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Thomas Traumann Jornalista e consultor de comunicação, é autor de "O Pior Emprego do Mundo", sobre o trabalho dos ministros da Fazenda. Escreve sobre política e economia

Na Faria Lima, o segundo turno já começou

Mercado aposta que o próximo Congresso irá controlar Bolsonaro e Lula

Por Thomas Traumann Atualizado em 3 Maio 2021, 19h49 - Publicado em 3 Maio 2021, 18h01

Para a Faria Lima, o trecho paulistano onde operam corretoras e bancos de investimentos, o segundo turno de 2022 já começou. De um lado está Jair Bolsonaro, do outro Luiz Inácio Lula da Silva, que lideram a sucessão de 2022 com mais de 30% das intenções de voto. Para superar os dois favoritos, a turma do dinheiro já perdeu a esperança que surja um terceiro candidato, liberal na economia e popular entre os pobres. Para a Faria Lima, quem poderá controlar Bolsonaro ou Lula a partir de 2023 será o Congresso. A Faria Lima está apostando que o presidente da Câmara, Arthur Lira, será o seu homem no poder.

Lógico que os bancos vão seguir promovendo jantares, editoriais de jornais e entrevistas repletas de sobreolhos preocupados com a política fiscal, a urgência de reformas e privatizações que nem eles esperam de governos de Bolsonaro ou do PT. Mas, espertos, os executivos do mercado financeiro não colocam o dinheiro na sua fala. Suas apostas são de uma eleição acirrada, hoje com vantagem para Lula.

É possível que estejam certos, mas qualquer previsão faltando 18 meses na política brasileira é como apostar na loteria. É possível afirmar com alguma segurança que Bolsonaro, assim como os três antecessores que disputaram a reeleição no cargo, tem chances reais, assim como o PT, que foi primeiro ou segundo em todas as eleições desde 1989. A partir daí, é preciso cautela.

Um fato, no entanto, é certo: a Faria Lima não entende o Centrão, em geral, e Arthur Lira, em particular. Mesmo executivos que conversam regularmente com políticos ainda acham que o Centrão quer ocupar os governos feito bárbaros, indicando primos para o INSS de Londrina, afilhados no DNOCs e arranjando um laranja para ganhar uma emissora de rádio em Sorriso. Sim, muitos são assim, mas o Centrão de Arthur Lira evoluiu.

O Centrão de Lira não quer mais as migalhas de carguinhos de segundo escalão, mas a estratégia do governo. Por isso, o único ministério indicado pelo presidente da Câmara foi a Secretaria de Governo, que negocia as emendas parlamentares, e sua principal batalha é recriar o Ministério do Planejamento, que distribui os gastos do orçamento da União. Se indicar um aliado para o novo Ministério, Lira toma para si o coração que irriga o país de obras e recursos federais.

Em outros tempos, a estratégia de Lira seria chamada de semiparlamentarismo, uma forma bonita de falar do esvaziamento do poder do presidente da República. A Faria Lima olha e acha bonito porque considera essa uma fórmula de atar tanto o futuro governo Bolsonaro quanto o de Lula.

Há duas contradições, no entanto. A primeira é que o Congresso por natureza é gastador, afinal cada parlamentar foi eleito para levar benefícios diretos para sua região eleitoral. Só que o Brasil está há sete anos com déficit primário, explodiu o Teto de Gastos neste ano e corre o risco de entrar numa dominância fiscal. Nesse século, o país caiu nessa armadilha duas vezes, em 2002 e 2016. Nas duas ocasiões, os impasses foram enfrentados por equipes econômicas robustas – a primeira liderada por Antonio Palocci, a segunda por Henrique Meirelles. Como se sabe, medidas drásticas de austeridade não combinam com deputados querendo dinheiro para construir pontes.

A segunda é desconhecer a natureza do personalismo político. Em outubro de 2022, os brasileiros votarão em Bolsonaro ou Lula ou Ciro Gomes ou quem quer que seja, esperando que o eleito – e apenas ele – recupere o país no pós-pandemia. O Congresso não tem esse protagonismo. É impossível imaginar que, depois que ocorreu com Dilma Rousseff em 2015, um presidente referendado com mais de 50 milhões de votos se deixe ser controlado pela Câmara. É mais prudente a Faria Lima procurar os candidatos a presidente e tentar, legitimamente, influenciar o próximo governo do que apostar num embate entre os Poderes.

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