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Walcyr Carrasco

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A máscara vai ficar

Neste complexo “novo normal”, é melhor não abandonar a sua

Por Walcyr Carrasco Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 25 set 2020, 06h00 | Atualizado em 4 jun 2024, 15h15
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Fui ao Rio de Janeiro. Encontrei uma amiga. Chegou de máscara e tirou na porta (amigos tendem a achar que tirar a máscara é prova de confiança, como se a relação evitasse o contágio). Quando eu reclamei, assustado, ela garantiu que estava em pleno confinamento. No dia seguinte me liga de um restaurante. Queria que eu fosse para lá. Fugi. No outro, de uma festa. “Mas é com pouca gente”, observou. Voltei a São Paulo. Os amigos querem marcar encontros. A verdade é que o confinamento está acabando, em ritmo avançado, se é que já não acabou. Ouço falar de baladas, vejo fotos de praias lotadas… Nesta retomada, inclusive das relações sociais, como proceder?

Sempre fomos um povo expansivo, de abraços e beijos. Fui jantar no apartamento de um casal de amigos. Por viajar muito, ele fez teste de Covid uns dias antes. Hoje em dia não se dá mais aperto de mão. O correto entre homens é bater os antebraços e cotovelos. As mulheres estendem as unhas umas para as outras. Tipo um ritual primitivo. Mas minha amiga virou o rostinho. Um rostinho lindo, por sinal. Como não beijar? A técnica de estalar os lábios no ar é muito útil. Mas ainda não está inteiramente aceita. Dizem que o olhar é expressivo, mas fica tranquilo disfarçar. Use um olhar intenso e não pisque. No caso de a pessoa estar desabafando, parecerá de solidariedade. Se falar de finanças, de fascínio pela inteligência alheia. Conversar é um pouco mais difícil, já que a dicção fica comprometida e a voz abafada, horrenda. A máscara tem vantagens. Outro dia fui a uma endocrinologista que me recebeu usando uma florida. Só retiramos nossas respectivas no consultório, a 2 metros de distância. Quase coloquei a minha novamente para disfarçar a expressão de susto quando veio o preço da consulta. Máscara é útil. Conheço uma atriz que ficou com o nariz terrível após procedimentos. Hoje, de máscara, está bela como antes.

“O confinamento está se tornando lenda. Ninguém mais entende que você queira ficar isolado”

Se a pessoa fez Botox e está de máscara, torna-se mais indecifrável que uma esfinge. Não mexe nem a sobrancelha. Tendo a acreditar que quando a pupila vai para a direita é alegria, à esquerda, mistério e preocupação. Os fetichistas também já estão incorporando a máscara. Elimina o beijo e a troca de coronas, além de ser uma viagem.

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De agora em diante, você, como eu, será convidado para os mais variados eventos. O confinamento está se tornando lenda. Meu conselho: aceite e depois não vá. Ninguém mais entende que você queira ficar isolado. Dê a impressão de que ocorreu um imprevisto. Senão você ganha o rótulo de “careta”.

É um novo jeito de viver, sem contato físico. E com uma nova estética. Cuidado! Se você tomar sol de máscara, ganhará um novo design de bronzeado. Mas já se tornou moda também. Uma amiga foi vista com máscara, top, bolsa e sapatos combinando. Saiba quando dizer: “Que bela máscara!”. Pessoalmente, demorarei muito para retirá-la de meu uso pessoal. No “novo normal”, a máscara terá seu lugar. Nunca abandone a sua.

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Publicado em VEJA de 30 de setembro de 2020, edição nº 2706

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