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‘Não sei quem é a terceira via’, diz Skaf sobre Padilha

Filiado ao PMDB, presidente licenciado da Fiesp tenta acabar com a disputa polarizada entre tucanos e petistas no Estado de São Paulo

Por Felipe Frazão - 14 jun 2014, 08h15

Nas últimas três eleições para o governo de São Paulo, o eleitor paulista se deparou com uma disputa polarizada entre políticos do PSDB e do PT, repetindo o cenário da corrida presidencial. Nas três vezes, os tucanos venceram e ampliaram a hegemonia do partido, alojado no Palácio dos Bandeirantes há duas décadas. Há vinte dias do início da campanha eleitoral, a última pesquisa feita pelo instituto Datafolha aponta o nome do presidente licenciado da Federação de Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, na segunda posição, com 21% das intenções de voto. O desempenho faz Skaf rejeitar o rótulo de “terceira via”: “Quando você tem 21% e o terceiro colocado, Alexandre Padilha, do PT, tem 3%, eu não sei quem é a terceira via”, diz. Filiado ao PMDB, sigla que ele terá de ressuscitar no Estado depois do fim do “quercismo”, Skaf será oficializado neste sábado como candidato ao governo. Leia a entrevista ao site de VEJA.

O seu índice de intenção de voto é maior entre o eleitorado masculino e mais escolarizado, semelhante ao do empresariado. Como o senhor pretende convencer o operário a votar no patrão? Eu presidi durante dez anos o Sesi (Serviço Social da Indústria) e o Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) de São Paulo. O trabalho, como presidente, é um trabalho para a classe trabalhadora. O Senai é formação profissional, e o Sesi é para a família do trabalhador. Nossa meta era implantar o ensino fundamental em tempo integral para todos os alunos e o ensino médio. Esse trabalho atingiu milhares de pessoas que não ouviram promessas nem propaganda. O Paulo Skaf presidente da Fiesp, que defendeu a competitividade, o emprego, a redução da conta de luz e que tomou medidas para que não houvesse aumento do IPTU (imposto predial territorial urbano) na cidade de São Paulo também teve um lado social muito forte.

A candidatura do senhor é uma terceira via? No que diz respeito a uma novidade, as pessoas me veem sim como uma opção nova. Agora, no que diz respeito a uma terceira via, isso hoje é discutível. Quando você tem 21% no Datafolha e o terceiro colocado [Alexandre Padilha, do PT] tem 3%, não sei quem é a terceira via. Tenho impressão que essa pesquisa mostrou algo importante, depois de vinte anos a eleição está polarizada entre PSDB e PMDB. Nesse momento, essa é a fotografia, é inegável.

A presidente Dilma diz ter dois candidatos em São Paulo. Sua candidatura é auxiliar para o PT? Nenhuma candidatura é auxiliar da outra. O PT, assim como o PSDB, é adversário do PMDB em São Paulo. A minha candidatura é estadualizada. Precisamos separar bem as coisas: uma coisa é uma coligação nacional, outra coisa é aqui em São Paulo.

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O nome da presidente aparecerá na sua campanha? A presidente Dilma, com muito respeito, a presidente da República é uma instituição. Ela tem feito referências a mim e eu só tenho a agradecer. Nós temos o Michel Temer que é a nossa liderança no PMDB e ele é o vice-presidente da República. Agora, existe uma candidatura do PT em São Paulo e a presidente é do PT. Eu creio que fica muito difícil para ela, se o partido dela tem um candidato que é nosso adversário. Não consigo enxergar esse negócio de dois palanques. Não pretendo apresentar questões políticas, mas um projeto revolucionário no sentido de termos educação de qualidade, transporte e saúde. Uma campanha programática e com visão de futuro. O PMDB tem uma candidatura própria e independente.

Há chance de celebrar um pacto de não agressão com Padilha? Pacto não há chance. Não espero nessa altura da minha vida receber agressões. Pretendo respeitar ao máximo o atual governador, o ex-ministro Padilha e qualquer candidato.

O PMDB paulista governa um eleitorado pequeno comparado ao do PSDB e ao do PT. Os parlamentares do PMDB na capital paulista fazem parte da base do prefeito petista Fernando Haddad, e os estaduais, do governador tucano Geraldo Alckmin. Como o senhor terá apoio deles, se estão amarrados com outras forças políticas? O PMDB tomou uma decisão e seu projeto maior é o projeto majoritário ao governo de São Paulo. Antes desse momento, o PMDB era um partido que acabava se coligando e não estava na linha de frente. Mas mudou. Tudo deve começar nas coligações. Hoje estamos coligados com o PDT e o Pros e nenhum compromisso de cargo foi assumido. Nosso projeto é ter um governo com pessoas preparadas e honestas. Não precisei combinar nada com ninguém para chegar até aqui. Nem com as bancadas estadual, municipal e federal. O modelo se esgotou.

Tucanos e petistas acusam o senhor de fazer um uso eleitoral de propagandas da Fiesp. A resposta a eles foi dada pelo Tribunal Regional Eleitoral que não recebeu as representações, por 5 votos a 1. Todos têm direito de acusar, mas a Justiça é quem julga. Podem recorrer, mas a resposta já foi dada. Todas as campanhas foram feitas com total legalidade e aprovadas por unanimidade pela diretoria, no momento que não existia candidatura de ninguém. Não se pode prever o futuro. Eu estava na plenitude do cargo. O interlocutor dos setores produtivos é o presidente da Fiesp. Teve campanhas que a gente se comunicava e cobrava do governo. Isso não cabe a um ator. Para dar legitimidade e credibilidade, e isso se vê nas empresas há vinte anos, o próprio presidente da empresa tem o papel de comunicador, é normal. As pessoas pensavam que o Sesi e o Senai eram serviços do governo, agora sabem que é da indústria. Por que razão o presidente dessa entidade não teria o direito de ser um interlocutor autorizado pela sua diretoria? Por que vai desagradar a alguns, que vão se achar incomodados? Problema deles, não da Fiesp.

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Como conter a pulverização do crack no interior de São Paulo e que modelo deve ser adotado no tratamento? A minha visão é clara: precisa ter clínicas preparadas para receber usuário para tratamento, e o traficante deve ser preso. O governo do Estado fala de tratamento, mas não há vagas nas clínicas. A linha correta é ter vagas em clínicas e pegar essas pessoas dependentes para dar tratamento. Não se pode permitir que pessoas fumem crack na rua, isso é ilegal. Essa tolerância à ilegalidade é errada. Existe a prática de uma ilegalidade e aí ficam os contornos, porque ninguém gosta de enfrentar.

A segurança pública será um dos temas mais debatidos na campanha, embora os números de homicídios tenham caído no Estado. A segurança pública lamentavelmente mostra a total incompetência de gestão. O problema começa na fronteira: eu ouço muito que a entrada de armas e drogas é problema da Polícia Federal, mas se São Paulo sabe que as fronteiras são vulneráveis, que controle as suas fronteiras. Existem equipamentos, scanners modernos que permitem controle nas fronteiras, há sistemas de câmeras que podem ser interligados num sistema de comando e controle. Hoje você sai daqui usando um aplicativo de celular como o Waze e sabe o caminho melhor para chegar ao destino e em quanto tempo. Essa é a era que estamos e o Estado está em 1980.

O Metrô e a CPTM estão com déficit de orçamento por causa da manutenção da tarifa em 3 reais. O senhor vai manter a tarifa? O resultado de um serviço como o metrô não é dar lucro, mas o bem estar, a segurança e a mobilidade urbana. O Metrô de São Paulo tem um ritmo de construção e investimento muito pequeno nos últimos anos. Não quero ainda falar em plano de governo, mas como cidadão paulista, entendo que um governo, durante um mandato, deveria fazer o que foi feito nesses quarenta anos de metrô. Deveríamos ter ritmo para construir setenta quilômetros de linhas em um mandato só. Valor de tarifa é gestão. Ao longo dos próximos meses vou estar mais familiarizado com as contas. O serviço público não pode ter desequilíbrio. Mas ainda está cedo para falar sobre isso.

As universidades estaduais vivem em greve, orçamento quase totalmente comprometido com pessoal. O senhor é a favor desse modelo? Essa é uma boa discussão e precisamos encontrar caminhos. No Orçamento desse ano, temos 27 bilhões de reais para o ensino básico, que atende 4,3 milhões de alunos. E mais ou menos 10 bilhões de reais para as universidades, que tem 170.000 alunos. Mesmo assim, tem problema nas universidades. É preciso tomar medidas para que a coisa funcione.

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A crise de abastecimento de água no Sistema Cantareira é um dos temas mais discutidos hoje. Qual a proposta do senhor para que não se corra risco de faltar água? O governo está errando em dois pontos: já reduziu o abastecimento de Campinas em 40%, e da Região Metropolitana de São Paulo em 30%. Mas não age com transparência e diz que não há racionamento. Isso é enganar as pessoas. Outra coisa: essa redução ainda é insuficiente, a previsão é que a água só dure até novembro. Em relação ao futuro, é preciso reduzir desperdícios e investir em novos reservatórios. A Sabesp capta 3 trilhões de metros cúbicos e desperdiça 1 trilhão de metros cúbicos no caminho. Precisa reduzir os vazamentos. Se tivesse havido investimento ao longo dos dez anos – desde a ultima vez que faltou água -, estaríamos com falta de chuvas, não de água. A obra do Sistema São Lourenço, no Vale do Ribeira, vai demorar quatro anos, mas já se fala dela há muito tempo.

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