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Policiais que receberam propina eram próximos do comando do batalhão

Um dia depois de ser libertado, coronel Djalma Beltrami é afastado do comando do 7º BPM. GPS das viaturas confirma presença do grupo no local da negociação para pagamento de propina para não incomodar o tráfico e liberar baile funk

Por Leslie Leitão e Rafael Lemos 22 dez 2011, 12h51

Moradores denunciaram presença de menores consumindo drogas nos bailes funk do Morro da Coruja

Um dia depois de ser libertado por um habeas corpus, o coronal Djalma Beltrami, acusado pela Polícia Civil de receber propina de traficantes da cidade de São Gonçalo, na região metropolitana do Rio, foi afastado do cargo que ocupava. Beltrami era, desde setembro, o comandante do batalhão da PM daquela cidade – ele substituiu o tenente-coronel Cláudio Luiz de Oliveira, acusado de ser mandante do assassinato da juíza Patrícia Acioli. A alegação da Polícia Militar é de que, com a decisão, a imagem de Beltrami será preservada, enquanto prosseguem as investigações.

O site de VEJA teve acesso ao inquérito da Delegacia de Homicídios de Niterói e São Gonçalo que serviu para embasar o pedido de prisão contra Beltrami. Para os policiais e os promotores do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público do Estado do Rio, há “fortes indícios” da ligação de Beltrami com o recebimento de propina.

O inquérito enumera elementos para relacionar o comandante com o recebimento de propina. Entre eles, 20 telefonemas entre PMS e traficantes, negociando o pagamento ao “chefe maior”, “01” ou “comandante”. As negociações começaram no dia 10 de setembro, com pedido de 10 mil reais que seriam para o comandante. Obviamente, um PM corrupto poderia usar o nome de seu superior sem autorização. Mas, nesse caso, há uma evidência de que os emissários tinham cobertura.

A partir do pedido de 10.000 reais por semana, foi marcado um encontro em um posto de gasolina próximo ao Morro da Coruja. As viaturas da PM que levaram os policiais ao encontro foi fotografada pelos investigadores. O interlocutor dos traficantes era um advogado. E os PMS que foram ao posto são, segundo a Polícia Civil, “homens de confiança” do comandante. Todos tiveram prisão decretada. O GPS das duas viaturas, obtido pela Delegacia de Homicídios, confirma a presença dos veículos no local apontado pela investigação.

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Outro elemento que leva a Polícia Civil e o MP a acreditar no envolvimento de Beltrami é o “cumprimento do trato”. No período em que o pagamento de propina é feito, a favela fica livre da polícia. Denúncias feitas por moradores, por telefone, apontam para um grande esquema de propina que deixara o tráfico atuar livremente no Morro da Coruja.

Funk – Nas favelas cariocas, os dias de o tráfico faturar alto com a venda de drogas são conhecidos. Os bailes funk organizados pelas quadrilhas atraem usuários, que reforçam o caixa dos traficantes. Nos últimos anos, bailes começaram a ser controlados, e alguns, como no Morro da Coruja, até proibidos. São necessárias autorizações da Polícia Civil, do Corpo de Bombeiros e, principalmente, da Polícia Militar para realização de um baile. Afinal, é a PM quem vai ter que providenciar o policiamento ostensivo na região que vai receber a festa.

O inquérito aponta que uma semana após a posse de Beltrame foram liberados os bailes. A negociação para a liberação foi flagrada em uma interceptação telefônica com autorização da Justiça, como mostrou o site de VEJA. O documento da Polícia Civil informa que moradores fizeram denúncias de um cenário de pavor, com crianças consumindo drogas livremente nas dependências dos bailes.

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Gaguinho – A presença do traficante Gaguinho, que aparece nos grampos conversando com os policiais do batalhão de São Gonçalo, também é, para a polícia, um indício de que o tratamento dado pelo 7º BPM aos traficantes do Morro da Cojura mudou a partir da troca de comando. Gaguinho, há mais de um ano, estava escondido em outras favelas – inicialmente no Complexo do Alemão e, depois, na Favela do Mandela, em Manguinhos, na zona norte do Rio. O inquérito afirma que Gaguinho só voltou para São Gonçalo porque sabia que não haveria repressão ao tráfico, graças ao trato feito com policiais militares.

Desde que a operação Dezembro Negro começou a fazer prisões, surgiram novas frentes para a investigação. Uma delas é a morte do traficante que, como indicam as investigações, fazia o pagamento de propina aos policiais militares do 7º BPM (São Gonçalo). Raphael Rosa Guimarães, 21 anos, o Chacal, morreu baleado na tarde de sexta-feira, quando as informações sobre a Operação Dezembro Negro, contra PMs corruptos, começou a circular entre policiais militares. A suspeita é de que ele tenha sido executado para não ser usado como testemunha contra os policiais corruptos.

Beltrami negou, em entrevista à TV Globo, que tenha recebido ou enviado emissários para negociar com traficantes. O oficial afirmou que mora de aluguel, na Baixada Fluminense, e que sempre viveu dentro de suas posses, com o que ganhou do trabalho. A prisão foi considerada abusiva pelo desembargador Paulo Rangel, que concedeu o habeas corpus.

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