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Testes delivery para Covid-19 movimentam condomínios de luxo

50.000 testes do tipo PCR são feitos no Brasil por dia na rede particular

Por João Batista Jr. Atualizado em 17 abr 2020, 11h58 - Publicado em 17 abr 2020, 11h43

Um dos principais gargalos para o enfrentamento da pandemia, a ausência de testes para a Covid-19 é reclamação constante de hospitais públicos e particulares. Luiz Henrique Mandetta, à frente do ministério da Saúde até a tarde de quinta, 16, já repetiu inúmeras vezes em coletivas de imprensa: “não há testes para todo mundo”. Para quem está disposto a pagar, no entanto, os testes são acessíveis em esquema delivery. Laboratórios particulares oferecem serviços de atendimento domiciliar para testar interessados, tanto no formato individual quanto em mutirão. Alguns condomínios de classe média alta e de luxo em São Paulo e no Rio de Janeiro cedem o espaço de lazer para laboratórios fazerem testes de todos seus moradores – deixando de fora os funcionários do edifício, que exercem trabalhos como limpar os botões de elevadores.

O Labi Exames tem feito mutirões do tipo na capital paulista, em prédios de bairros como Jardins e Pinheiros, com equipe munida com luvas, máscaras e máquina de cartão de crédito. Para não ter aglomeração, a ordem é atender uma família por vez. Os valores são de 298 reais para o PCR (feito pela mucosa do nariz e garganta) e 198,45 para o sorológico (sangue). O laboratório do Albert Einstein também faz testes delivery nos prédios, mediante agendamento por telefone: 250 reais pelo PCR (fica pronto em 72 horas) e 417,80 pelo sorológico (48 horas). Devido ao frenético pedido de exames delivery, o Einstein só tem vaga para daqui a duas semanas.

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“Existe demanda de condomínios, clubes e empresas, mas a nossa prioridade tem de ser a qualidade e confiança do exame”, diz Gustavo Campana, diretor-médico da Dasa, rede de laboratórios que inclui Delboni, Alta, Lavoisier e Vital Brasil e atende em quase todos os estados do Brasil. A Dasa também faz exames delivery. Campana lembra que, com a demanda alta, muitos laboratórios pequenos e prefeituras têm importado testes sem saber a procedência do fabricante. “Todo rigor é fundamental neste momento.”

Existem dois tipos de testes: o molecular, chamado de PCR, capaz de identificar o DNA do vírus e detectar sua presença no organismo desde o primeiro dia de infecção. Ele mede isso pela mucosa nasal e da garganta e o material é levado para ser processado em uma máquina ao longo de cinco horas. Esse teste está em falta em todo o mundo e, segundo a orientação a Organização Mundial da Saúde, deve ser administrado em pessoas sintomáticas grave. O outro teste é o sorológico, que identifica a presença de anticorpos no sangue. Ele é indicado a partir do sétimo dia em que a pessoa está infectada. Na tentativa de ficar seguro em relação ao seu status sorológico, o teste sorológico pode causar danos severos. Se a pessoa contaminada faz esse teste no começo da presença do vírus, o teste pode dar o “falso negativo”.

Um pesquisador trabalha na replicação de vírus para desenvolver uma vacina contra o coronavírus, em Belo Horizonte: 50.000 testes do tipo PVR são feitos por dia no Brasil, na rede particular Douglas Magno/AFP

Com a pandemia e o medo instaurados, proliferaram no mercado mundial fabricantes de testes – a maior parte são da China e da Coreia do Sul. Em meados de março, a Anvisa se viu então obrigada a mudar seu protocolo. Não é mais a agência quem testa e valida, pois com a demanda alta ela não teria tempo e mão de obra para fazer centenas de novos testes de marcas diferentes que são importados para o Brasil. “Existe uma grande variedade de fabricantes, é importante que cada laboratório faça uma validação desses testes”, explica Carlos Eduardo Ferreira, presidente da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica. A Dasa não aplica o teste rápido, que fica pronto em questão de minutos, por não sentir confiança nos fabricantes. Já a empresa ZDI Diagnóstico de Imagem, de São Paulo, cobra 320 reais pelo teste rápido feito no laboratório, localizado na Zona Leste da cidade.

Testes para coronavírus: mercado para atender pessoas dento de suas casas e condomínios Thilo Schmuelgen/Reuters

Há um grande risco do teste delivery dar a falsa sensação de segurança. Segundo a Sociedade Brasileira de Infectologia, o teste sorológico só detecta o contato com o vírus após o sétimo dia de exposição. Muitas vezes, os testes têm eficácia de 80%. Ou seja, estão longe de uma precisão total. “A pessoa faz esse exame um dia após estar exposta ao vírus, e o resultado vem negativo. Com isso, ela se sente segura, não se cuida e transmite para mais pessoas”, diz o infectologista Ralcyon Teixeira.

Feitos em casa ou não, os testes no esquema delivery exigem o pedido médico – algo fácil de se obter sobretudo por pessoas de classe média. O laboratório do Einstein pede o atestado na hora de fazer o teste, O Labi Exames e a rede Dase solicitam o documento por WhatsApp na hora de agendar. No Brasil, são feitos pela rede particular 50.000 testes do tipo PCR por dia.

A respeito de sua política relacionada aos testes-delivery, o Hospital Albert Einstein enviou a seguinte nota a VEJA: “O Hospital Israelita Albert Einstein conta com uma quantidade limitada de insumos e prioriza a realização de exame diagnóstico para o novo coronavírus nos pacientes com manifestações agudas respiratórias graves no pronto atendimento ou quando necessitam de internação. Por outro lado, é responsabilidade da organização atender a todos que precisam realizar os exames solicitados por especialistas e, para evitar deslocamentos e a disseminação da COVID-19, é oferecida a coleta domiciliar, que segue o mesmo processamento laboratorial dos exames coletados no hospital.”

O Labi Exames diz usar testes importados de quatro fornecedores, mas a gerente comercial da empresa não informa os nomes delas aos interessados. Ao fim dos exames do Labi Eames, consta o seguinte recado: “os resultados e comentários dos exames não se propõem a dar um diagnóstico final. Este só poderá ser feito por um médico assistente que avaliará a história clínica, exame físico em conjunto com exames laboratoriais”.

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