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Thomas Traumann Jornalista e consultor de comunicação, é autor de "O Pior Emprego do Mundo", sobre o trabalho dos ministros da Fazenda. Escreve sobre política e economia

Lições do ódio online

Como uma reportagem explica a violência da política e da internet no Brasil

Por Thomas Traumann - Atualizado em 29 jul 2020, 10h18 - Publicado em 27 jul 2020, 16h02

Repórter não é notícia. Poucas lições são tão introjetadas em cada jornalista do que a de entender o seu limite. A função de um repórter é ser fiel aos fatos, contar uma história de forma compreensível e tentar copiar o desapego de um cirurgião que atende vítimas sem nome em um acidente de carro. O bastidor de cada texto publicado, o assédio antes da gravação da entrevista no vídeo ou o perrengue de cada nota no site podem servir de pretexto para mais uma rodada na sexta-feira à noite, mas são vistos com desconfiança quando levados ao público. O repórter estrela é como o centroavante folclórico que fala de si mesmo na terceira pessoa.

E como toda regra, há exceções. Em 18 de outubro de 2018, a repórter Patrícia Campos Mello publicou no jornal Folha de S. Paulo a primeira de uma série de textos comprovando a existência de um esquema ilegal de disparos em massa de mensagens pelo WhatsApp para ajudar a eleição de Jair Bolsonaro como presidente. Sem declaração à Justiça Eleitoral, cometendo, portanto, crime de caixa dois, empresários financiaram o envio de dezenas de milhões de vídeos, áudios, memes, piadas, montagens de mamadeira de piroca, fotos de mulheres ensaiando sexo com cruzes nos protestos do #EleNão e qualquer argumento que pudesse trazer um voto a mais a favor do capitão. O Brasil foi o primeiro país onde ficou comprovada a influência do WhatsApp na tomada de voto, forma de propaganda muito sofisticada pela dificuldade em se rastrear a origem das informações. Em 2019, o fenômeno se repetiu nas eleições da Índia. Certamente isso vai ocorrer de novo nas eleições para prefeito deste ano.

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A partir da publicação da primeira reportagem, a vida de Campos Mello virou um inferno. Montagens de fotos suas, ora com símbolos do PT, ora como uma prostituta, se tornaram temas de memes, vídeos e notícias falsas. Seu computador foi hackeado, o número do telefone distribuído para assediadores e a página de youtube do seu filho de 7 recebeu vídeos a chamando de “vagabunda sem-vergonha”. Piorou depois que uma das fontes da reportagem, ex-funcionário de uma das empresas de disparo de mensagens em massa, insinuou em depoimento no Congresso que a repórter queria trocar informações por sexo. O presidente Jair Bolsonaro e o deputado Eduardo Bolsonaro replicaram a torpeza, que se tornou trending topics do Twitter e palavra de busca automática no Google.

Em seu livro A Máquina do Ódio – Notas de Uma Repórter sobre Fake News e Violência Digital (Editora Companhia das Letras; 196 páginas; R$ 39,90), lançado na semana passada, Campos Mello traz muito mais do que apenas o relato de uma vítima de um turbilhão de ódio na internet. O livro é uma grande reportagem sobre como a era digital mudou a política para sempre, mas ele ganha estatura justamente por oferecer ao leitor, sem censura, a dimensão da humilhação que Campos Mello sofreu e a sua capacidade de seguir fazendo reportagem.

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A polarização das redes sociais se tornou a fonte de energia de Jair Bolsonaro no Brasil, Donald Trump nos EUA, Narendra Modi na Índia, Matteo Salvini e Beppe Grillo na Itália, mas este é só o início de um nada admirável mundo novo. A direita populista não tem monopólio da ferramenta e os Democratas nas eleições americanas já mostram como é possível enfrentar o adversário com suas próprias armas. A polarização não se encerra mais no debate entre votar em X ou Y, e vai além. Vai na divisão da sociedade em bolhas de ódio por outras bolhas. Campos Mello conta como é se ver colocar no lugar da vítima e como sobreviver.

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