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Thomas Traumann Jornalista e consultor de comunicação, é autor de "O Pior Emprego do Mundo", sobre o trabalho dos ministros da Fazenda. Escreve sobre política e economia

Bolsonaro é o único puro no meio de tanta gente ruim?

O 'bundagate' do vice-líder do governo no Senado mostra um presidente chafurdando entre corruptos

Por Thomas Traumann - Atualizado em 15 out 2020, 17h38 - Publicado em 15 out 2020, 13h38

O tuíte é de 20 de outubro de 2015 e em quase cinco anos recebeu 13 mil retuítes, 17 mil retuítes com comentário e 24 mil curtidas. No post, o então desconhecido vereador Carlos Bolsonaro disparou: “Todo mundo próximo do Lula é envolvido em corrupção, menos ele. Incrível como esse homem consegue ser puro no meio de tanta gente ruim”. Carlos lacrou, como se diria na época de inocência das redes sociais.

Hoje no almoço, o governo do pai de Carlos, Jair Bolsonaro, dispensou a pedido o vice-líder do governo Chico Rodrigues, flagrado pela Polícia Federal com dinheiro “entre as nádegas” numa operação que investigava desvio de verba de recursos públicos que deveriam ajudar no tratamento de doentes com Covid-19. O inusitado de a polícia achar notas de real sujas de fezes deu ao caso o apelido de “bundagate”.

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Rodrigues é próximo da família Bolsonaro. No seu gabinete no Senado está empregado o sobrinho do presidente, Leo Índio, um dos melhores amigos de Carlos. Em uma transmissão no Facebook, Jair Bolsonaro disse que tinha “quase uma união estável” com Rodrigues, tamanha era a proximidade dos dois. Nas eleições de 2018, Rodrigues tomou a vaga de senador por Roraima do famoso Romero Jucá por um esforço pessoal da família Bolsonaro.

A operação da Polícia ocorreu em Boa Vista, enquanto em Brasília no mesmo horário Bolsonaro dizia que não havia corrupção no seu governo e que por isso a Lava Jato havia acabado. “Tem Lava Jato para os outros. Se eu pegar alguém no meu governo roubando, dou uma voadora ”, disse. Hoje, depois do caso de Rodrigues virar piada internacional. Bolsonaro veio com o lengalenga que “só ministro é parte do governo”. 

Esse critério também não ajuda. O governo Bolsonaro tem um ministro condenado por improbidade administrativa (Ricardo Salles) e outro que fechou um acordo com a Justiça depois de confessar ter recebido financiamento ilegal de campanha da JBS (Onyx Lorenzoni). O secretario de Comunicação é investigado por ter uma empresa contratada pelas emissoras de TV para quem ele distribui verbas. O ministro do Turismo é investigado por desvio de recursos eleitorais e uso de laranjas na sua eleição para deputado federal.

O próprio Bolsonaro é investigado pelo Supremo Tribunal Federal por ter, supostamente, interferido no comando da Polícia Federal para evitar que as investigações do escândalo das rachadinhas chegasse ao seu filho Flavio e sua mulher, Michelle. O caso de Flavio, Michelle e o assessor Fabricio Queiroz está sob investigação pelo Ministério Público do Rio. O presidente está pressionando o governador interino do Rio a trocar o chefe dos procuradores para enterrar as investigações. 

Outros dois filhos políticos do presidente, Eduardo e Carlos, também são investigados no Supremo Tribunal Federal pelo financiamento de uma rede de militantes que distribui notícias falsas e ameaças à vida dos ministros do STF. Na semana passada, o advogado de Flávio e de Bolsonaro, Frederick Wassef, foi um dos responsáveis pela indicação do futuro ministro do STF, cuja missão esperada no Planalto será a de proteger os interesses do presidente e sua família.  

Olhando tudo isso, dá vontade de escrever:  “Todo mundo próximo do Bolsonaro é envolvido em corrupção, menos ele. Incrível como esse homem consegue ser puro no meio de tanta gente ruim”.

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