CUT chega aos 40 com dificuldades de caixa e perda de representatividade
Qual seria a proposta da Central diante desta realidade dos tempos modernos? A batalha é para tentar dar marcha a ré
Cerca de 2 000 dirigentes e militantes debatiam em São Paulo, no último dia 19, o futuro da Central Única dos Trabalhadores (CUT), que completava quarenta anos, quando um motoboy subiu ao palco e disse que estava ali para deixar em mãos uma carta importante — de ninguém menos que Luiz Inácio Lula da Silva. “Não há democracia sem sindicato forte, e sindicato forte é produto da sintonia fina entre dirigentes e base”, escreveu o presidente. Dentro do roteiro do evento, a aparição do mensageiro motorizado era para lembrar a promessa do governo de regulamentar a categoria dos entregadores. Vista de fora, a aparição simboliza outra coisa: a tentativa de reerguer o sindicalismo com velhas bandeiras e gestos tão anacrônicos quanto o de enviar hoje uma missiva via portador.
A outrora poderosa CUT, por sinal, que nasceu na ditadura como um exemplo da vitalidade do mesmo sindicalismo que alçou Lula ao estrelato político, é um dos maiores símbolos da derrocada do movimento. Nunca tantos trabalhadores estiveram tão distantes das entidades que deveriam representá-los. “Mais da metade deles estão longe dos sindicatos pelas novas modalidades de trabalho”, reconheceu Sérgio Nobre, reeleito presidente da entidade por mais quatro anos. Ele se referia às novas categorias de trabalhadores, como motoristas de aplicativos, microempreendedores e quem atua como pessoa jurídica (PJ).
E qual seria a proposta da Central diante desta realidade dos tempos modernos? A batalha é para tentar dar marcha a ré, ressuscitando regras típicas de um cenário que deixou de existir. No caso da brigada de trabalhadores que atua a serviço de aplicativos como o Uber, entre as mudanças avaliadas estão a definição de jornada de trabalho e a obrigação de contribuição para a Previdência Social. Segundo o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, ex-presidente da CUT, que leu a carta no evento do último dia 19, a proposta sobre os aplicativos de transporte de pessoas já foi fechada, e o projeto de lei deve ser apresentado até novembro. No caso dos motoboys, ainda não houve acordo com as empresas de aplicativos. Segundo Paulo Renato Fernandes, professor da FGV-Rio, embora haja espaço para ajustes e melhorias nas relações, as mudanças vieram para ficar. “As novas tecnologias geraram novas formas de trabalhar no Brasil e no mundo, enquanto a CLT ficou defasada”, diz.
De forma complementar ao mesmo assunto, a nova-velha versão da CUT empunha outras bandeiras equivocadas, como a da revisão da reforma trabalhista e a da volta do imposto sindical, cuja extinção representou um dos maiores baques no caixa de entidades como a CUT. A taxa de sindicalização chegou a 9,2% em 2022, um recorde negativo histórico. Para virar o jogo adverso, a ideia é tentar voltar ao passado. O problema é que não existe ainda a máquina do tempo.
Publicado em VEJA de 27 de outubro de 2023, edição nº 2865