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Thomas Traumann Jornalista e consultor de comunicação, é autor de "O Pior Emprego do Mundo", sobre o trabalho dos ministros da Fazenda. Escreve sobre política e economia

Temos o Dia D e a Hora H. Falta o X da Questão

Não há como a vacinação dar certo com o boicote do presidente

Por Thomas Traumann Atualizado em 13 jan 2021, 15h07 - Publicado em 13 jan 2021, 15h06

Com a importação de doses de vacina contra Covid-19 da Índia, o ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, escolheu o Dia D e a Hora H para o início da campanha nacional de imunização. A solenidade será na terça-feira, dia 19, no Palácio do Planalto, aproveitando uma reunião do ministro com os governadores, de acordo com o jornal O Estado de S. Paulo. A data foi escolhida por motivos políticos: será uma semana antes do início da campanha de vacinação promovida pelo governo de São Paulo.

Resolvida o dia D e a Hora H, falta o X da questão: como fazer o presidente Jair Bolsonaro parar de boicotar a vacina contra a Covid-19. Desde o Regime Militar, o Brasil batia recordes em participação nas campanhas de vacinação. Com Bolsonaro semeando dúvidas sobre a eficácia das vacinais, sugerindo que os efeitos colaterais serão danosos e que a Covid-19 é uma gripezinha e, portanto, não precisa de tanta preocupação, a porcentagem de brasileiros que pretende se vacinar diminuiu.

As palavras do presidente têm lastro junto a seus eleitores. De acordo com pesquisa de outubro do PoderData,apenas 63% dos brasileiros diziam que “com certeza” iriam se vacinar. Na semana passada, o índice subiu para 75%, mas ainda assim é baixo. A máquina digital bolsonarista coordenada campanha via WhatsApp colocando em dúvida a vacina e incentivando o uso de placebos como a cloroquina.

A disputa política entre Bolsonaro e o governador João Doria só atrapalha. Para atazanar Doria, Bolsonaro chama a vacina da fármaco chinesa Sinovac de “Vachina” e que não se responsabilizaria se algum vacinado “virasse jacaré”. Doria perdeu o tom e forçou o Butantan a divulgar um índice de eficácia da vacina apenas para os casos de internação (78%) e não de infecção com o vírus (50,3%). A confusão aumentou o descrito sobre a vacina.

O plano inicial do Ministério entregue ao Supremo Tribunal Federal prevê a seguinte agenda:

· Fase 1: 14,8 milhões

· Quem será vacinado: profissionais de saúde, idosos com mais 75 anos, indígenas e aqueles com 60 anos ou mais que vivam em asilos;

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· Fase 2: 22,1 milhões

· Quem será vacinado: pessoas com mais de 60 anos.

· Fase 3: 12,6 milhões

· Quem será vacinado: Pessoas com diabetes mellitus; hipertensão; doença pulmonar obstrutiva crônica; doença renal; doenças cardiovasculares e cerebrovasculares; indivíduos transplantados de órgão sólido; anemia falciforme; câncer e obesidade grave;

Somadas as três fases, seriam 104 milhões de doses, suficientes para imunizar pouco mais de 49,5 milhões de brasileiros.

Depois do envio do documento ao STF, o Ministério passou a considerar para o segundo semestre uma quarta fase, que incluiria policiais civis e militares, bombeiros soldados e oficiais das três Forças Armadas, carcereiros e funcionários dos presídios e professores das redes pública e privada.

É bastante, mas não é o suficiente para que a vida volte minimamente perto do normal. Somos 162 milhões de brasileiros com mais de 18 anos e no ritmo do Ministério da Saúde a maior parte da população economicamente ativa estará imunizada apenas em 2022. Isso é uma irresponsabilidade em um momento que o ritmo de contaminação e mortes pelo coronavírus está crescendo. Ou termos econômicos: com menos de 70 milhões de brasileiros vacinados neste ano, esqueça retomada econômica.

Na solenidade de terça-feira, o ministro general vai apresentar uma campanha de publicidade com a slogan “Brasil imunizado, somos uma só nação”. Serão gastos R$ 50 milhões em propaganda para incentivar os brasileiros da eficácia da vacina e da necessidade de que todos se imunizem. É muito dinheiro, mas vai adiantar pouco se o presidente e sua máquina de ódio seguirem boicotando a vacina.

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