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Thomas Traumann Jornalista e consultor de comunicação, é autor de "O Pior Emprego do Mundo", sobre o trabalho dos ministros da Fazenda. Escreve sobre política e economia

A hora mais difícil de Bolsonaro

Presidente confessa a apoiadores: 'Não existe um momento mais difícil do que esse que estou vivendo aqui no Brasil'

Por Thomas Traumann 29 set 2020, 14h50

O presidente Jair Bolsonaro disse hoje pela manhã (29/09) a um grupo de apoiadores na entrada do Palácio do Alvorada que atravessa o momento mais delicado desde que tomou posse . “Ser presidente, governador ou prefeito, não é sentar na cadeira e esperar a banda passar. Tem que tomar decisões, momentos difíceis. Não existe um momento mais difícil do que esse que estou vivendo aqui no Brasil, não existe”, confessou.

O desabafo vem menos de 24 horas do terceiro fracasso do governo em desenhar um plano para financiar o programa social com a marca Bolsonaro para substituir o Bolsa Família, de herança petista. Para conseguir o dinheiro para o novo programa, o ministro Paulo Guedes propôs em agosto acabar com o seguro desemprego, o abono salarial e a Farmácia Popular. Bolsonaro vetou. Depois Guedes trouxe a ideia de congelar o salário mínimo e as pensões e tomou um novo “não”.

Na segunda-feira (28), Guedes convenceu Bolsonaro de uma terceira alternativa: tirar dinheiro do Fundeb (o fundo que sustenta a educação nas escolas municipais) e adiar o pagamento dos precatórios (dívidas federais que a União já perdeu na última instância da Justiça e precisa pagar). A primeira parte do plano foi rechaçada por deputados e prefeitos, além de ser ilegal. A segunda parte é um calote, e o mercado reagiu derrubando as ações brasileiras.

O tempo corre contra o presidente. O Auxílio Emergencial que atende 66 milhões de brasileiros foi reduzido de R$ 600 para R$ 300 neste mês e vai acabar em dezembro. Quando isso acontecer, apenas os 35 milhões de beneficiários do Bolsa Família vão seguir recebendo suas mensalidades, em torno de R$ 190.

O impacto na economia será tremendo. São 31 milhões de brasileiros sem nenhuma renda a partir de janeiro procurando emprego num país sob a pior recessão do século. Para piorar, quase 12 milhões de trabalhadores ainda mantem seus empregos porque aceitaram corte nos salários. Esse acordo termina em novembro e só deve ser prorrogado até janeiro.

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  • “Chegou a fatura: a previsão é para que janeiro do ano que vem nós termos 20 milhões de pessoas entre pessoas informais, os invisíveis, o pessoal do Bolsa Família também que vive uma situação complicada, quase sem renda”, disse Bolsonaro. “Se esperar chegar em 2021 para ver o que vai acontecer, podemos ter problemas sociais gravíssimos no Brasil. Eu estou falando problemas sociais que é uma forma educada para falar distúrbios sociais, que a esquerda pode aproveitara-se disso e incendiar o Brasil.”

    Não há solução simples porque não há dinheiro que, ao mesmo tempo, ajude a população mais necessita e garanta uma bandeira eleitoral para 2022.

    Qualquer alternativa para manter um programa social que sustente 50 milhões de brasileiros recebendo R$ 250 por mês vai custar R$ 60 bilhões. É quase o dobro do que o Brasil gasta por ano com o atual Bolsa Família.

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    Vamos por hipótese supor que o governo federal conseguisse vender a Petrobras, sabe quanto entraria nos cofres da União? Menos de R$ 120 bilhões (sem contar a cláusula de controle). Para sustentar o programa social de Bolsonaro até a eleição, o País gastaria em dois anos o valor de uma Petrobras (ou o equivalente a quatro Eletrobras a cada ano). É muito dinheiro.

    Bolsonaro disse nesta terça-feira uma coisa certa: “Pior do que uma decisão mal tomada é uma indecisão”. Vários presidentes já enfrentaram o dilema de decidir entre o melhor para o país e o melhor para conseguir votos. Em 1986, José Sarney adiou o fim do Plano Cruzado; em 1998, FHC adiou o fim do câmbio fixo; em 2014, Dilma Rousseff adiou o ajuste fiscal. Todos apostaram em suas campanhas. Se Bolsonaro errar na sua decisão, quem paga a conta são todos os brasileiros.

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