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Walcyr Carrasco Por Walcyr Carrasco

Viciados em aplicativos

Ao deixar decisões com o mundo virtual, afeto minha criatividade

Por Walcyr Carrasco Atualizado em 23 ago 2021, 09h54 - Publicado em 21 ago 2021, 08h00

De uns tempos para cá, ninguém mais dirige sem Waze. Mesmo sabendo o caminho, as quebradas, os truques. Confesso: conheço bastante bem São Paulo e mal sei usar o aplicativo. Não que eu seja contra. Há muitos anos, no Japão, fiquei deslumbrado com a possibilidade de chegar aonde quisesse. O aplicativo também me salvou em uma viagem à Alemanha. Quando o Waze desembarcou aqui, achei ótimo. Mas aí estava com um amigo, indo para minha casa. Um caminho conhecidíssimo. Ele botou o Waze.

— Não precisa, o trajeto é aquele lá mesmo.

— É melhor — respondeu ele, com expressão de esfinge.

Fomos. O trajeto congestionado. Propus uma rota alternativa. O motorista não gostou. Deu uma súbita guinada à direita.

— Por que virou?

— O Waze mandou. Aqui está vazio.

“Se eu sigo o caminho do Waze, nunca entrarei por acaso numa ruazinha diferente e apaixonante”

Estava. Todos os veículos, todos, todos, todos, viraram imediatamente na mesma direção, congestionando toda a rua. Óbvio. O aplicativo dissera para fazerem o mesmo. E aí foi: uma sucessão de conversões, desvios, para chegar a novos congestionamentos. Quem vive há muito tempo em uma cidade tem seus truques. O Waze segue a lógica, inclusive de quilometragem. Mas não dá margem ao jeitinho pessoal, que é, frequentemente, a salvação. Por exemplo, se eu vou para o Rio de Janeiro, quero pegar a Ayrton Senna, que é uma rodovia mais tranquila em termos de caminhões. O Waze sempre indica a Dutra. Quando há outro no volante, começa a briga.

— Vai pela direita.

— O Waze está mandando à esquerda.

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— Mas eu prefiro…

— É melhor. Diz que está vazia.

— ENTRA À DIREITA DE UMA VEZ!

Mas a questão não é exatamente essa. Motoristas experientes abdicam de todo seu conhecimento. Anos de tráfego para não pensarem um segundo sequer no caminho.

Não sou maluco por aplicativos. Até hoje não incorporei a Siri à minha vida. Fico satisfeito em teclar. Sim, é uma facilidade. Temos de viver entre tantas.

Existe uma tal de Alexa, que torna a casa inteligente. Uma companheira. Lê as notícias, toca músicas, prevê o tempo. Controla a casa. Pede comida. Até conta piadas. Há também a Siri, já citada aqui, e o Google Home. Aplicativos que cuidam da sua, da minha, da nossa vida.

Fazem parte de uma mesma tendência. Deixar tarefas e decisões por conta do mundo virtual. Ninguém mais tem de escolher uma música. Basta abrir uma lista do Spotify, que nem precisa ser sua mesmo, mas de alguém que você admira. É fascinante. Mas sinto que cada vez mais me torno menos criativo. Se eu sigo o caminho do Waze, nunca entrarei por acaso numa ruazinha diferente e apaixonante. Se me entrego à Alexa, algo do meu estilo e modo de ser estará se transformando.

Não importa o que eu diga agora, sempre será incrivelmente careta. Os aplicativos estão aí, mais cedo ou mais tarde também me entregarei a eles, e assim o mundo vai. Só me pergunto: cada vez que eu abdicar de uma pequena capacidade de tomar decisões, não estarei abrindo mão de uma partezinha de minha humanidade?

Publicado em VEJA de 25 de agosto de 2021, edição nº 2752

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