O conflito aberto com Tarcísio que ameaça a influência de Kassab
De cabeça na disputa à reeleição, governador de São Paulo tem fortalecido ainda mais a união com PL de Valdemar e Bolsonaro
A edição de VEJA desta semana mostra como o articulador Gilberto Kassab acumula dificuldades que colocarão à prova sua habilidade política em meio a uma eleição que se mostra, no mínimo, disputada.
O calcanhar de Aquiles do presidente nacional do PSD é justamente aquela que pensava-se ser a sua fortaleza eleitoral: São Paulo. Nas últimas semanas, a relação estreita com o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) começou a revelar sinais de estremecimento. Contrariado pela decisão de Tarcísio de não seguir o plano de disputar a Presidência da República, embarcando de vez na reeleição no estado Kassab passou a deixar público o descontentamento que já se desenrolava nos bastidores.
No final de janeiro, o cacique afirmou que o governador precisava ter “identidade” em relação ao ex-presidente Jair Bolsonaro. “Uma coisa é gratidão, reconhecimento, lealdade. Outra coisa é submissão”. A declaração se deu após a visita de Tarcísio ao ex-presidente na Papudinha, encontro que praticamente sepultou a possibilidade do ex-ministro da Infraestrutura seguir o sonho dourado de Kassab de ocupar a vice na chapa do aliado ao maior cargo da República.
Sem Tarcísio, os olhares voltaram-se para a consolidação da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao Planalto pela direita. Quem não gostou nada da provocação foi o próprio governador de São Paulo, que no dia seguinte rebateu as críticas de Kassab. “Não tem absolutamente nada a ver com submissão. É fácil estar ao lado quando a pessoa está bem. Não se vê muito isso na política: estender a mão quando a pessoa está na pior, quando precisa da sua ajuda, perdeu o poder, quando está privada da sua liberdade”, disse.
As rusgas não acabaram por aí. Em evento no final de fevereiro, sem rodeios, Tarcísio voltou a dizer que “quem fala em submissão não entende nada sobre lealdade nem sobre amizade”. Kassab, no dia seguinte, publicou nas redes uma lista com “bons amigos e conselheiros” em sua trajetória política, citando apoios como o que foi dado à candidatura de Tarcísio em 2022.
Poucos dias depois, veio a tentativa de colocar-se panos quentes. Kassab compartilhou em suas redes uma entrevista na qual Tarcísio elogiou a parceria com o cacique do PSD, ao qual chamou-o de “importante aliado”, e assegurou que nunca houvera nenhuma espécie de pressão por parte do secretário de Governo para que houvesse a escolha pelo seu nome para ocupar a vice. “Vão se desiludir os que apostam num afastamento entre mim, o PSD e Tarcísio de Freitas. Vamos continuar juntos num projeto de São Paulo e Brasil”, escreveu Kassab.
O estrago, no entanto, já estava feito. Nos corredores do Palácio dos Bandeirantes, o rompimento já é dado como certo e atinge até a composição de Tarcísio na chapa à reeleição. “Cada vez mais o Kassab dá sinais que não quer um vice do PSD, e sim um projeto pessoal de ser o vice, o que, aliás, tem todo o direito, pela história e trabalho dele. Do outro lado, vejo que o governador avalia que o trabalho partidário dele [Kassab] foi maior do que o trabalho pelo governo”, diz um importante aliado de ambas as figuras.
Kassab ocupa, até o próximo mês, o posto de secretário de Governo de Tarcísio, responsável pela articulação política da gestão. Ao que tem indicado, o cacique não jogará a toalha tão fácil, pelo contrário. Próximo a prefeitos de todo o estado — figuras cruciais para a vitória de um governador –, Kassab tem lançado mão de sua influência para filiações em massa, sobretudo de dissidentes do PSDB e, na última semana, deu mais uma carta como movimento de poder: anunciou um encontro, em São Paulo, com os três presidenciáveis da sigla. A trinca é formada por nada menos do que três governadores de estados relevantes: Ratinho Jr., do Paraná, Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul, e Ronaldo Caiado, de Goiás.
O “revide” tem provocado a movimentação do outro lado do tabuleiro. Com a rusga entre Kassab e Tarcísio, o PL de Valdemar Costa Neto é quem tem pressionado para ocupar a vice do governador. Em evento com empresários na última segunda, 23, em São Paulo, Valdemar defendeu que a legenda ocupe a vaga de vice na chapa de Tarcísio e fez questão de lembrar que, em 2022, Kassab errou ao não ser vice. Já durante homenagem ao cacique do PL na sexta, 27, o governador fez elogios contundentes ao presidente da Assembleia Legislativa (Alesp), André do Prado, o qual disse ser um político que “tem feito a diferença em São Paulo”. Do Prado é a aposta de Valdemar para compor com Tarcísio.
Mesmo se não houvesse a rusga entre Kassab e Tarcísio, afirma o interlocutor de ambos, o cacique do PSD ocupar a vaga já era remota. “O governador não colocaria alguém que, além de ter uma liderança política muito forte, trabalharia desde o primeiro dia para se eleger governador em 2030, o que complicaria muito a segunda gestão. Além disso, nenhum partido apoiaria o nome de Kassab. A debandada de partidos seria muito maior. Os presidentes estão muito descontentes com a agressividade que ele vem filiando novos quadros”, pondera.
O aliado também relembra que, em 2022, a candidatura de Tarcísio teve o apoio de apenas nove prefeitos de um total de 645 cidades, não teve o apoio do PL — que estava com Rodrigo Garcia –, do MDB, do PP e nem do União. “E mesmo assim, o resultado foi positivo. Tenho certeza que o Tarcísio formará o maior arco de alianças possível, mas sem abrir mão de seus valores. Ele não é um político tradicional. Tem linhas que ele não ultrapassa de jeito nenhum, mesmo isso sendo corriqueiro para o ‘mundo político’. Ele fará todo o esforço para manter o PSD junto nessa jornada, mas sem imposições”, avalia.





