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Nova Temporada Por Fernanda Furquim Este é um espaço dedicado às séries e minisséries produzidas para a televisão. Traz informações, comentários e curiosidades sobre produções de todas as épocas.

Opinião – ‘Better Call Saul’ – 1ª Temporada

Incapaz de oferecer uma nova série que consiga conquistar o mesmo sucesso de Breaking Bad, Mad Men, e agora The Walking Dead, o canal AMC entrou no ramo de spinoffs, recurso normalmente utilizado pelos canais da rede aberta, que estão mais inclinados a investir em franquias para segurar audiência. A tentativa de gerar uma spinoff de Mad […]

Por Fernanda Furquim Atualizado em 1 dez 2016, 15h41 - Publicado em 12 abr 2015, 17h23
(E-D) Mike e Jimmy (Fotos: AMC)

(E-D) Mike e Jimmy (Fotos: AMC)

Incapaz de oferecer uma nova série que consiga conquistar o mesmo sucesso de Breaking Bad, Mad Men, e agora The Walking Dead, o canal AMC entrou no ramo de spinoffs, recurso normalmente utilizado pelos canais da rede aberta, que estão mais inclinados a investir em franquias para segurar audiência. A tentativa de gerar uma spinoff de Mad Men falhou, visto que seu criador, Matthew Weiner, se recusou a desenvolver uma série derivada de sua criação. Sobraram Fear the Walking Dead, spinoff de The Walking Dead encomendada este ano, e Better Call Saul, a série derivada de Breaking Bad que estreou em fevereiro e já garantiu sua segunda temporada. No Brasil, ela é exibida pelo site de streaming Netflix, que ofereceu um episódio por semana, conforme eles eram exibidos nos EUA.

Entre os personagens que já faziam parte do universo de Breaking Bad, o advogado Saul Goodman (Bob Odenkirk) parecia ser a melhor escolha como protagonista da nova produção, tendo em vista sua popularidade junto aos fãs da série. Malandro, porém simpático e eficiente em seu trabalho, Saul era o elemento cômico da história. Em função disso, Vince Gilligan, criador de Breaking Bad, e Peter Gould, roteirista do episódio que introduziu o personagem na série, chegaram a cogitar a possibilidade de transformar a spinoff em uma comédia, o que a tornaria uma das poucas produções derivadas a alterar seu gênero, em relação à série mãe. Pelo que me recordo, a primeira que fez isso foi Lou Grant, um drama que surgiu da série Mary Tyler Moore, uma sitcom. Mas, conforme o projeto era desenvolvido, os roteiristas decidiram definir a spinoff como uma dramédia, e não uma sitcom, que seria situada anos antes dos fatos ocorridos em Breaking Bad.

Originalmente prevista para estrear em novembro de 2014, a série foi adiada para o início de 2015, em função dos atrasos na produção. Durante este período, Gilligan chegou a manifestar publicamente seu temor de ter tomado a decisão errada em aceitar criar uma série derivada.

Pelo resultado apresentado em sua primeira temporada, podemos concluir que Better Call Saul oferece um grande potencial para se desenvolver como uma série independente da produção da qual se originou. Mas, neste momento, ela ainda depende de sua referência a Breaking Bad para conseguir atrair o interesse do público, canais internacionais e até mesmo da mídia, visto que seu enredo e descrição de personagens, por si só, não são capazes de vendê-la.

A história gira em torno de um advogado de porta de cadeia que luta para se estabelecer profissionalmente. Astuto e com boa lábia, ele se esforça para se manter dentro da lei, enquanto cuida do irmão, um advogado renomado que passa por um momento difícil em sua vida. Em paralelo, a trama apresenta a vida de um ex-policial que tenta se aproximar da nora e de sua neta, enquanto exerce uma função que está abaixo de sua capacidade profissional.

(E-D) Howard, Jimmy e Kim

(E-D) Howard, Jimmy e Kim

Alguns leitores podem considerar a descrição de personagens um spoiler. 

Logo nos dois primeiros episódios os fãs de Breaking Bad são presenteados com algumas referências à série original. Uma delas abre o primeiro episódio. Com uma fotografia em preto e branco, a história mostra o que aconteceu a Saul Goodman depois que ele deixou Walter (Bryan Cranston) e saiu de Breaking Bad. Em seguida, a história volta ao passado, para o ano de 2002, período em que Goodman ainda é Jimmy McGill, um advogado que atua como defensor de pessoas que não têm recursos financeiros para pagar um advogado.

Neste momento, Jimmy é um homem que luta para se manter honesto, mas se sente injustiçado pelo sistema e pela sociedade. Ele se esforça muito para conseguir subir na vida, mas sempre sofre um revés que o leva de volta ao ponto inicial. O problema é que Jimmy ainda é um malandro. Antes de se tornar advogado, ele tinha prazer em aplicar golpes, com os quais se sustentava até que seu irmão Chuck (Michael McKean) o ajudou a sair de uma enrascada. Sentido-se devedor do irmão e decidido a dar um jeito na vida, Jimmy resolve seguir ‘o bom caminho’.

Se em Breaking Bad temos a transformação de um homem bom em um criminoso frio e calculista, em Better Call Saul temos, nesta primeira temporada, a tentativa de um vigarista de se tornar um homem honesto. Como já sabemos qual será o final (vide a série mãe), a trama não vai se arrastar por duas ou mais temporadas se agarrando à ideia de que Jimmy conseguirá se transformar. Na verdade, o objetivo é o de revelar ao público como Jimmy se tornou o advogado Saul Goodman.

Ao longo dos dez primeiros episódios produzidos, vemos Jimmy se torturando para conseguir mudar sua natureza e se transformar no homem e no profissional de quem seu irmão sentiria orgulho. O problema é que, embora tenha consciência do que é certo e errado, embora suas intenções sejam boas, e embora ele seja leal ao irmão, aos clientes e aos amigos, a forma como Jimmy lida com as situações que se apresentam continua sendo a de um vigarista com excesso de confiança.

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Neste primeiro momento, Jimmy tem duas grandes preocupações: ganhar dinheiro e o bem estar de seu irmão, não necessariamente nesta ordem. Chuck é um advogado bem sucedido que no momento está afastado do trabalho. Por razões que ainda desconhecemos, Chuck desenvolveu hipersensibilidade a qualquer energia eletromagnética. Desta forma, ele vive recluso em sua casa, afastado de telefones, televisão, rádios, computadores, luz elétrica e até mesmo do sol. Pesquisando em livros uma forma de curar sua doença e registrando suas análises sobre seu estado em uma máquina de escrever manual, Chuck depende totalmente de Jimmy para lhe trazer alimentos e fazer serviços de rua. Pouco sabemos de seu passado, apenas que ele foi um grande e respeitado advogado, sócio fundador de um renomado escritório de advocacia.

A relação dos dois irmãos se torna um ponto importante na trama, visto que Chuck é a única família que Jimmy tem e sua principal referência na sua luta para se tornar um homem melhor. Eles não são necessariamente amigos íntimos. O que temos aqui é a relação do irmão mais velho, um homem determinado e de princípios e opiniões fortes, com o mais novo, alguém que passou muitos anos fugindo das responsabilidades da vida. Jimmy é o homem que busca pela aprovação do irmão mais velho, o qual, por sua vez, não se sente à vontade para expor sua fragilidade, colocando-se em uma posição de dependência.

Chuck

Chuck

Enquanto isso, Jimmy luta para conseguir bons clientes pagantes, mantendo seu escritório, uma sala minúscula localizada nos fundos de um salão de beleza. Ele não se apresenta como um advogado que tem paixão em aplicar as leis e fazer justiça. Para Jimmy, ser advogado é uma extensão dos golpes que costumava aplicar nos trouxas. Tudo é uma questão de lábia: convencer uma vítima a cair em seu golpe ou os jurados/juízes sobre a inocência de seus clientes. A grande diferença é a de que ele ganhava mais dinheiro como golpista.

Os esforços de Jimmy em se tornar honesto lhe rendem uma amizade com Kim (Rhea Seehorn), advogada da Hamlin, Hamlin & McGill, escritório de Chuck, que o ajuda sempre que possível, desde que não comprometa sua posição e carreira. Se por um lado Jimmy tem necessidade de provar ao irmão que é alguém de valor, é a fé de Kim em sua capacidade profissional que lhe dá forças para continuar lutando contra sua natureza. Ao longo desta trajetória tortuosa, Jimmy consegue ajudar algumas pessoas que ele encontra pelo caminho.

Neste primeiro momento, a vida de Jimmy é narrada sob seu ponto de vista. Os demais personagens estão à sua disposição, exercendo funções na história que lhe permitam mostrar ao público o quanto ele é malandro e esperto, porém esforçado e de bom coração. Com isso, não acompanhamos a vida dos demais personagens. Eles foram bem construídos, e são capazes de conduzir situações próprias mas, pouco sabemos sobre Chuck, Kim ou Howard (Patrick Fabian), sócio de Chuck que é tratado por Jimmy como um inimigo. Esta abordagem facilita a vida dos roteiristas para conduzir a opinião do telespectador, levando-o a confiar, compreender e apoiar Jimmy em tudo o que ele faz mesmo que, em alguns momentos, não concorde com seus métodos. Se a vida dos demais personagens tivesse sido desenvolvida, neste primeiro momento, teria sido muito mais difícil para o personagem, e para os roteiristas, conquistar a cumplicidade do público.

Além da história de Jimmy temos a de Mike (Jonathan Banks), outro personagem introduzido em Breaking Bad. Ao contrário dos demais, Mike ainda não está atrelado à história de Jimmy. Sua trajetória corre em paralelo, sendo que, por vezes, ela se cruza com a do advogado. Em Better Call Saul conhecemos um pouco mais sobre o passado de Mike antes dele se associar a Gus (personagem de Breaking Bad).

Mike é um ex-policial que, após a morte do filho, tenta mudar de vida. No momento em que a série tem início, ele trabalha no caixa do estacionamento do Tribunal de Justiça de Albuquerque, no Novo México, onde, por vezes, encontra Jimmy. Os dois não se tornam amigos de imediato, mas algumas situações que surgem ao longo do caminho levam cada um a buscar a ajuda do outro. Ainda assim, a história dos dois se mantém separada por toda a temporada.

O objetivo de Mike é o de assegurar o futuro de sua neta. O problema é que sua nora Stacy (Kerry Condon) não aceita sua ajuda. No momento, os dois não têm um bom relacionamento, o que leva Mike a buscar uma forma de se reaproximar dela e conquistar sua confiança. Ao longo dos episódios, vamos conhecendo um pouco mais da personalidade deste homem sisudo e reservado, de poucas palavras, que não confia em ninguém. Mas, conforme sua história se desenvolve, o público vai tomando conhecimento de seu lado mais sensível, seus remorsos e suas dores, o que permite ao telespectador compreendê-lo melhor.

Mantendo a qualidade dos diálogos e da fotografia de Breaking Bad, a série Better Call Saul oferece nesta primeira temporada roteiros que foram construídos para dar ao telespectador informações básicas sobre a origem e personalidade dos dois protagonistas, bem como suas motivações e conflitos. Esta é uma maneira de reentroduzir os personagens de forma que o público deixe de lado, ao menos por enquanto, as informações que ele tem de Saul e Mike em Breaking Bad. Tudo indica que, na segunda temporada, veremos a morte de Jimmy e o nascimento de Saul.

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