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Walcyr Carrasco Por Walcyr Carrasco

A hora de parar de seguir

Por que tanto drama quando cortamos os inúteis do Instagram?

Por Walcyr Carrasco Atualizado em 9 out 2020, 11h09 - Publicado em 9 out 2020, 06h00

Já me cansei de contemplar fotos de gente feliz. Parece tremendamente antipático falar assim, eu sei. Mas é difícil passar o dia vendo imagens de looks da moda, gente na academia, viagens, como se a vida fosse eternamente férias. Ainda mais porque não é verdade. Dá impressão que essas pessoas nem sequer espirram. Na real, vivem às voltas com boletos para pagar, crises como qualquer um de nós, e muitas vezes só sorriem nas selfies. Pior, muitos sonham em ser o @felipeneto, mas só conseguem exibir a boa forma física. Pensei muitas vezes: “Serei o único a ter barriga neste mundo?”. Enfim, resolvi dar uma limpada no meu Instagram.

Eu seguia quase 1 800 pessoas. Mal via os posts de cada uma. A gente segue um, depois segue outro… O número vai aumentando. Eu sempre gostei de ter contato com colegas de trabalho, sites literários, editoras (para ver os lançamentos), turismo, artes plásticas e, é óbvio, os amigos. Também os conhecidos. Mas as exigências foram aumentando. Recebia mensagens: “Gostou da minha foto?”. Educadamente, dizia que sim. “Por que não curtiu?” Sinceramente, no início dava o like. E outro, e outro. Virou uma função. Parei. Pedem mil coisas. Como usar minha influência para angariar fundos para vaquinhas virtuais. Respeito as causas. Mas só apoiaria uma vaquinha se conhecesse os organizadores pessoalmente. Já aconteceu tanta história suspeita, não é?

“Muitos não falam mais comigo, desde que comecei. Entre rosnados e lágrimas, sigo dando unfollow”

Gosto de imagens oníricas, esculturas, obras de arte. Não apareciam na minha timeline. Motivo: eu seguia muita página. Iniciei os unfollows. Critério: pessoas ou mesmo amigos com quem não tenho interação pelo Instagram. Se não nos falamos nunca, por que sou obrigado a, por exemplo, ver pela décima vez o TBT da última viagem de fulano à Europa (viagem na qual se endividou, acabou sem lugar para ficar e dormiu no aeroporto, mas os posts exalam plena felicidade, como se tivesse construído a Torre Eiffel)? Mal comecei, vieram mensagens ofendidas. “Que aconteceu? Algum problema?” Gente que não falava comigo há um ou dois anos escreveu magoada. Alguns insistiram para eu voltar a segui-los.

Jamais imaginei que o unfollow tivesse essa carga emocional. Observei que algumas pessoas, como o @leandro_karnal, não seguem praticamente ninguém. Que herói! Cada eliminação é um drama. Quando eu respondo que estou mudando o meu tipo de Instagram, não parecem compreender. Desde quando o Instagram virou problema psicológico? Será que tem alguém em terapia dizendo que dei unfollow?

Por que tanta chateação se os posts não correspondem à vida real? Talvez muita gente acredite que sua vida é assim, tão maravilhosa quanto aparece no Instagram. E que a realidade é somente uma parte chata, desagradável de sua vida. O que desejam que eu seja, um cúmplice dessa ilusão? Se der likes, estou chancelando essa vida de selfies, academias e paisagens?

Muitos nem falam mais comigo, desde que comecei. Mas minha lista já caiu pela metade, praticamente. Ficará ainda menor. Entre rosnados e lágrimas, sigo dando unfollow.

Publicado em VEJA de 14 de outubro de 2020, edição nº 2708

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