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Walcyr Carrasco Por Walcyr Carrasco

Masculinidade tóxica

Basta de comportamentos que oprimem e matam

Por Walcyr Carrasco Atualizado em 18 dez 2020, 08h57 - Publicado em 18 dez 2020, 06h00

Quando eu me tornei adolescente, “mexer” com uma garota era rito de iniciação. As mulher passava e os homens gritavam “gostosa, gostosa”, enquanto ela caminhava sob uma saraivada de assobios. O rapaz que não gritasse sofria bullying. Não será “homem de verdade” (sei que esse modo de agir ainda acontece, mas pelo menos está sendo discutido). Mais adiante, aprendi: “Se a mulher diz não, é porque ela quer”. Qual a lógica dessa forma de pensar, eu não sei, porque “não” sempre foi diferente de “sim”. Mas o “não” era visto como um “sim” disfarçado, talvez tímido. “Frescura”, enfim. Justamente por isso, se num momento de maior intimidade ela dissesse para parar, o rapaz pressionava, forçava, muitas vezes partia para a violência. Muitos estupros foram cometidos assim. A mulher era sempre a culpada. Quando eu era bem criança, houve a morte de Aida Cury, atirada de um prédio. Um escândalo na imprensa e na sociedade. O agressor tentou forçar Aida e a tragédia aconteceu. Muitas vezes ouvi, inclusive de mulheres, a pergunta: “Mas, se ela não queria nada, por que subiu ao apartamento?”. Sendo que todas as versões concordam que era, também, extremamente ingênua. A mulher era a “culpada”. O namorado quis abusar? Era porque “ela deixou”. Ou pior, “pediu”, por usar roupas curtas etc., etc. Mais cruel ainda: frequentemente, a garota que cedia às investidas “não servia pra casar”.

Era válida a “brincadeirinha”: por exemplo, esgueirar-se num corredor ou numa porta, apertando o corpo contra o dela, e dizer “está estreito aqui”. Ou passar a mão na colega de escola. A mulher era agredida, abusada, humilhada em inúmeras situações, mas não tinha o direito de reclamar. Mesmo se falava com o pai, muitas vezes era acusada de ter provocado o rapaz, com roupas e modo de agir. Até mulheres assassinadas eram (e ainda são) transformadas em culpadas no banco dos réus. O marido, o amante que atirou, virava vítima. Nós todos, homens da minha geração e das seguintes, crescemos assim. E agora temos de aprender. Nossa masculinidade é tóxica é perigosa e cruel. Nossa masculinidade oprime, abusa e mata.

“Homem não é mais aquele que chama mulher de gostosa. Assédio é assédio, abuso é abuso”

Aquilo que era “cantada” é assédio. Se é uma funcionária, é pior, porque constrange profissionalmente. Ter de enfrentar o chefe não é fácil. Entre namorados, ficantes, também. Mesmo numa situação de intimidade, ela pode dizer não. Ou dentro de um casamento. E não é não. Também é preciso saber ouvir o não. Aproximar-se de alguém não pode ser na agressividade. O mundo mudou? Não ainda, mas a masculinidade está na berlinda. O homem tem de reaprender a ser homem. Não é fácil fazer isso, são tantos hábitos, tantos comportamentos em que estamos presos, é toda uma educação. Valores que estou aprendendo a mudar.

Mas homem não é mais aquele que chama mulher de gostosa. Homem agora sabe que não existe a tal “brincadeirinha”. Assédio é assédio, abuso é abuso. Aquilo que a gente achava normal tem de acabar. Masculinidade tóxica não dá mais.

Publicado em VEJA de 23 de dezembro de 2020, edição nº 2718

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