Poucos atores têm a capacidade de mergulhar em personagens a ponto de parecer perder a própria identidade — ou, dito de outro modo, poucos conseguem variar com excelência de filme para filme. O americano Robert Duvall era assim. Ele foi um conselheiro fiel e contido de Don Corleone em O Poderoso Chefão, de 1972, dirigido por Francis Ford Coppola. Em Apocalypse Now, de 1979, também de Coppola, viveu o maníaco tenente-coronel americano durante a Guerra do Vietnã, responsável por uma frase emblemática da produção, em meio a um ataque do exército americano: “Adoro o cheiro de napalm pela manhã”. Em A Força do Carinho, conduzido pelo australiano Bruce Beresford, o papel do cantor de música country que se recupera do alcoolismo lhe rendeu o Oscar de melhor ator em 1984. De feições que jamais lhe dariam ar de galã, ele passeava pelas telas com desenvoltura quase inexplicável. “Era uma habilidade estranha, até mesmo assustadora, para quem a percebia da primeira vez”, disse Beresford.
Um dos mais respeitados críticos de cinema do The New York Times, Vincent Canby, comparou Duvall a Laurence Olivier, o maior dos atores da história da Inglaterra, de formação shakespeariana. Exceção em Hollywood do ponto de vista político, foi sempre um conservador de escol, apoiador de candidatos republicanos à Presidência desde sempre. Duvall morreu em 15 de fevereiro, aos 95 anos.
A força da liderança
Entre o assassinato de Martin Luther King, em 1968, de quem era um dos mais próximos companheiros, até a eleição de Barack Obama, em 2008, o reverendo Jesse Jackson foi o mais destacado líder a favor dos direitos civis e de igualdade de condições para os negros nos Estados Unidos. De retórica inigualável, orador capaz de atrair multidões e convencer autoridades geladas, Jackson tentou duas vezes ser candidato a presidente dos Estados Unidos pelo Partido Democrata, em 1984 e 1988, mas foi preterido. Em um aplaudidíssimo discurso nas primárias, ele resumiu sua missão de vida. “Meu eleitorado é formado pelos desesperados, pelos condenados, pelos deserdados, pelos desrespeitados e pelos desprezados”, disse. “Eles estão inquietos e buscam alívio.” Jackson morreu em 17 de fevereiro, aos 84 anos.
Apaixonado pela democracia
Permanentemente comprometido com a luta pelos direitos civis, o cientista social José Álvaro Moisés, professor titular de ciência política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores, o PT, no início dos anos 1980 — com o tempo, afastou-se da agremiação, a ponto depois de ser um de seus mais inteligentes opositores. Durante o primeiro governo de FHC, entre 1995 e 1998, Moisés foi secretário de Apoio à Cultura. De 1999 a 2002 foi secretário do Audiovisual. Morreu afogado na Praia de Itamambuca, em Ubatuba (SP), em 13 de fevereiro, aos 80 anos.
Publicado em VEJA de 20 de fevereiro de 2026, edição nº 2983





