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Thomas Traumann Jornalista e consultor de comunicação, é autor de "O Pior Emprego do Mundo", sobre o trabalho dos ministros da Fazenda. Escreve sobre política e economia

Biden não será Macron

Presidente dos EUA quer ter papel real para mudar política ambiental brasileira; brigas ficam para depois

Por Thomas Traumann 18 fev 2021, 12h58

A agenda Biden para o Brasil tem duas datas decisivas neste ano:

22 de abril – No Dia da Terra, o presidente Joe Biden vai lançar as bases de um programa global para combater mudanças climáticas, convidando chefes de governo de vários países para um encontro via internet. Jair Bolsonaro será convidado formalmente.

1/12 de novembro – Ocorre em Glasgow, a Conferência das Nações Unidas para Mudanças Climáticas, que marca o retorno dos EUA ao debate ambiental. O plano ambicioso do secretario de Meio Ambiente, John Kerry, é ter até lá um pré-acordo para um fundo de U$ 20 bilhões para zerar o desmatamento ilegal em toda a Amazônia até 2030 (além do Brasil, esse fundo apoiaria ações na Colômbia, Peru, Venezuela, Suriname, Guiana, Bolívia e Equador).

É uma incógnita como o governo Bolsonaro vai reagir a essa pressão, tendo em vista a notória incompetência da sua equipe diplomática e a malícia antipreservacionista do ministério do meio ambiente. Mas dois fatores devem ser levados em conta:

Em menos de um mês, o governo Biden se mostrou menos volátil que Trump e mais firme que Obama. A aprovação do pacote de auxílio por 51 a 50 no Senado, sem ceder aos republicanos, revela um governo que, ao contrário de Obama, não vai se sentar para negociar em busca de um consenso a qualquer preço. O indicador dos primeiros dias de Biden foi mais olhar as pesquisas de popularidade (amplamente favoráveis a um auxílio de U$1.400) do que a opinião dos comentaristas de tv. Numa comparação simples, é uma postura parecida com o de W Bush, com sinais invertidos.

Entender que a equipe de Biden é mais experiente e objetiva do que a de Trump é decisiva para antecipar as relações dos EUA com o Brasil. Lógico que o Brasil é um parceiro importante, mas é menos importante depois que Bolsonaro chegou ao poder. O comércio entre os dois países está no menor indicador em uma década, a influência diplomática e política brasileira na América do Sul é risível e a preservação da Amazônia é levada mais a sério em Washington do que em Brasília.

Chamou a atenção dos americanos o fato de o vice-presidente Hamilton Mourão ter anunciado, na semana passada, o encerramento das operações militares para combater incêndios e desmatamentos ilegais na Amazônia por falta de verbas. A operação, iniciada em 2020 depois do escândalo internacional com o crescimento nas queimadas, foi um fracasso. Em resumo: no ano passado havia 3.500 soldados fazendo alguma repressão à devastação e mesmo assim, os madeireiros e fazendeiros destruíram uma área equivalente à metade do Estado de Alagoas. Em 2021, com o Ibama sucateado e sem soldados, o resultado tende a ser pior.

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Na quarta-feira, 17, o secretário de Meio Ambiente, John Kerry, promoveu uma reunião virtual com os ministros das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Kerry contou pela enésima vez que encontrou e se apaixonou pela sua mulher na Rio-92, sondou a participação de Bolsonaro na reunião do Dia da Terra e colocou em termos vagos a sua proposta de Dinheiro por Floresta. Agora, aguarda a reação brasileira.

O segundo ponto é que a equipe Biden aprendeu com a megalomania do presidente francês Emmanuel Macron. Em 2019, em gestos para o público interno, Macron bateu boca com Bolsonaro pelo twitter. Ele ameaçou paralisar o acordo comercial União Europeia – Mercosul apenas para descobrir, depois, que Bolsonaro não liga à mínima. O resultado foi que realmente o acordo comercial está suspenso, mas a União Europeia deixou de ser interlocutora do Brasil.

A equipe de Biden quer mais resultados e menos lacração pelo Twitter.

Haverá disposição para negociar um acordo de preservação com o governo brasileiro desde que a oferta de Bolsonaro seja minimamente aceitável.

É difícil ser otimista com o histórico dos dois anos do governo Bolsonaro.

Neste governo, um território igual ao de Israel foi devastado, o Ibama acabou e as prioridades do governo no legislativo incluem legalizar terras invadidas em parques nacionais e autorizar garimpo em terras indígenas.

Já pelo lado Biden, também é difícil supor que a paciência seja ilimitada. Se por um lado não será estridente feito um Macron, o governo Biden não parece ter medo de atropelar quem o enfrenta.

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