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Áudios em celular de mulher de Queiroz desmentem versão de Wassef

Troca de mensagens indica que advogado dos Bolsonaro mantinha contato frequente com o operador da rachadinha

Por Daniel Pereira, Thiago Bronzatto - Atualizado em 23 ago 2020, 17h40 - Publicado em 23 ago 2020, 09h00

Em entrevista a VEJA em junho, o advogado Frederick Wassef disse ter dado guarida, em seu imóvel em Atibaia, ao policial militar aposentado Fabrício Queiroz por duas razões. A primeira seria humanitária: garantir a Queiroz um lugar para ele se hospedar em São Paulo durante o seu tratamento contra o câncer. A segunda seria política. Afeito a teorias da conspiração, Wassef alegou que havia um plano para matar o operador da rachadinha e acusar Jair Bolsonaro de ser o mandante do crime. Sua iniciativa, portanto, tinha o objetivo de evitar um assassinato e, ao mesmo tempo, um senhor desgaste político para o presidente da República. Wassef afirmou que nunca contou aos Bolsonaro que escondia Queiroz. Também garantiu nunca ter mantido contato, nem por telefone, com o ex-PM, que era representado na Justiça por outro defensor. Esse distanciamento seria necessário porque se houvesse contato, e este fosse descoberto, poderia parecer tentativa de combinar versões e de obstrução de Justiça. Mensagens de áudio obtidas com exclusividade por VEJA desmontam essa versão do advogado.

Em uma das mensagens, a advogada Ana Flávia Rigamonti, contratada por Wassef e companhia habitual de Queiroz, relata um encontro entre o policial militar aposentado e uma pessoa apelidada de “Anjo”, que o Ministério Público do Rio desconfia ser Wassef. “Estava todo mundo dormindo. Você sabe que, com o Anjo aqui, acaba todo mundo indo dormir tarde. Agora, o nosso amigo está conversando com o Anjo. Mas está tudo bem, sim”, disse Ana Flávia para Márcia de Aguiar, mulher de Queiroz, no dia 1º de dezembro de 2019. Dois minutos depois, Márcia respondeu: “Blz. Fiquei sabendo agora que o processo voltou para o Rio. Não sei direito, me falaram (sic)”.


Dias antes, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que era permitido ao Coaf, o órgão oficial de combate à lavagem de dinheiro que detectou as transações financeiras suspeitas de Queiroz, compartilhar informações com o Ministério Público (MP). A decisão representou uma derrota de Wassef e de seu cliente Flávio Bolsonaro e retirou da gaveta a investigação do esquema da rachadinha. Foi por isso que Queiroz e “Anjo” se encontraram para conversar sobre uma nova estratégia. “Então, eles comentaram aqui que entrou uma petição no processo, que acham que é do Ministério Público”, confidenciou Ana Flávia para Márcia.


Em áudios revelados na última edição de VEJA, a mulher de Queiroz queria que o marido parasse de se esconder e voltasse para o Rio e para o convívio com a família. Márcia alegava que eles não eram foragidos e só viviam assim por pressão do “Anjo”. “A nossa vida está sendo regida por ele, pelo que ele quer”, diz ela numa mensagem.
Márcia também pedia a ajuda de Ana Flávia para convencer o “Anjo” de desistir da ideia de alugar uma casa em São Paulo para esconder toda a família de Queiroz. O plano do advogado era tirar todo mundo do mapa. Além da própria mulher, duas filhas de Queiroz trabalharam no gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio e repassaram parte dos salários recebidos ao pai. Num dos áudios, Ana Flávia diz a Márcia que não será fácil fazer o “Anjo” mudar de ideia. “Ele vai fazer terror, né. A gente já sabe”, respondeu a mulher de Queiroz. O terror, como indica a entrevista de Wassef a VEJA, seria a existência do tal plano para assassinar Queiroz. Wassef nega ser o “Anjo”.

Leia abaixo a íntegra da nota enviada por Frederick Wassef:

“Eu, Frederick Wassef, não mantinha contato frequente com Fabrício Queiroz, conforme publicado nesta matéria. O tal áudio da mulher de Queiroz não desmente nada do que eu disse. Basta ouvir. E o mesmo sobre outros áudios. Não se pode tirar mensagens de voz de fora do contexto e criar versões, ainda mais quando se refere ao “Anjo”. Não existe nenhum fato novo em nada até aqui e meu nome não é Anjo. Eu não contratei Ana Flávia Rigamonti para ser companhia de Queiroz e ninguém nunca foi pressionado a nada. Não disse que ter contato com Queiroz fosse representar obstrução de Justiça. Procurei manter distanciamento possível por outros motivos. Nunca escondi Queiroz e ele nunca esteve escondido, porque nunca foi procurado ou foragido. As autoridades públicas do Rio não estavam atrás de Queiroz. Se tivessem apenas intimado, ele se apresentaria no dia seguinte. Fabrício Queiroz é vítima de uma prisão ilegal e arbitrária, baseada em mentiras que não existem no processo. Basta ler os fundamentos da prisão. Este é um processo político e não jurídico.

Não sou afeito a teorias da conspiração. Tudo o que disse que iria acontecer neste caso aconteceu. Disse que iriam armar uma fraude para envolver o Presidente na morte de Marielle Franco e aconteceu. Disse que iriam assassinar o Adriano da Nóbrega e aconteceu. Disse que iriam tentar envolver o Presidente com temas de milícia e supostos grampos de milicianos e aconteceu. Tudo eu avisei antes de acontecer e, depois, aconteceu. Então, ter experiência profissional e informação não é o mesmo que ser afeito a teorias da conspiração.”

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