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Thomas Traumann Jornalista e consultor de comunicação, é autor de "O Pior Emprego do Mundo", sobre o trabalho dos ministros da Fazenda. Escreve sobre política e economia

A VEJA, Bolsonaro admite conversas ‘fora das quatro linhas’

Pela primeira vez na democracia, um presidente precisa afirmar que não vai “melar eleições”

Por Thomas Traumann Atualizado em 24 set 2021, 15h51 - Publicado em 24 set 2021, 15h48

A entrevista do presidente Jair Bolsonaro ao diretor de redação de VEJA, Maurício Lima, e o diretor da sucursal de Brasília da revista, Policarpo Junior, é sintomática do espírito do tempo da política brasileira. Nunca desde o retorno da democracia, um presidente precisou afirmar com todas as letras que não pretende dar um golpe de Estado.

“Daqui pra lá, a chance de um golpe é zero”, disse Bolsonaro para, como sempre sem um centigrama de prova, insinuar que poderia haver ímpetos golpistas no “de lá pra cá (a oposição)”.

Ameaças anteriores e o hábito compulsivo de mentir do presidente permitem colocar em dúvidas as declarações na entrevista, mas não alteram o seu efeito simbólico. Um presidente que precisa vir a público afirmar que não vai dar golpe é um presidente acuado. “Olha só: vai ter eleição, não vou melar, fique tranquilo, vai ter eleição”, prometeu Bolsonaro.

Questionado pelos jornalistas sobre os motivos da carta pós-7 de Setembro, que decretou uma trégua com o Supremo Tribunal Federal, Bolsonaro revelou que existem pessoas do seu entorno que defendiam um golpe. Não disse quais e nem detalhou as circunstâncias, mas confirmou as suspeitas sobre o caráter antidemocráticos das manifestações de 7 de Setembro. Disse Bolsonaro:

“Esperavam que eu fosse chutar o pau da barraca. Você imagina o problema que seria chutar o pau da barraca. Em São Paulo (no comício na avenida paulista), quando eu falei em negociar, senti o bafo na cara. Extrapolei em algumas coisas que falei (ao ofender o ministro Alexandre de Moraes), mas tudo bem”.

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VEJA – “O que significa chutar o pau da barraca?”

Bolsonaro – “Quem que eu fizesse algo fora das quatro linhas (fora dos limites constitucionais). E nós temos instrumentos dentro das quatro linhas para conduzir o Brasil. Agora tudo mundo tem que jogar dentro das quatro linhas. Não vou mais entrar em detalhes porque quanto mais pacificar melhor”.

Entrevistas presidenciais são uma arte particular do jornalismo. Ninguém chega ao terceiro andar do Palácio do Planalto despreparado para enfrentar uma artilharia de questionamentos, por isso a agressividade é contraproducente. É preciso firmeza e estratégia para uma entrevista.

Bolsonaro aceitou falar a VEJA com um intuito de reforçar a imagem pós-Sete de Setembro, menos agressiva, com juras de amor à política fiscal e aos partidos do Centrão.

O raio-x que sai das duas horas de conversa, no entanto, é corrosivo. O presidente repetiu mentiras sobre benefícios da cloroquina, dúvidas vacinas contra Covid, voto impresso, falta de corrupção no governo e relação da inflação com o isolamento social. Ele não conseguiu coordenar um tirocínio sobre os motivos que levariam os eleitores a votarem pela sua reeleição. É como se o presidente vivesse em um mundo paralelo, longe da realidade de um país com quase 600 mil mortos por Covid, inflação de 10% e risco de racionamento. Um presidente cujo único mérito é negar a intenção de um golpe de Estado.

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