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A nova guerra da família Geyer

Herdeiros que brigam na Justiça pelo direito da maior coleção de obras de arte do Brasil agora se veem em outro fogo cruzado. Após a morte da matriarca, Maria Cecília, em junho passado, dois cofres cheios de joias apareceram arrombados e o caso agora é investigado pela polícia

Por Cecília Ritto, Leslie Leitão e Thiago Prado, do Rio de Janeiro
4 ago 2014, 11h02 •
  • Dono de uma fabulosa coleção de obras de arte, móveis e livros inestimáveis disposta pelos salões da mansão da família no bairro do Cosme Velho, no Rio de Janeiro, o industrial Paulo Geyer e sua mulher, Maria Cecília, doaram em 1999 o acervo e a própria casa ao Museu Imperial de Petrópolis, que deles tomaria posse após a morte dos dois. Geyer morreu em 2004; Maria Cecília, no dia 6 de junho passado. Nas semanas seguintes, o processo de transmissão da guarda do tesouro enredou-se em dois mistérios. Um deles já circulava como rumor há algum tempo: parte dos objetos doados sumiu – inclusive alguns dos quadros que forravam toda a extensão do teto da biblioteca, hoje com nítidos espaços vazios. O outro tem por objeto dois cofres arrombados encontrados vazios. Os suspeitos das duas ações têm, todos, o sobrenome Geyer e pertencem às duas facções em pé de guerra em que se dividem os cinco filhos do casal.

    Nos últimos cinco anos, praticamente a única filha que tinha acesso a Maria Cecília era a caçula, Maria, de 54 anos – aliada, na guerra dos Geyer (que vem de longe, de disputas pelo controle das empresas da família), às irmãs Vera, que mora nos Estados Unidos, e Cecília, que morreu em 2010. Do outro lado da trincheira, os irmãos Joanita e Alberto afirmam que eram impedidos pela segurança de entrar na mansão. Neste período de isolamento, a matriarca entrou com uma ação em que contestava a doação e pedia de volta 220 itens avaliados em 20 milhões de reais, entre eles o quadro Enseada de Botafogo, de Thomas Ender, que vale hoje mais de 1 milhão. Foi apoiada por Maria e por Frank Geyer, filho de Cecília. Este último, aliás, é acusado por parentes de usar o peso do sobrenome familiar e fazer um pedido especial à ministra da Cultura, Marta Suplicy, para que ela excluísse, com um ato administrativo, ‘alguns itens da Coleção Geyer’. Cinco dias após a morte da matriarca, a 7ª Turma do Tribunal Regional Federal (TRF2) acolheu recurso impetrado por ela e deu vitória parcial à retirada dessas obras da doação. Mas o imbróglio judicial continua, já que outros dois herdeiros, Joanita e Alberto, contestam e insistem que a doação feita pelos pais seja respeitada integralmente.

    A passagem do controle da mansão dos Gayer já vinha se arrastando havia mais de um mês. Na primeira visita dos representantes do Ibram, em 26 de junho (20 dias após a morte de Cecília), o diretor do Museu Imperial, Maurício Ferreira, a coordenadora de Patrimônio Museológico Vera Mangas, foram recebidos por Maria Geyer e vários advogados de ambas as partes. No encontro, a segurança do local foi um dos principais assuntos da pauta. Maria informou que uma empresa particular vigiava o casarão 24 horas por dia, mas ficou acertado que, somente a partir do dia 3 de julho, o Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) assumiria a responsabilidade pela segurança. As chaves do imóvel, entretanto, só foram entregues em 14 de julho, e sem qualquer menção ao arrombamento ou a um possível furto. “Esse arrombamento aconteceu muitos anos atrás. Não é coisa de agora”, diz um parente ligado à Maria. Neste mesmo dia 14, porém, o diretor do museu, numa inspeção pela casa, percebeu que o quarto principal da viúva estava completamente revirado. Dali, seguiu para fazer o registro de ocorrência na delegacia da área (9ª DP, no Catete). “Foi a primeira vez que tivemos acesso às partes íntimas da casa. Quando vimos os sinais de arrombamento nos cofres procuramos a polícia imediatamente”, diz Maurício Ferreira.

    No dia 25 de julho, em uma visita dos herdeiros à casa do Cosme Velho – a primeira aberta a não aliados da caçula -, com ata registrada em cartório à qual VEJA teve acesso, Joanita confirmou o sumiço de várias obras de arte. O Museu Imperial, que tem em seu poder uma relação de peças feita logo após a doação, despachou funcionários para comparar sua lista com o que ainda está na casa. Além da Civil, a Polícia Federal também foi notificada, já que a partir da data da morte de Cecília Geyer, o imóvel e suas obras de arte passavam a pertencer à União. Mas este desaparecimento de uma coleção de jóias, na verdade, não tem nenhuma relação com a doação ao Museu Imperial. Os Geyer ligados a Maria fazem pouco do arrombamento. “Foi uma divisão de joias entre as três irmãs. Cada uma pegou um pouco”, disse um deles. E por que arrombar? “Ninguém sabia onde estava a chave”. Joanita nega sua participação no arrombamento e destaca o altíssimo valor do lote – só um anel teria custado 1 milhão de dólares. Pelo sim, pelo não, seus advogados entraram com um pedido de arrecadação dos bens pessoais da matriarca e de busca e apreensão nas casas de Maria e de Frank. A guerra ainda vai longe.

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