhuma foi fácil”, afirmou o secretário em coletiva de imprensa para esclarecer os casos de violência na Rocinha. O secretário acentuou que a política de pacificação de favelas não sofrerá alterações, e disse que o policiamento da Rocinha será reforçado. A partir de sexta-feira, 643 policiais patrulharão a favela, em turnos de 150 homens. O contingente atual é de 350 policiais.

Em um discurso de praxe, feito sempre que vêm à tona problemas ligados à ocupação policial nos morros, Beltrame voltou a dizer que não haverá recuo. “Não vamos fazer em quatro meses o que a ditadura do tráfico fez na Rocinha e em outros locais durante 40 anos. Tudo o que o inimigo da paz quer é que mudemos de estratégia. Isso não vai acontecer em hipótese alguma”, afirmou o secretário. Para a sociedade, ele mandou um recado: “A satisfação que dou à sociedade é que isso não nos fará recuramos um milímetro da nossa proposta”.

Para o secretário, a série de mortes na Rocinha e os outros problemas relacionados às Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) são consequências de um embate com a criminalidade. “Estamos contrariando interesses, contrariando pessoas que não estão acostumadas a serem contrariadas, pessoas que tinham o seu próprio tribunal”, disse. Ao lado do comandante-geral da Polícia Militar, coronel Erir Ribeiro Costa Filho; do chefe do Estado Maior Operacional, Pinheiro Neto, e da chefe da Polícia Civil, Martha Rocha, Beltrame afirmou: “Nosso compromisso é de apresentar as pessoas presas”.

Durante os 40 minutos de explicações, o secretário tentou argumentar que a mudança faz parte de um processo. E, nesse processo, é possível que aconteça problemas no caminho- como tem havido. Sem querer fazer promessas imediatas, Beltrame, como de costume, preferiu não especular sobre possíveis reduções dos crimes na Rocinha. “Dizer que vamos arrumar a Rocinha na Páscoa é mentira. É ser mercenário de ilusões”, afirmou. “Ninguém aqui vai trabalhar com gosto de sangue na boca”, argumentou.

Segundo o secretário, a política estadual de segurança evitou duas mil mortes nos últimos cinco anos. “Não temos a vitória absoluta. A vitória está sendo construída”, declarou. Mesmo com as dificuldades pelas quais a implantação das UPPs vem enfrentando, a secretaria acredita que os problemas eram maiores dos que existem atualmente.

Denúncias de suborno de policiais são obstáculos no caminho de Beltrame e das UPPs. A edição de VEJA desta semana revelou a existência de um documento elaborado pela coordenadoria de inteligência da Polícia Civil que investiga o pagamento de subornos da ordem de 80 mil reais a policiais que patrulham a Rocinha. O objetivo seria a garantia de que os PMs não fiscalizariam as ruelas onde o tráfico atua na favela. “Seria muito fácil dizer que não posso fazer porque haverá corrupção”, afirmou Beltrame. Segundo Costa filho, se comprovado, os policiais sofrerão punições. “Se qualquer policial for pego cometendo desvios, responderá e será excluído da corporação”, disse.

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